O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 20 de junho de 2009

Dos "Belamente Adornados"


"Trois regnes", desenho de José Roosevelt



Eis provido de um assento o esqueleto do bastão-insígnia!
Tu, designada para seres sua mãe,
Tu, designado para seres seu pai;
Isto acontece para que tenhais
Bela grandeza de coração.
Só assim haverá perfeita plenitude.


[recolha de Léon Cadogan, estudioso do povo Guarani]


Estas palavras, vindas de um deus e pronunciadas pelo sábio que as ouviu, anunciam que a mulher está grávida de um rapaz, metaforicamente chamado “esqueleto do bastão-insígnia”: este instrumento brandido pelos homens durante as danças rituais, é o sinal da masculinidade. Engendrar uma criança é uma das condições de acesso ao estado de aguyje, de perfeita plenitude, pois trata-se de tornar um espaço – o corpo que irá nascer – apto para receber uma pequena partícula da substância divina, uma Bela Palavra, uma alma. As crianças são assim uma mediação entre os adultos e os deuses.

Pierre Clastres
(in”O Grão-Falar, Mitos e Cantos Sagrados dos índios Guarani
Editora Arcádia, Lisboa, 1977, pág. 101 e seg.
Tradução de Luísa Neto Jorge, aprovada pelo autor


Atrevo-me a acrescentar, na base de tão belas palavras.
Cada alma, cada Bela Palavra (como dizem os Guarani),”esses que belamente são adornados” brotam-nos do futuro, como flores do presente, dando sentido pleno e inteiro ao “Velho Álbum” que nos escreve e vê no “silêncio dos versos.”

Cada palavra e cada silêncio nela, reflectem-se mutuamente. Tal como os seres: reflexos, às miríades, d’O que não tem reflexo, pois neles mora e a todos adorna - adormecido, ainda que acordado; desperto, ainda quando saudosamente esquecido de si.


Desde o mar, espaço primordial de todos os estados e todo o estar...
(A Liliana Jasmim, que persevera no Belo Adornar de si...)

23 comentários:

Ser disse...

"As crianças são assim uma mediação entre os adultos e os deuses."

Ser adulto é querer ser Deus.
Querer ser Deus é ser injusto.

Ser criança é ser melhor. É o espaço onde o adulto se esquece de ser Deus e a justiça se cumpre.
Ser criança não é mediação. É ser Deus.

Concluindo disse...

Ninguém é criança.

Nuno Maltez disse...

Há uma ópera brasileira chamada "Il Guarani". Vi-a uma vez, tem índios dentro.

roda dentrada disse...

Vê-se que tentas acompanhar...

Liliana Jasmim disse...

Agradecida por estas palavras,
nas quais estendi, um pouco das leituras nesta manhã de sol.

"Nenhuma sensação vem desacompanhada. Não há sensação visual sem sensação auditiva. Uma relação entre a intensidade do fenómeno físico e o estado da consciência é que acorda..." (Fernando Pessoa)

Númenon - Ser

Fenómeno - Extensão

Fenómeno - Relação

Pessoa dizia-nos, que:

"Deus é o númenon do qual o universo e o fenómeno. O universo é o numénon do qual nós, isto é, os indivíduos, somos os fenómenos.

O universo é o fenómeno de Deus, nós (os indivíduos) somos os fenómenos do Universo"

De pé aplaudindo, disse...

"... Mas na orquestra, não há esperança que me valha. Na orquestra reina a mais terrível hierarquia do saber, a terrífica hierarquia da decisão em tempos encontrada, a horrível hierarquia do talento, a hierarquia física imbatível, imposta pela natureza, a hierarquia das vibrações e sons; não se deixam nunca tentar por uma orquestra!..."

Patrick Suskind, " Contrabaixo"

Correcccccção disse...

Repondo a letra em falta: "O" Contrabaixo.

Rui Miguel Félix disse...

Cada passo,
em cada silêncio que impulsiona a distância à origem,
há uma lágrima infantil vertida entre passos em caminho...
Uma lágrima de saudade em memória do tempo ser criança.

Gratíssimo Lapdrey,
Um abraço fraterno.

Fénix disse...

Oh! Que ingénua... que idiota...
Papinha!

renascida disse...

"Fénix"

baal disse...

as crianças querem lá ser mediação. lapdrey dedica-te ao guaraná

Anónimo disse...

ai ai ai Baal, então isso diz-se?
não sabes da pureza das crianças?
da energia natural, e poderosa, que emanam dos confins do universo?
que a cultura resulta de hábitos e costumes incutidos/assimilados/transmitidos/transformados desde crianças?

medita..sonha...e s~e feliz
bj amigo

frag

Amélia Pureza disse...

FASES DE UM PROJECTO:
1-Entusiasmo
2-Desilusão
3-Pânico
4-Procura de um culpado
5-Punição de um inocente
6-Elogios e honrarias para quem nada fez.

Anónimo, porque juntaste a fase 4 com a 5?
Meditaste, foi?

Graograman disse...

A/C de:
Perelim, Floresta Nocturna
Rua Michael Ende
Travessa da História Interminável
2009-021 Deserto das Cores

Exmas Vítimas

Não vos conheço. Não há sequer possibilidade de vos conhecer “porque sou o mais mortífero de todos os seres de Fantasia.”
Durante muito tempo, chamei por Alguém no Deserto das Cores mas respondeu-me apenas um eco de nuvens de pó colorido deixando um hálito a Universo em cinzas. Por isso, a minha juba arde em chamas ondulares e sou o senhor do Fogo nesta Terra inóspita. Não há nada perto de mim porque não há nada de mim por perto. O meu rugido é feito de céu e de lama e um dia, será derradeiro. Mas ainda assim, ninguém ouve. Poderia ter um único amigo, o Bastian, admirável e corajoso, que viaja por dentro e por fora da realidade e da fantasia. Para se salvar, vai salvando outros, insistindo no esforço de ser feliz e na devolução da saúde a mundos interiores… Na bandeira, aquela treta da causa e consequência como se fosse verdade.
Mas, eu não! Não há nada a fazer comigo porque queimo florestas de dia e à noite transformo-me em pedra negra, dura e fria. Está na minha natureza este clarão tumular que me sai da juba e tudo arrasa. É um problema ancestral.
Pobre Bastian que julga ter-me dado alguma novidade ao fazer-me meditar. Que julga que me vai salvar do eu de mim. Pensa que na desinstalação meditativa a verdadeira semente brotará e vai daí, remete ao silêncio o que sempre foi do silêncio, o que sempre ao silêncio voltará.

Grata pela ausência,
Saudações Leoninas

Nunca Mais disse...

A profundidade é tão superficial...

Para sempre disse...

A superficialidade é tão profunda...

Sugestão disse...

A índia da figura precisa de silicone!
Um soutien também calhava bem!

Pensando melhor disse...

Se for um índio, está bem assim.

Subtileza disse...

Reparei que tem um problema nas perninhas. Ou é impressão minha?

Crítica de arte disse...

Ainda por cima, nasceu-lhe uma flor nas costas! Um azar nunca vem só!

serenidade disse...

é impressionante como a quantidade de 'disparates' abunda.

A arte, com que outros um dia escreveram, pintaram ou cantaram, é reduzida a isto? A comentários de lixo?

a crise anda por ai, mas não tão grave como a crise de espírito, como por aqui se depreende.

Em nenhum outro ligar, encontro tantos comentários assim (tirando os blogues das politiquices e suas maroscas), por isso não compreendo mesmo, porque nascem aqui tantas serpentes com o veneno desejoso de sair pela boca...talvez vos corra mal a vida, talvez seja isso...

Ou talvez, haja tanta censura, que só aqui podeis gritar o pior que há dentro de vós...

enfim, dava uma tese, se dava...

serenidade disse...

pequena correcção

'em nenhum outro lugar'

galês disse...

"Caçar com falcões, cães ou cavalos
é arte nobre que para ele não tem segredo.
Sabe imitar uivos e pios
e a presa ferida nunca lhe foge.
Não há ninguém que tenha o jeito
de bem lidar com cães e cavalos como
tem o moço das mãos suaves,
dos olhos meigos.

("As mãos suaves e os olhos meigos" - canção popular do séc. XVI - última estrofe)