O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 8 de Outubro de 2013

MOMENTO

ajo
como um asno

teimo
dão-me porrada
pasmo

na impossibilidade
animal
de me vingar
ou defender

arreganho os dentes

com sarcasmo

quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

11 DE SETEMBRO - SE BEM ME LEMBRO

SE BEM ME LEMBRO
EM 73 NO CHILE
HOUVE UM ONZE DE SETEMBRO

NÃO SÓ NO CHILE
EM TODO O MUNDO DESDE SEMPRE
HOUVE E CONTINUARÁ A HAVER
ONZES DE SETEMBRO
E VINTE E CINCOS DE ABRIL

MAS ESTE NO CHILE
EU BEM ME LEMBRO
ROUBOU-NOS DOIS POETAS
DE QUE EU GOSTAVA MUITO
:
PABLO NERUDA E SALVADOR ALLENDE

VOLVIDOS VINTE E OITO ANOS
- TUDO SE REPETE - POUCO OU NADA MUDA
EM NOVA YORK CAEM DUAS TORRES

QUEM SABE PARA VINGAR AS MORTES

DE SALVADOR ALLENDE
E PABLO NERUDA

SE BEM ME LEMBRO
DITAS GÉMEAS
RECONHECIDAMENTE
AS MAIS RICAS DO MUNDO

CONTUDO

SE MUITA GENTE AINDA HOJE CHORA
O ONZE DE SETEMBRO DE NOVA VORK
COMO UM DIA TRISTE, DESUMANO - VIL


SE BEM ME LEMBRO
A HUMANIDADE O QUE MAIS DEPLORA
É O NEGRO ONZE DE SETEMBRO
QUE EM 73
PARA TODO O SEMPRE
ENLUTOU O CHILE

terça-feira, 13 de Agosto de 2013

IDIOSSINCRASIA 

se fossemos na realidade exasperantemente sornas
lentos

em vez de alentejanos
já seríamos conhecidos por 

apenas LENTEJANOS

- não consta que assim seja


vivemos ao ritmo
de tudo quanto é bom

na VIDA

à semelhança
de nossos irmãos ciganos

terça-feira, 6 de Agosto de 2013

FRAMBOESAS


que tu cultivas
e adoras
-sofisticadas
ricas

primas das rústicas
amoras

negras
luzidias

como a cor
dos teus olhos

quando finges
que choras

terça-feira, 30 de Julho de 2013

GRANDES SÓ A MINHA ALDEIA
E EU

vivo no campo
- a 2 quilómetros da Aldeia 

da minha Aldeia 

a 7 da Vila
a 20 da Cidade
vivo a não mais de 150
quilómetros de Lisboa

- que é a capital de Portugal

como o Mundo é pequeno
- acabo de confirmar:
não mais de 200 países como Portugal

a despeito da China e da Índia
e da Rússia
e dos Estados Unidos da América
- não mais de 200 países como Portugal

há quem já os tenha percorrido a todos
dado a volta ao Mundo

onde cabem estes 200 países
é aquilo a que chamamos
World
Earth (?)
Monde

Mundo

uma frágil bolinha de sabão
pronta a esvair-se
ao menor grão de areia
que lhe surja no percurso

já Universo é coisa bem maior

é noite
-paro o carro junto à casa onde moro
como sempre virado para Norte

à minha frente a Ursa maior
um pouco à direita
à minha mão direita
a menos de um metro de distância
a simpática W/Cassiopeia

atrás de mim - nem preciso olhar para saber -
um extenso ligeiramente encurvado rabo-de-gato - a nossa Via Látea-

com ninguém sabe quantos milhões de estrelas como o Sol
não sei quantos milhares de milhões
de planetas
como este nosso a que chamamos Mundo

ainda à direita - e mais alto do que o binómio
Ursa Maior-Cassiopeia
o caracol de Pastelaria
a que em boa hora deram o nome de
Andrómeda

que eu já vi
duas ou três vezes
enrolada na sua bela pequenez

sem sair do carro
penso em como tudo isto é belo
e ridiculamente pequeno apesar de tudo

não há Lua
Marte fulge
por cima da cumieira do Monte

abro a porta do carro
saio

viro-me rigorosamente para Norte
sou intransigento nisso

abro o fecho-eclaire das calças

esboço um sorriso

mijo

segunda-feira, 29 de Julho de 2013

MERCANTILISMO

formado nos "Mercados"
e nas Feiras

depois dos Submarinos
Portas apostava agora
nos
Torpedos

tem razão o homem
:
não há uns sem outros

como de nada servem
mãos
que não tenham

dedos

sexta-feira, 26 de Julho de 2013

FISCALIDADE


que impostos
não estariam ainda pagando
Reis

Caeiro

Soares

Campos

à conta de Fernando

domingo, 21 de Julho de 2013

ERAM SEMPRE NOVE À HORA DA COMIDA

sete fêmeas e dois machos

- elas, duas brancas
três tartarugas
uma indefinida e uma preta

eles, machos,
um amarelo tigrado
o outro - pardo

dos machos
com o andar do tempo
veio um branco não sei de onde
que após muita porrada
expulsou em definitivo
o pardo
e o amarelo

passaram
a ser só oito à hora da comida

só oito
até que uma das tartarugas deu à luz
3 amarelos

outra tartaruga
pariu 4 brancos - com as extremidades amarelas
- um dos quais desapareceu
nas múltiplas mudanças
a que a mãe os sujeitou

a preta pariu três
-cada um de sua cor - um preto
um branco
um amarelo

há ainda uma tartaruga
e uma branca por parir

de qualquer modo
são agora 9
mais 9 além dos nove iniciais
(8 desde que o branco chegou
e expulsou o pardo e o
amarelo)

são agora portanto
- para mal de meus
orçamento e vida -

17 gatos
à hora
da comida


quarta-feira, 17 de Julho de 2013

APONTAMENTO URBANO
(no Jardim das Canas)


o cão
sobre a relva

cheira o pé
da árvore

alça a perna
e mija

assina a sua tela
que se chama

TARDE

segunda-feira, 8 de Julho de 2013

POEMA DE AMOR EM TARDE QUENTE


teu corpo
códice dourado
escrito em braille

que aprenderei a ler

sem vírgula que escape

sem verbo
que atrapalhe

domingo, 7 de Julho de 2013

gosto

gosto do teu abraço
gosto do teu sorriso
gosto quando lês em voz alta
gosto quando falas de história
gosto quando me dás a ler 
gosto quando me levas ao cinema
gosto quando te irritas
gosto quando me dizes não
gosto de ver o tejo contigo
gosto do que não gosto 
gosto da tua impaciência
gosto da tua generosidade
gosto da tua resistência
gosto da tua janela florida
gosto dos teus livros espalhados
gosto da tua musica
gosto da tua mão nos meus ombros
gosto do teu beijo na minha testa
gosto de ti assim
como és

sábado, 6 de Julho de 2013

lagartos ao sol

Um grupo de restaurantes vazios decoram a praia urbana. Uma família numerosa de prédios com varandas fechadas e parques de campismos com roulotes instaladas há anos completam o cenário.
As mercearias concorrem derrotadas com os mini-mercados.
Um casal cuja faixa etária parece-se com a minha, pergunta:
- Os bancos estão abertos aos sábados?
Responde o merceeiro
- Só em Paris...
Na Costa da Caparica, há brasileiros e portugueses, velhos e jovens, brancos e pretos, gordos e magros e gordos de novo. Um hamburguer ao modo Mc Donald's custa menos de 2€.
A caminho da praia encontro Rosa com a família. Chapéus de sol, sacos com comida e bebidas tornam a bagagem do fato de banho pesada.
É com esforço que damos um abraço, as nossas mochilas atrapalham. Resignadas sorrimos.
- Como estás? Há tempo tempo! Não envelheces...
- Nem tu!
Ambas sabemos que mentimos. Do meu lado intactas restam as sardas, do lado de Rosa, os mesmos ombros magros contrastam agora com a gordura acumulada nas ancas.
- Mas como estás?
- Desempregada...
- Mas fora isto, está tudo bem?
...
O nosso olhar vagueia. Pede um mergulho. O mar está povoado de banhistas como se fossem peixes - na rede boa presa.

Na areia - lagartos ao sol.

quinta-feira, 4 de Julho de 2013

desejo

redondo, quase sem forma, viaja do pescoço ao dorso
ganha ânimo na despedida, quando no ventre faz ninho
roubando ao tempo o que tempo não dá
é assim o desejo que teimoso regressa
tempestade serena que a vontade alimenta
euforia que se escapa, foge e acorda
até que com ele a morte case.

domingo, 30 de Junho de 2013

E se

Na sala da nossa casa na Leôncio de Magalhães, em São Paulo, as mãos dos meus irmãos abriam-se para receber o pó que nos fazia voar.
- Vamos viajar os três! Basta-nos sentir os pés nas nuvens e cheirar o ar do céu...
De braços abertos percorríamos a sala e o chão deixava de existir. 
E se, o Tejo fosse a água que separa Niteroi da Guanabara...
E se, era semear em terra fértil.

“– «Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que para o Pólo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende. (...)” *


A vida desperta em cada instante, no Cabo das Tormentas a Boa Esperança.
E se, a vida fosse este ar puro, que por vezes inspiro em cada beijo, e nutre o meu desejo de atravessar o cabo para poder respirar?

Em cada uma das nossas mãos, liberdade. Descansávamos nas estrelas e de lá o mundo nos parecia pequeno.
Na dor que nos separava, um lamento pequeno a pedia-nos coragem.

E se a vida fosse
a Boa Esperança
Tormenta que apazigua
Vida

Vamos viajar - os três, de ocidente a oriente. Querida irmã tu serás a princesa e nós os guerreiros que defendem o teu reino. Recolhe as asas na tempestade, abre-as ao sabor do vento.

E se,
Esta é a parte que falta
acende a vida
alimenta a serenidade
vontade que tenho
e não tenho
meus dedos que tocam e fogem
o corpo que se contrai,
pede e recusa
enredo sublime
que reinventa a vida
A quem a minha ousadia tanto ofende

Na Leôncio de Magalhães, éramos três a crescer. Na casa vizinha um cão morria de tristeza pela morte do dono. O comboio no final da rua ditava as meias-horas. A Nair esticava a carapinha nos sábados. Nossa mãe tocava piano. Nosso pai, escrevia.

Na segunda metade de vida, contornámos o cabo.


E se, outra vida houver estaremos nela inteiros.
Com asas, sem medo de voar.


* Canto V - estancia 50 - Lusíadas - Camões

quarta-feira, 19 de Junho de 2013

isabel rosete tem um perfil tão porreiro!

isabel rosete tem um perfil tão porreiro!
TÃO NU!, por Isabel Rosete

Deixaste morrer o entusiasmo em mim
E o entusiasmo morreu por si.
Não sei..., não sei…, se ele voltará
Nesta ou em outra vida qualquer,
Nem o encanto que me habitou de ti.

Os meus ossos já não se guardam.
Completamente fragmentados,
Foram rendilhados pela tristeza da amargura
De já não seres nada em mim.

Já não tenho as mantas de retalhos coloridas
Tecidas de pétalas de flores viçosas,
Aquelas onde nos deitávamos,
A seguir ao almoço, para serenar
Durante a sesta adormecida entre-braços,
Os teus braços fortes de uma segurança
Tão..., mas tão… inabalável!

Também já não tenho a beleza vaga
Que em (teus) sonhos houver.
Apenas a revelação das evidências,
O violento derrube das aparências
E dos convencionalismos crescentes.

Não quero parecer nada!
Não quero que pareças nada!

Não sei se ouvirei, mais alguma vez, a tua voz!
Não sei se sentirei, de novo, o toque das tuas mãos!
Não sei se experimentarei, outra vez, o arrebatamento
Do teu corpo nu no meu, igualmente nu,
- Tão nu! -
Durante aquela penetração avassaladora.

Não sei se re-conhecerei o sabor da tua boca
Tão vigorosa e sedenta,
Ou os teus abraços, outrora, únicos,
Intensos e quentes, alucinantes e aconchegados!

As paixões são instantes de convulsões
Momentâneas que, depressa, arrefecem
Na omissão prolongada do seu objecto.

- Queres voltar depois de um tão longo
Período de ausência injustificada?
Não sabes que o Tempo tem o seu tempo?

O teu tempo esgotou-se
Tão imediatamente quanto a água das barragens
Em período de seca extrema.

Ficou apenas o vazio da tua passagem
Presente (amiúde) na minha memória,
Agora em repouso, no mais profundo silêncio de si.

E... a tarde cai, mais uma vez,
Neste resto de dia de lembranças
Sem que volte a avistar o teu rosto,
A tua ténue figura...
A fina silhueta, sem braços e sem pernas,
Em que te transformaste.

- Não! Não insistas! Já não vale a pena!
Não o vês? Será que não o vês?
A tua alma tornou-se demasiado pequena.

Isabel Rosete

segunda-feira, 17 de Junho de 2013

quarta-feira, 5 de Junho de 2013

YA MAN

( se é sensível a linguagem menos própria
por favor não leia)

infrene
é o hímen
da filha

do Imã
do Iemene

faz tremer
quem passe perto
e treme

como se fosse
um íman


segunda-feira, 3 de Junho de 2013

segunda-feira, 27 de Maio de 2013

segunda-feira

Hoje é segunda-feira e as velhas contam histórias de quando eram crianças.
Há buracos no asfalto a dar conta da terra que um dia foi fértil. 
Não há andorinhas a cantar no meu quintal. Os galos estão presos, longe da capoeira.
É segunda-feira, sempre à segunda-feira.
Não há um relógio parado a dar conta do tempo sem hora marcada. 
Nasce um pinguim sem hora de parto. Morre um falcão sem atestado deóbito.
Todos os dias, em cada dia, centenas de papeis determinam a vida.
Um homem sofre de amnésia e decreta que o tempo é ausente.
Tão próximo do velho que diz que a morte é presente. Encontra o sorriso de um dia que já não existe.
Todas as segundas-feiras nascem e morrem à segunda-feira.
O tempo de vida de uma borboleta.
O homem fraccionou o tempo. Desprezou o instante fugaz de um sopro que se desdobra noutro.
Adormece a noite na esperança de um novo dia.
Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo e segunda outra vez.

sexta-feira, 17 de Maio de 2013


julgava que tinha perdido um Trabalho Prático de MÉTODOS QUALITATIVOS DE INVESTIGAÇÃO SOCIAL - 9º. semestre -
Universidade de Évora, sendo Professor da Cadeira o distinto Mestre Prof Adrião (ou Adriano - o senhor que me perdoe) Rodrigues.
além dos Métodos Qualitativos, que me agradavam sobremodo e onde colhi nota, também já não sei se 17 se 18, fundamentalmente com base no tal poema que julgava perdido na voracidade dos anos e encontrões da vida

Arrancava com o seguinte título:
A INSTITUIÇÃO REPRODUZ A SOCIEDADE
sendo a instituição uma Fábrica de Tomate onde eu trabalhava

" não sei até que ponto é possível/desejável planificar o trabalho. A
planificação, a racionalidade do trabalho, a burocracia ao fim e ao cabo, só dão má qualidade à vida:
devíamos aceitar esta situação como transitória e ver de que modo poderia ser:
e penso que o exemplo está na maneira como algumas crianças brincam. É daí que o trabalho dos adultos tem que partir.

(da entrevista de MariaIzabel Barreno a " o Jornal de Letras Artes e Ideias - edição de 26 de Maio de 1981)

O PRAZER DA FÁBRICA

penso que o prazer na Fábrica
só é possível na ganga suja de óleo
nas mãos amolecidas
da pasta cor-de-carne dos pimentos

da carnação da massa que escorrega por
túneis de metal Inox
serve as naves como artérias
de ladrilhos
e transborda se derrama
como um corte de faca
e é sangue na limpeza do piso
e cor nas batas muito brancas das mulheres

possível o prazer da Fábrica
só dentro do vapor das nuvens brancas
que nascem nas caldeiras de alumínio

de onde emergem figuras ferrugentas
mas alegres
bons adamastores
que têm cão
mulher e filhos

por cima das bancadas dos mecânicos por gosto
elas próprias omelette- au- rhun dos óleos entornados
da massa consistente que aplacenta as peças
vindas dos cacifos
sopa-de-cavalo-cansado onde se encostam
por gosto
os cotovelos

nas tarefas exatas feitas com amor:
conduzir camiões enroscar parafusos
mudar as flores das jarras rotular produtos

nas tarefas exatas feitas alegria
no colher das amostras no rigor das análises
na limpeza doméstica
das tulhas e dos silos

prazer na Fábrica
não mais na datilógrafa que luta por aumentos
no capataz que exulta
quando o chefe pelo Natal
o presenteia com um mágico envelope

A FÁBRICA

a Fábrica é cercada
com arame farpado

tem uma entrada que é um portão enorme
com a casa- dos- guardas frente ao barracão das bicicletas

e um pastor-alemão que é tão simbólico
tão apenas simbólico
como a vedação de arame-farpado
e a casa-dos-guardas frente ao barracão das bicicletas

sim
que a vedação de arame-farpado é fácil de transpor
nada custa franquear o portão enorme
o pastor-alemão nunca morde
nem ladra a ninguém
os guardas
estão invariavelmente bêbedos
mesmo no momento em que se rendem

parece então
que seria mais coerente plantar flores
e árvores em redor
retirar o ar de manicómio
de parada militar
de campo-de-concentração que toda aquela
simbologia podre lhe empresta

assim os operários
chegariam contentes para exercer o seu trabalho
e não para o cumprir

teriam pássaros em volta
e não os tecnocráticos pardais

( há pardais nos Quartéis nos Hospitais
nos Pátios dos Tribunais
nas Paradas das Prisões
nas estátuas dos generais
nas frinchas dos saguões)

pássaros dizia em volta
os esquivos melros os térreos piscos tímidos
andorinhas domésticas fariam
ninhos nos ângulos das naves
os cartaxos brincariam nas peças

não é possível o prazer na Fábrica
onde as coisas engrenam porque são determinadas
comandadas por senhores de batas
  • que produzem a ORDEM

    reprime-se em nome dessa coisa
    ameaça-se com despedimentos
    quem não tome a pílula vendado

    produzir é o lema
  • produzir conforme os cáculos das máquinas
segundo estalecem
compromissos exteriores
:
Ces ; EFTAs ; outras siglas
tão acrílicas tão ásperas
tão “made in”
- filhas dessa coisa
a que chamavamos ORDEM

A ORDEM

vem sempre de cima
tal qual a chuva as trovoadas os coriscos
a caliça dos tetos
as cagadelas incómodas dos pombos

mais de cima sempre mais de cima
mais do que por mais de cima se consiga imaginar

em última instância
a ordem vem de Deus

então não se discute

o chefe-de-fabrico é deus em relação ao capataz

frente à sua imagem
este se recolhe
genuflete
persigna-se
perturba-se
recolhe-se a si próprio

toma a Ordem como quem toma a hóstia
entrelaça os dedos transpirados
semicerra as pálpebras
com os olhos
melancolicamente virados ao vazio

adivinha
para além daquilo que lhe é dado:
deus diz dez
- o capataz já sonha vinte ou trinta

DEUS

deus não dorme
não come – alimenta-se de néctar
algum néctar do Olimpo
rodeado de anjos e arcanjos
  • que raramente são
seus filhos ou mulher

manda pôr na conta
e ordena que enderecem
ao economato celestial

não toma bica
nem bagaço

-liba
  • não defeca
    nem micta

    - segrega

    os operários veem deus
    de baixo para cima
  • respeitam-no num código
  • que se chama de há milénios
  • mandamentos
  • dos quais o primeiro é o seguinte
    :
    amar ao chefe sobre todas as coisas
    e os restantes
    de um teor mais ou menos semelhante

    assim é de facto:
    o chefe é o sustentáculo da Fábrica
  • enquanto unidade de produção
do operário enquanto peça dessa máquina

por inerência
sustentáculo das famílias todas
de todo o operário que há na Fábrica

há pois
que amar ao chefe sobre todas as coisas

o POTLACH

a mulher-da-limpeza é quem
tem menos para dar e quem dá mais

porque o faz diariamente a todos
para receber de todos (se possível)
um poucochinho mais – que cada um
isoladamente tem para lhe dar

a secretária pede-lhe do Bar um Trinaranjus

se as coisas correm bem a nível da chefia
o Trinaranjus que lhe traz a mulher-a-dias serve
se as coisa correm mal
  • não serve

    porque tem borbulhas – se a mulher-a-dias trouxe com borbulhas
    porque não tem borbulhas
    se a mulher-a-dias trouxe
    um Trinaranjus sem borbulhas

    é pretexto pra a reprimir de maneira violenta
    decisiva
dita exemplar
podem apontar-lhe a rua
o retorno à enxada
guardada na pequena dependência do quintal

a mulher-da-limpeza é meiga
solícita
servil
subserviente
vendível
desodorizada assética
- um produto

dá quanto pode dar
à Secretária da Administração
que por seu turno porfiará em dar
aos seus administradores
alguma coisa ainda
às suas companheiras de trabalho

todos nós – operários
técnicos administrativos
prodigalizamos em ofertas diárias
aos nossos superiores

que lambem os beiços
e tudo nos devolvem
numa grandiosa festa pelo Natal

há festões
e árvores enfeitadas em todos os recantos
prendas em caixinhas decoradas para os nossos filhos

e mesas recheadas de leitões assados
-secos como múmias – em postura
de esfinge de Giseh

são nomeadas as pessoas
que recebem os prémios
galardoados os assíduos
os produtivos
em suma – os integrados

quiçá os colaboradores mais íntimos
os tratadores
dessa pomba cinzenta
a que chamámos ORDEM

esta a grande Festa o supremo Ofício
a grande celebração
- o Facto Social Total
em que os deuses se misturam com os homens
o nosso merecido
reconhecidamente
POTLACH

assim de há anos – desde que a Fábrica respira
até que outro processo nasça
na raíz do sistema cariado

penso por exemplo em produção
à maneira (simples)
de como (algumas)
crianças brincam


António J. C. Saias
nº. 94 - 9º semestre



terça-feira, 30 de Abril de 2013


O Plantador de Palavras
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.
João Cabral de Melo Neto


Terra e Poesia – duas realidades feitas de uma materialidade que António Saias explora mergulhando incansável em suas potencialidades modeladoras. Isso significa serem esses dois vetores os responsáveis pela dinâmica que alimenta os poemas de (H)ortografias (2012), constituindo sua razão maior: escrever a terra, plantar o poema, cultivar as palavras como sementes e abrir a terra/página à consciência do fazer. São tendências entrecruzadas, não paralelas, mas tecidas conjuntamente no arado arejado a que se entrega o Poeta.
É a “Gen-Ética” (título de um dos poemas) a permitir, por exemplo, a fabricação de produtos inusitados ou a transformação insólita de elementos, como Nenúfar em Flamingo; é a aproximação num mesmo espaço da VÊNUS DE MILO e os parasitas da Hortelã; é igualar o papel à terra suada; é o suor servir-se de tinta e usar a enxada como caneta; é o movimento simultâneo de junção e disjunção no corpo da terra-escrita, “lavras com pa-lavras”; é o alimentar as palavras como as cabras, com grãos e pastos, ordenhando-as para dar bom rendimento.
Acontece que a ligação intrínseca com a terra ou o solo (o baixo, raízes, sementes, água) coexiste com outra: a aspiração ao alto (o céu, o voo, o ar). Alto e baixo, tal jogo dialético já vem anunciado no primeiro poema (ou epígrafe?) de (H)Ortografias:
feijão-de-trepar
:
raízes em terra
e ânsia de voar
Notemos como a verticalização se iconiza nos dois pontos – verdadeiras raízes no solo da página, em contraste com as rimas abertas das alturas /ar/. sugeridas pelos verbos “trepar” e “voar”. Enraizamento e liberdade, imanência e transcendência, apego e desapego – tais tensões perpassam toda a obra de Saias, desdobrando-se em ampla significação. Do corpo entranhado da escrita à materialidade do real, da consciência poética ao posicionamento sócio-político, a poesia de Saias amalgama distintas matérias em seu fazer, tendo como propósito maior a desacomodação de condicionamentos alienantes.

Nesse sentido, chama-nos a atenção a diversidade de formas de composição dos poemas, como se a poesia, terreno fértil à germinação múltipla, resultasse num campo propício a concepções distintas do fazer. Assim, não apenas a moldura/estrutura textual como também as fontes e motivos operacionalizados pelo poeta, bem como sua consciência crítica, revelam uma sensibilidade antenada à cultura literária de que faz parte.
Desse modo, a irreverência à La Alexandre O’ Neill, o espírito breve e sintético dos haicais, o engajamento crítico de cariz neo-realista, lampejos surrealistas à Cesariny, essas matrizes se complementam no percurso poético de António Saias. Sem dúvida, de todo esse caldo cultural o que mais engrossa a textura de suas poesias é a presença de O’ Neill. A série de poemas como “Ponto de Interrogação”, “Ponto Final”, “Acento Circunflexo”, “Cedilha”, instauram em nossa leitura um diálogo com as “Brincadeiras Ortográficas” de O’ Neill. Em ambos os poetas, o espírito lúdico conjuga-se à lucidez crítica no trato com a palavra e o real nela implícito. Por isso, não se trata de uma metalinguagem encerrada nos limites da funcionalidade linguística, e sim de um código estético atento às relações tensivas entre palavra e realidade, representação e traição.
Nos versos “cada um manifesta-se como pode / ou pôde?” (2012, p.86), o pretexto de falar sobre o acento circunflexo abre-se a uma indagação que ultrapassa a questão gráfica para transformar-se num dilema maior: a liberdade do sujeito para sua manifestação é presente ou um gesto do passado? Ou melhor, que convenções ainda pautam as atitudes humanas? A arbitrariedade do signo e leis que o regem tem algo a ver com o arbítrio do ser humano?
Percebemos que a leveza da brincadeira tem a sua contraface, pois torna visível outra via de leitura em que desponta o senso crítico, como no poema “Pragma (para poeta contra novo AO)” (2012, p.81):
SOL
quando está frio apareces
isso me apraz

e sabes
quão pouco me faz
saber

quando me aqueces
se aquecer
se escreve com um C
se com mil SS

No diálogo com o sol desvela-se uma lição que extrapola os muros do academicismo ou do purismo vernacular. Por isso, para além das discussões infrutíferas em torno de acordos ortográficos, o poeta se manifesta como alguém capaz de acolher o que a natureza oferece para ser usufruído sem questionamento. Sentir-se aquecido ou confortado pela realidade natural parece muito mais prazeroso do que aceder às obrigações ou arbitrariedades das injunções institucionais, portanto, pouco importa a ortografia correta de aquecer, o que conta é o SOL maiúsculo que figura no alto do poema.
Evidentemente tal atitude não está a negar a seriedade das convenções, mas sim coloca sob suspeita o radicalismo ou cegueira que cerceiam as ações quando estas se pautam exclusivamente por condicionamentos inoperantes.
A burla, gesto saudável para inverter as posições habituais e categorias preestabelecidas, justifica-se como procedimento poético porque nele está contido o conhecimento ou saber. Ao poeta cabe o papel de investir numa aprendizagem que se desfaz do que se cristalizou, para recuperar o frescor e a originalidade roubados pela institucionalização. Antes cultivar o exótico que o pragmático usual, eis o que nos comunica um poema como “O Grego → O Latim → O Inglês → O Mandarim” (2012, p.80):
não tarda
quem quiser
mandar
em mim

não mais em
inglês

inglês
chegou
ao fim
ordens só vou
passar
ou aceitar
em
mandarim

O próprio trocadilho entre “mandar em mim” e “mandarim” revela a habilidade de quem manipula a língua como objeto que se esquiva aos grilhões da seriedade gramatical, tronando-a maleável ao único “idioma” que interessa – o da aventura poética. O poeta dribla, assim, a visão pragmática geralmente associada à língua inglesa, sugerindo atender a outras possibilidades idiomáticas ou alternativas linguísticas, como o mandarim.
É também o jogo verbal, próprio de quem gosta de tomar as palavras como brinquedo, que leva o poeta a criar um diálogo com o poeta brasileiro Manuel Bandeira: “o menino que gostava / de brincar com as palavras / viu uma lagarta às listras // e lembrou-se de chamar-lhe / LAGA_ARTISTA” (2012, p.74). Um outro poeta-criança, também manipulador das palavras, Manoel de Barros, certamente assinaria o jogo inventivo de Saias.
Por outro lado, o gracejo que brota do uso crítico da língua com o propósito de subversão das normas gramaticais pode também descortinar outra face pela leitura: o encanto lírico. No poema “GArçA” (2012, p.77), por exemplo, não somente o destaque gráfico do signo como também o discurso sobre a ave acabam por revelar a outra dimensão da linguagem e da própria ave. É que o mirar-se na água-linguagem, em que despontam qualificações – branca, leve, imponderável, esguia – permite que o reflexo da imagem da ave faça transparecer outro sentido para a garça – a graça. Beleza, recorte singular e poético da ave, num simples anagrama e sugerido pelos breves versos. O “inegável erro / de ortografia” é o que nos permite ler e ver o seu outro lado, o reflexo invertido das letras em que surge, aí sim, a graça no duplo sentido (encanto e humor).
Ao tomar como tema no poema “Bucólico” (2012, p.31) o canto do grilo (outro motivo que nos remete a Alexandre O’Neill), António Saias explora as potencialidades da rima, provocando curiosos efeitos semânticos. Opondo-se à usual sensação de incômodo que advém do canto do grilo, a visão do poeta constroi sensações prazerosas na sua relação com o inseto, pois o encanto e a pulsação vital materializam-se nos encontros sonoros e nas repetições: o que mais me encanta / quando o grilo canta / é saber que é pelas asas / que ele canta / -não pela garganta // ainda mais me encanta / no cantar do grilo / é eu sentir-me vivo//. O encadeamento dos sons guturais e as nasais /anta/ fazem com que o canto vá tomando conta do espaço poético, enlaçado ao eu que o incorpora. Num segundo momento do poema, o canto do grilo permanece, porém, agora, associado ao tempo, como se cantar tivesse o poder de amenizar a passagem do tempo e os contratempos da vida; as rimas e recorrências fônicas dão corpo a essa sensação: atento / contra o vento / ouvi-lo / grilo / canta / contra o tempo.
Entretanto, o bucolismo se reveste de outra dimensão, na medida em que o poeta apresenta-o sob um viés crítico, atendendo a uma vertente mais satírica, como no poema “Manhã Agrícola” (2012, p.28). Em matéria de ecologia, diz o poeta, não servem cantigas enganadoras, pois a realidade concreta e terrena exige outros cuidados. Formigas e toupeiras podem alimentar as fábulas clássicas ou inspirar Cesário Verde em seus poemas, mas na prática agrícola são daninhas, o que revela o lado bem humorado do poeta para quem é preciso entender a diferença entre as esferas literária e a práxis, até para se respeitar a natureza específica de cada uma. Na poesia, espaço em que o trabalho consciente com a linguagem faz coexistirem as duas realidades, tudo é possível porque o senso crítico está lá para denunciar as diferenças: “se precisar de bucolismo no trabalho / arranjo um pintassilgo / ou um canário”, conclui o poeta.
A consciência aguda de Saias não se conforma à imobilidade e passividade, preferindo o caminho da inquietação necessária à derrocada dos valores estabelecidos. É preciso construir outro mundo por meio de um lirismo inconformado, porém, insistente em seu poder de renovação – é o que nos propõe o poema “É Preciso”:
é preciso arrombar uma porta
é preciso inventar um caminho
é preciso uma leira cavada na horta
é preciso uma acha de fogo azinho

é preciso um canhão de certeza de tudo
é preciso uma seara de raiva nos dedos
é preciso outro mundo outro mundo outro mundo
sem brechas nem bruxas nem monstros nem medos (2012, p.12)

Autodeterminada (alimentada pelo anafórico “é preciso”), essa poesia reafirma seu papel junto à realidade histórica, acreditando nas possibilidades de transformação materializadas na linguagem. Transformação legítima porque preparada e armada no seio mesmo da escrita, espaço livre, aberto à emancipação do sujeito criador. A fome, a exploração, as diferenças sociais, as falsidades, a opressão e outros temas são revirados pela pena da escrita: “Fome não apaga / este pão trigueiro // sou ladrão de palavras” (2012, p.63). É graças ao investimento nas potencialidades do signo poético que a realidade se ilumina, fazendo do trabalho árduo com a palavra um análogo do trabalho braçal do homem ligado à terra.


COM ISTO ME DESPEÇO da SERPENTE
para mim de boa memória

abraço a todos

domingo, 28 de Abril de 2013


ESCALADA


começou por deixar
de fumar

por aconselhamento médico
pôs de parte
as bebidas alcoólicas

quando deu por isso
tinha perdido o hábito
salutar

de
respirar

tinha
expirado

quinta-feira, 25 de Abril de 2013


O(H)VIBEJA

aí estão as cabras
com os seus brincos
pendurados das orelhas

as vacas e os porcos
com seus piercings
no focinho e nas narinas

os burros
com a sua calma legendária
suas orelhas de abano
de grandes mais eficientes do que auscultadores

os cavalos lazões
castanhos izabela
prontos a serem montados
por meninos e meninas

aí estão os vendedores
de algodão-em-rama e de amendoins
e os cães domésticos
puxando os donos pelas trelas

aí estão as aves exóticas
os papagaios araras
e os garnizés
e os pombos gordos
que nem perus pelo Natal
e os camponeses velhos reformados
a não perderem nada
pelos pavilhões arrastando os pés

aí estão as avós
puxadas pelos netos
atrás dos fumos doces
dos churros das farturas
e os agricultores
perdidos em projetos
que rentabilizem
a ingrata agricultura

a água do Alqueiva
os olivais a rega
sem a qual a planta não tem seiva
o vendedor de máquinas
prometendo a entrega
do tractor New Holland
para virar a leiva

a gente do governo
pródiga em promessas
:
baixa de impostos subsídios sonhos

os putos marginais
virando a Feira das avessas
limpando ao braço
transpirações e ranhos

aí estão os balões
as espadas Excalibur
os pavilhões
de produtos regionais
:
os méis os queijos os enchidos maduros
os cheiros assimilados
a humores corporais

entanto o Sol falece
prós lados de Lisboa
são horas de apanhar o autocarro
- há quem vá de vagar há quem se apresse
há os eternos retardatários
distribuindo ainda
o tinto que há num jarro

até pró ano - a Feira estava boa
podia estar melhor diz a mulher cansada
perde a gente o tempo
por aqui à toa
com o raio da crise
não dá pra comprar nada

NUMA PRAÇA CHEIA DE GENTE


eu só fui ver

eu só queria ver

eu só queria ver-te

eu só queria observar-te

eu só queria sorver-te

perdoa-me Maria

- o que eu queria mesmo
era
um sor-ve-te

sexta-feira, 19 de Abril de 2013

 rebanho é uma frase
de ovelhas

parte de um poema
- um verso

por bons ou maus caminhos
quem conduz o rebanho

para todo o lado

é a palavra-
-mestra

P´RA  PULAR  MATINAL


VAI CONTENTANDO A MANADA
COM FALINHAS DE VELUDO
- UMA MÃO CHEIA DE NADA
OUTRA VAZIA DE TUDO

domingo, 14 de Abril de 2013


CREPÚSCULO

como as aves
põem ovos

quando se esconde
o SOL
é para pôr

todas as noites
dias novos

CREPÚSCULO


como as aves
põem ovos

quando de esconde
o SOL
é para pôr

diariamente
dias novos

sábado, 13 de Abril de 2013


EXPLICAÇÃO DO POEMA

meus poemas são a minha
marcação
de território
na vida eterna

como cão
de qualquer esquina de taberna
faço
mictório

cheiro primeiro
dou meia volta

depois
levanto a perna

quinta-feira, 11 de Abril de 2013

terça-feira, 9 de Abril de 2013

segunda-feira, 8 de Abril de 2013


JOGO


cuidado
quando lançares o dado
- ele pode
estar viciado

já não te lembras
que foste
tu próprio a viciá-lo?