O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 13 de junho de 2009

o paradoxo das ilusões

«Tomemos aleatoriamente um "ponto" de referência perante o infinito.

Denominaremos este ponto de "o observador".

A partir do observador, olhemos o passado; veremos que todas as coisas possíveis e impossíveis já aconteceram.

Agora olhemos para o futuro; veremos que todas as coisas possíveis e impossíveis irão acontecer.

Finalmente, olhemos para o presente, veremos sempre o mesmo: que neste instante, todas as coisas possíveis e impossíveis estão acontecendo.

Então o "observador" é uma abstração mental; uma ilusão paradoxal diante do infinito aparentemente imutável.

Na realidade, aquele ponto aleatório de referência (você e eu), constitui um instante mágico que se pontua o infinito; nada mais do que isto porque o "finito está para o infinito sempre a uma distância infinita".»

(J. Krishnamurti)

10 comentários:

Iluso disse...

Não há observador nem observado: este é o único fado.

Lapdrey disse...

O "finito está para o infinito sempre a uma distância infinita", senhor Krishnamurti? Pólvora redescoberta!

Eu diria que "no" "instante mágico que se pontua o infinito" não há "longe nem distância" como diz Richard Bach.

Do finito para o finito, só há "distância" porque a nossa mente para si mesma a "pro-jecta" espacialmente no tempo; do infinito para o infinito, obviamente nem sequer há o que possa "distanciar-se", quanto mais ser "observado"...

Obrigado, Viver de Improviso, por me confirmar mais uma vez que (salvo erro meu, o que pode bem acontecer) Krishnamurti não se refez do trauma que a Teosofia se causou na juventude: difícil, hein!

("Malvada" da vovó Annie Besant e quejandos! Deviam é ser exumados e fazerem-lhe o mesminho!
Fica para a próxima... Isto, claro, se não vierem todos como osgas...)

aurora disse...

"Brahma disse:
- Mesmo depois de ouvir dez mil explicações,
um tolo não se torna mais sábio.
Mas um homem inteligente só
precisa de duas mil e quinhentas."

Mahábhárata, 4

Má barata disse...

Lapdrey, limpa as lunetas, ajeita-as na ponta do ranhoso nariz, assume um ar professoral e destila:

"Tomemos catotímia plebar
E catafalco poliglómico
E deixemos ambos ciclicamente flutuar
Em dramolírico na-atómico.

Através de pingosos ectoplases
Purga-se o xistomotímico mirtol,
Que de novo com antigases
Se leva até ao tintol

Baseado em humano cogumelo
De inflexável proclamato
Tinge o azífero marmelo
Granítico com o termóstato

Conjectura a inglicose
Em seguida em ácidos de paridade
Baconiza-se a esclerose
Em alta – por mil – qualidade

Mas a dose não é de malandrice
Através de ganovado criminol
Permanece a complexa drexa na mentirice
Como instável ulcool

Por isso atenção à fantasmasia
No diabólico contarco
Pois esfrega a fresadora fantasia
E facilmente cortilha o sadofraco

Estando isto contemplido, então assim se faz o tímico
Galaxíoparaláxiovax
Em piromanico sal alquímico
Como aldrubálico minimax."

(copiado de Michael Ende in “O elixor dos desejos”)Oh, cometi uma gaffe numa palavra.

Lapdrey disse...

Caríssimo Má’ Barato Nã Há,

(Momento, p.f. – limpando as lunetas Sting, ajeitando-as na ponta do nariz ranhoso de alergias variegadas, fazendo denodado tentame de assumir ar professoral e preparando-me para, a pedido, destilar espremidamente algo que se veja)

Muito agradeço a Vossa Ilustritude a pérola reliquosa que há feito chegar por esta via virtuosa, perdão, virtual.
Como me sinto mais que honradíssimo, honradérrimo, por semelhante trabalhadeira citação do Sr. Miguel Ende (ao domingo não falo inglês), não tenho como não retribuir a preceito tal prestimoso mimo.

(Momento! Vou buscar a emplumagem gay, ok? Já está!)

Assim sendo, aqui deixo, mais que penhorado, empenhorado, aqui deixo algo a preceito de ser digno da lavra que hei recebido de Vossa Barateza.

Trata-se de algo que reputo de precioso relicário e de imprescindivelmente fundamental para quem queira saber limpar lunetas (mesmo que não Sting), ajeitar o nariz pontudo entre os apoios nasais da antiestaminical penca, e sobretudo queira lograr almejar assumptar ares de profe, quando destilando esteja. E de que se trata, pois?

Meu caro Amigo Saldo Má’ Barato de Junho, trata-se do “Infame Rabelais”(S. Francisco de Sales), do “alçapão do espírito” (Victor Hugo), do “Homero trocista” (Théophile Gautier), do “filósofo ébrio” (Voltaire), do “ primeiro surrelaista” (Marcel Aymé), etecétera, trata-se, numa palavra (aliás em duas), de François Rabelais, suposto Mestre Alcofribas, abstractor de requinte.

Aqui lho trago, caríssimo passeante comblóguico, a sua (dele)enumeração de livros bestialmente essenciais de, ao menos, saber que existem, ao menos da thelémica imaginação do ilustre filho de Devinière.

Aqui vai a coisa. No original francês, já se vê, para se chuchar devidamente todo o tutano do seu impertinentíssimo linguajar.

Bom proveito. Já agora, aproveitosos arrotos.
Já agora também, uma prévia citação duma fala ínsita duma rabelaisina personagem, o impagável Senhor Chuparranho (será uma prefiguração minha?), que reza assim:

“ Se acaso a iniquidade humana fosse tão facilmente avaliada em julgamento categórico, como ressaltam as moscas na brancura do leite, macacos me mordam se o mundo não estaria tão carcomido dos ratos como está, e na terra existiriam tantas orelhas cobardemente ratadas.”
(Rabelais, “Pantagruel”, Edições & Etc – Publicações Culturais Engrenagem, Lisboa, 1975, pág. 93)

Nota: Vai isto em dois comentários seguidos, visto que os limites arbitrariamente impostos pelos senhores fidalgos de Monsieur de Google não chegam para as nossas entornadas (des)medidas.

Lapdrey disse...

Aqui vai a ilustremente desavergonhada prosa de Rabelais.

"Et trouva la librairie de sainct Victor fort magnificque, mesmement d’aulcuns livres qu’il y
trouva, desquelz s’ensuit le repertoyre, et primo:
Bigua Salutis,
Bragueta Juris,
Pantofla Decretorum,
Malogranatum Vitiorum,
Le Peloton de Theologie,
Le Vistempenard des Prescheurs, composé par Turelupin,
La Couillebarine des Preux,
Les Hanebanes des Evesques,
Marmotretus de Baboinis & Cingis cum commento D’Orbellis,
Decretum Universitatis Parisientis super gorgiasitate Muliercularum ad placitum,
L’Apparition de saincte Geltrude à une Nonnain de Poissy estant en mal d’enfant,
Ars honeste pettandi in societate per M. Ortuinum,
Le Moustardier de Penitence,
Les Houseaulx, alias les Bottes de Patience,
Formicarium Artium ,
De brodiorum usu et honestate chopinandi, per Silvestrem, Prieratem Jacospinum,
Le Beliné en court,
Le Cabatz dês Notaires,
Le Pacquet de Mariage,
Le Creziou de Contemplation,
Les Faribolles de Droict,
L’Aguillon de vin,
L’Esperon de fromaige,
Decrotatorium scholarium,
Tartaretus, De modo cacandi ,
Les Fanfares de Rome,
Bricot, De differentiis soupparum,
Le Culot de Discipline,
La savate de Humilité,
Le Tripiez de bon pensement,
Le Chauderon de Magnanimité,
Les Hanicrochemens des Confesseurs,
Les Lunettes des romipetes,
Majoris, De modio faciendi boudinos,
La Cornemuse des Prelatz,
Beda, De optimitate triparum,
La Complainte des Advocatz sus la Reformation des Dragées,
Des Poys au lart, cum Commento,
La Profiterolle des Indulgences,
Iabolenus de Cosmographia Purgatorii.
Questio subtilissima, utrum Chimera in vacuo bombinans possit comedere secundas intentiones, et fuit debatuta per decem hebdomadas in concilio Constantiensi,
Le Maschefain des Advocatz,
Barbouilamenta Scoti.
La Ratepenade des Cardinaulx.
La Godemarre des cinq Ordres dês Mendians,
Le Ravasseur des Cas de conscience,
Sutoris adversus quendam, qui vocaverat eum friponnatorem, et quod Fripponatores non sunt damnati ab Ecclesia,
Cacatorium medicorum,
Le Ramonneur d’astrologie,
Le Tyrepet des apothecaires,
Le Baisecul de chirurgie,
Antidotarium anime.
Merlinus Coccaius, De Patria Diabolorum,
dont les aulcuns sont jà imprimez, et les aultres l’on imprime maintenant en ceste noble ville de Tubinge."

(N.B. Não aconselho a leitura da tradução a criaturas minimamente sugestionáveis em português, ... e em francês também...)

In François Rabelais, “Pantagruel, roy des dipsodes, restitué a son naturel, acec ses faitz et prouesses espoventables”, Garnier-Flammarion, 1969, Paris, págs. 56-60

Estr disse...

C'um caraças!
Volta! Tás perdoado!

Anónimo disse...

Este Lapdrey é insuportavelmente snob.

Lapdrey disse...

Também acho, caro Anónimo!
Não me suporto!
Por isso comprei um cilício mental na FNAC!

A que não é nada disse...

Sr. Prof Doutor João de Castro Nunes, Excelentíssimo e respeitável compincha,
eu me digno, honrosamente, a responder-lhe em verso, com a velocidade genial que tanto me caracteriza e à qual o habituei, apesar de o meu trabalho se ir acumulando de uma forma praticamente asfixiante.
Ora com sua licença, aqui vai!


“Consoante vai mudando Portugal”,
Assim muda a letra na música do fado
Que a pátria é Camões resistindo a nado
Num mar de pesadelos e cego temporal!

D. Sebastião morreu e já não volta.
Resta o nevoeiro sem monstros a esconder
De onde se avista, ao fundo, a perder
Caravelas tristes, sem alma de revolta!

POVO meu que lavas em seco rio
Trajes de reis perdidos no desvario
De uma república que não sabe amar

Veste-me SENHOR, o xaile do lamento
Dedilha na guitarra a voz do sentimento
Que quero renascer para sempre, a cantar!