O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 30 de abril de 2008

Eros e palavra no feminino

(Estou a escrever isto do departamento, hihihihihi;-)...)

A menina que aos 10 anos queria ser freira acabou ontem de ler o delicioso "Contos de Escarnio/Textos grotescos" da escritora Brasileira Hilda Hilst. Este livro e a historia dos amores de Crasso e Clodia e faz uma satira comico-erotica aos costumes e mentalidade do meio intelectual e artistico Paulista.

Neste livro, a genial Hilda Hilst assume na perfeicao um papel masculino - Crasso, um libertino - que bebe a vida e as mulheres a trago ate que se apaixona por Clodia, pintora lesbica que gracas a ele se "converte" a heterossexualidade e abandona a sua anterior especialidade de pintora de vulvas para passar a pintar falos.

Nao obstante o tema picaro (ou talvez gracas a ele), este livro "desce" a niveis bastante profundos de reflexao metafisica - A fronteira dubia entre o sublime e o grotesco, o absurdo da condicao do ser humano, animal eternamente aspirante a qualquer coisa que el@ nao percebe o que e, Eros e Thanatos como os gemeos siameses que fazem o mundo girar, o ridiculo da mentalidade racional-tecnocratica e da tecnificacao do ser humano, o tragico sempre a espreita por detras das maiores realizacoes do espirito humano ...

Um dos aspectos do livro que me chamou a atencao e um traco que tem em comum com toda a literatura erotica escrita por mulheres: As mulheres, quando se referem aos seus amantes masculinos, so sao capazes de passar para a palavra sensacoes, factos, sentimentos, reaccoes a qualquer coisa. Falta as mulheres escritoras a capacidade, para a qual Hilda Hilst teve de se transvestir num personagem masculino - de expressar verbalmente nomes ou adjectivos que exprimem o abismo de volupia e de dissolucao do ego e das convencoes sociais que representa um verdadeiro amante.

Ate agora, pelo menos na lingua Portuguesa, tal capacidade so foi desenvolvida por homens.

O escultor Fernao, personagem do romance "Um Amor Feliz", de David Mourao Ferreira, que entrava em extase e sussurrava "Ah Deusa, ah Putinha", enquanto criava uma figura feminina a partir de um pedaco de barro, ao mesmo tempo que pensava na sua amante.

O personagem Crasso, de "Contos de Escarnio", que ternamente chamava Clodia de "Prostitutissima" e "Putissima amada", possivelvemente em reminiscencia de certas praticas da antiguidade.

E nos, mulheres hetero e bissexuais, com que palavras transgressoras podemos objectivar o misto de sagrado e de lascivia, o assustador extase e o fascinante vislumbre de morte e de um alem que desencobrimos nos nossos amantes masculinos?

Em vez do costumeiro "x fez isto", "y disse isto", "sinto isto por Z", que ternos e obscenos nomes e adjectivos podemos usar para dar forma humana ao abismo de prazer e dissolucao do ego que eles representam enquanto pessoas?

Senhores, querem juntar-se ao debate?

os desenhos de ilda david, ou as nuvens de ilda david, têm em si mesmos uma forma delicada de ser, não nos causam estranheza, apenas um pouco de saudade, e o que em nós fica, por meio de uma queda sensível, é uma agradável sensação, mas não uma imobilidade, é uma enorme vontade de voltar, de saber do caminho de volta, de participar naquela leveza, que mais parece um sonho, transparecendo, ou um movimento, talvez subindo. eis o paradoxo, cuja finalidade não cesso de procurar, isto é, onde, ou quando, e como, podemos nós, ter corpo, ou deixar de o ter, sem cair, ou desaparecer - enfim no espaço, ou por fim no tempo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

medo?



ou esperança?

Dia Mundial da Dança


a música aproxima--nos
a dança também!
fotografia de Alfredo Cunha

4ª feira, dia 30, Porto - Conferência de Imprensa "Nova Águia" e Conferência sobre Pascoaes e Pessoa

Estarei amanhã, 4ªfeira, dia 30, no Porto, às 15h00, para a conferência de imprensa de apresentação da NOVA ÁGUIA. Será na Fundação José Rodrigues (Rua da Fábrica Social).
No mesmo dia, pelas 18h00, darei uma conferência na Faculdade de Letras da Universidade do Porto: "Teixeira de Pascoaes e o saudosismo de afinidades neoplatónicas. Fernando Pessoa e o esoterismo antipositivista".

Aos Amigos que têm andado mais afastados apelo a que não desemplumem a Serpente. De muitas plumas diferentes ela faz as suas poderosas asas.

Abraços !

P.S. - Farei uma apresentação do meu último livro - "Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes" - no dia 20 de Junho, em Amarante, prevendo-se uma visita à Casa-Museu Teixeira de Pascoaes. Quem estiver interessado em vir deixe aqui o seu contacto.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quem temos medo de desiludir?

Gostaria de saber se alguns de vocês sentem o mesmo que eu - Que se sentem melhor quando estão a caminho de algum estado de ser do que quando o atingem. No meu caso, tenho um medo tremendo de ser definida, enclausurada em papéis sociais, e definhar pela limitação do Ser que estes acarretam. Quando atinjo algum objectivo intelectual, profissional ou social, sinto a necessidade de "desfazer" o que fiz e começar uma nova "viagem" com vista a tornar-me noutra coisa qualquer. Ser uma eterna buscadora, e no movimento constante ter as possibilidades sempre abertas, a possibilidade de comunhão com o Infinito ao alcance dos meus sentidos, do meu sentir e do meu intelecto.

"Quero ser para sempre estudante
e agarrar a ilusão de um instante ..."

Diz aquela canção que cantava, primeiro no coro da escola primária, e depois na Tuna da universidade, da qual fazia parte.

E incrível que a palavra estudante rima com renunciante ... Olho com admiração e uma certa inveja as figuras quase sobrenaturais dos "sadus" Indianos ... As tranças precocemente brancas descendo pelas costas abaixo, as peles curtidas pelo sol, os corpos magros e incrivelmente flexíveis, cobertos apenas por um pano em volta do sexo, a errância constante ... Estes homens são mais ricos do que alguma vez foram os mais poderosos marajás, pois não têm nada que possam chamar seu, e por isso possuem não só toda a India, mas também todo o Universo.

Algum de vocês foi à India e teve algum encontro com um "sadu"?

Durante a minha infância fervorosamente católica, à revelia do agnosticismo dos meus pais (sim, acreditem, quase todas as "meninas más" foram fervorosamente católicas na infância;-) ), alimentei o desejo de ser freira. Impressionava-me a limpidez e a luminosidade dos rostos das Irmãs Doroteias da minha paróquia, a simplicidade das suas vestes, as narrações das suas aventuras em África, a liberdade que elas viviam por não terem de entrar no consumismo desenfreado da indústria da "beleza", da "sedução" e do "status", o de estarem livres dos aspectos mais limitadores dos namoros e dos casamentos, e por isso estarem de coração aberto para todos, especialmente os mais transviados ... E por terem Deus como amante e esposo ...

Impressionava-me, e ainda me impressiona a beleza nobre dos hábitos das Carmelitas Descalças, longos veus negros que, na minha infância de maria-rapaz forçada, obrigada pela minha mãe a ter os cabelos sempre curtos, representavam a longa cabeleira e a feminilidade que não me era permitido assumir ...

Mais tarde, já crescida e muito crítica da hierarquia e do dogma católicos, herética em botão, lembro-me de me sentir transportada a um Absoluto quando visitei o claustro das Carmelitas em Bruges, na Bélgica, e de as ter ouvido cantar na hora do "Angelus", os raios de sol entrando pelas janelas altas e se reflectindo no chão como num filme de Kieslowski (ahhhhh, saudades da Europa ...) ...

Durante vários anos alimentei o desejo de fazer parte de uma ordem de renunciadoras. Os meus pais diziam "não te andamos a educar para isso. Para nunca ganhares dinheiro, para não nos dares um genro e netos, para não seres "nada" na vida" ...

A pressão familiar, o crescimento, e o questionar do catolicismo da minha infância fizeram-me abraçar outros sonhos. No entanto, ainda albergo no meu peito, como um bichinho enjaulado a roer as grades da jaula, o desejo de deixar tudo, levar apenas o que cabe numa mochila, e tornar-me uma "sadu" ambulante ... Viver para o silêncio e a contemplação que me permite viver todos os matizes da experiência humana e transcendê-los, correr todos os cantos do mundo e chamá-los "casa" por não ter um lar fixo que me aprisione.

Se ainda não o fiz, se ainda não peguei na mochila e no bastão e me fiz à estrada a caminho do "Oriente mais a Oriente do que o Oriente" é porque tenho medo de desiludir a família, os amigos ... E o meu próprio ego.

Ainda estou naquela espera infantil de que me digam "vai em paz, não nos irás magoar por escolheres ser "nada" na vida, ao seres "nada" irás realizar um potencial muito maior do que aquele que esperamos ver-te realizar na tua profissão. Não temos mais expectativas nem apego. Apenas Amor."

E vocês, do que têm medo?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

NÃO à pena de morte - Campanha Internacional Moratória 2000

Portugal foi o primeiro país Europeu a abolir a pena de morte. Por essa razão, deveriamos dar o exemplo e assinar esta petição, além de a dar a conhecer ao maior número de pessoas possível.Mostremos ao Mundo o melhor de Portugal - O nosso Humanismo.

http://www.santegidio.org/pt/pdm/app.htm

APELO POR UMA MORATORIA MUNDIAL DA PENA DE MORTE

Nós, abaixo-assinados, convencidos de que a pena de morte

* é negação do direito à vida universalmente reconhecido
* é uma pena, cruel, desumana e degradante, não menos abominável do que a tortura
* é incapaz de combater a violência, na realidade é legitimação da violência mais completa: a que destrói a vida humana, em nível de Estados e sociedades
* desumaniza o nosso mundo dando o primado à represália e à vingança, enquanto elimina os elementos de clemência, perdão e reabilitação do sistema da justiça.Convidamos todos, também os que defendem o uso da pena de morte, a refletirem serenamente sobre a necessidade de uma suspensão das execuções.Na verdade
* Hoje, no mundo, mais da metade dos Estados não utilizam a pena de morte, alguns a aboliram totalmente, enquanto outros decidiram, com os fatos, não colocá-la em prática
* As Nações Unidas reconhecem a falta de dados capazes de demonstrar que o seu uso seja um antídoto eficaz contra os crimes mais hediondos
* Há anos os crimes graves não tiveram nenhuma redução significativa nos lugares onde a pena de morte foi reintroduzida
* Existem métodos alternativos de grande eficácia para proteger as sociedades inclusive de quem cometeu os delitos mais horríveis.
* A lógica “vida por vida” é tida como arcaica e inaceitável em grande parte do nosso planeta. Praticamente em toda parte o sistema judiciário procura superar esse modo desumano de tratar pessoas que cometeram crimes, mesmo os mais graves
* Nos países democráticos, o custo da pena de morte é maior do que o da prisão perpétua.

POR TODAS ESSAS RAZÕES,PEDIMOS AOS GOVERNOS DE TODAS AS PARTES DO MUNDOQUE DECLAREM UMA MORATORIA DA PENA DE MORTE

Para assinar, dirijam-se a esta página: http://www.santegidio.org/it/pdm/adesione.htm

A Leitora do Silêncio e da Música

Quando alguém a olhava depois dos estados musicais, de ter dançado e experimentado a embriagante melodia do mundo, M., pedia sempre os poetas mais incomunicáveis. A poesia mais nua e despida de sentido. A poesia que ela repetia para colocar entre os actos.
Vinha da escola e espalhava os textos na relva, os muros mexiam com o frémito da hera e começava a tarefa de os recolher na alma, lê-los. Então lançava sobre mim um pedido silencioso com o livro aberto. Eu lia um poema de Celan. Ela escutava com os olhos fechados e no fim era eu quem fechava os meus. Depois, na imperceptível passagem de uns gestos para os outros e quando já se assinalavam os erros, se escreviam nas margens notas, e antes que a noite fechasse a abertura da luz sobre as páginas, ela aproximava-se de novo e cantava:
A hora que liberta do gelo o teu olhar,
Te faz arregaçar a tua sombra
E arranca aos sinos o seu silêncio quando danças

Agarrava-a com entusiasmo. Muito, e rodopiávamos até ficarmos zonzas. Gritávamos e a hera agitava-se com o movimento dos corpos e da voz. Ela confessava um segredo ao meu ouvido. Um segredo que era, como no poema de onde cantava o refrão, uma luva do silêncio que me lançava aos pés do coração. Depois chorava porque sabia que um segredo é um modo de entregar um modo singular de ser que poderia não ter sido sem aquele sopro rítmico atirado para dentro do meu silêncio. Olhava-a com intensidade e talvez esse fosse o gesto, de todos o mais esperado, aquele que me iluminava e levantava a sombra. Então, ela desenhava com os dedos na minha face o segredo. Era esse gesto que continha a música que dançava quando ela tocava na minha pele. Quando aparecia a primeira estrela, ou ela se exprimia brilhando no nosso olhar, ela deixava cair a cabeça no meu ombro e dizia em hebraico, paz.
Antes de adormecer procurava nos livros espalhados qualquer coisa de raro entre-as-folhas. Perguntávamos o que era, quem era, a coisa, a pessoa, a palavra. Mas não era nada. Procurava com mais avidez. As mãos mexiam-se mais rapidamente. Insistíamos: o que era, quem era, a coisa, a pessoa, a palavra. Não dizia nada. Talvez a irritássemos, feríssemos. Às vezes corriam lágrimas. Então corria para a cama e chorava soluçantemente. Esperávamos que parasse. M., então, dizia: hoje o movimento de ontem não veio. Não se escondeu entre as folhas dos meus livros, destes livros. Não estava lá, mandou outro. Era outro. Amanhã compras outros para ver se o encontro? Como sabes que era outro, – sim procuramos o movimento de ontem noutros livros –, como sabes que era outro? – Perguntávamos e insistíamos. Era outro porque não o ouvi da mesma maneira. - Respondia. Então cantava eu o refrão de um poema que ela sabia de cor e dizia com os lábios sem som:
Só a noite deves deixar falar diante dos olhos:
Só a folha que ouve onde ainda há vento;
Só na gaiola do pássaro

Adormecia e, sem outro desejo explícito na alma, tentávamos desenhar o Anjo da História. Havia sempre o do Klee para atrapalhar a espontaneidade, mas desenhar era a única oração com que nos conseguíamos despedir daquele lugar. Como se só nas folhas dos livros se encontrasse o vento com que poderíamos salvar o Anjo da sua impotência que é como sabemos, de Aristóteles a Agamben, um modo do ser não-ser. E, de súbito atravessados por uma estranha percepção sem contornos, uma sensação do imperceptível aos sentidos, levava-nos à descoberta de que só o acto de ler continha esse movimento de salvação do mundo e dos que sentem o seu coração reduzido, pela injustiça dos homens sobre os homens, ao peso da rocha de Sísifo. E, procurávamos os livros e criámos a comunidade de leitores daquela casa. E todos, não só M., mas os outros, abriam e fechavam livros. Uns mais depressa, outros mais devagar, uns olhando atentamente as letras e os seus traços, em todas as línguas e lendo etimologicamente, outros lendo os sons e alto. Em tom elevado e colocando a voz para descer à origem do poema e do rumor inicial. Outros, em silêncio, vendo para além do sonoro ou não vendo senão a sua própria cegueira e outros ainda juntando os livros num só livro, criando as passagens e colando as citações de uns nos outros. O trabalho era infindável e por vezes desesperávamos de cansaço e de beleza. Quando um veio de desistência se manifestava na testa e nas mãos, na precipitação inesperada do sono, M. , dançando e cantando, serpenteava pela casa:
Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
A tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
As tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
As tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
(…)
As tuas faces, campo de armas da madrugada;
Os teus lábios, hóspedes tardios;
Os teus ombros, estátua do esquecimento;
E, percebendo que todos os livros são o retrato de uma sombra que ainda sopra, ler o sopro de uma sombra que hospedamos nos lábios, abríamos - endireitando os ombros e as costas para sacudir o esquecimento que o cansaço desculpa - os livros. Percebendo que regressávamos aos livros e às páginas, às citações, à sua colecção nas paredes e no corpo, M. lia também e, apesar do tempo a atravessar como a nós, mantive sempre o mesmo gesto absoluto e inquieto de folhear procurando o movimento perdido na infância. Repetia, como o seu único refrão não lido: hoje o movimento de ontem não veio. Não se escondeu entre as folhas dos meus livros, destes livros. Não estava lá, mandou outro. Era outro. Amanhã compras outros para ver se o encontro?
Agora não adormecia com tanta facilidade e nós já não ousávamos desenhar. M. era pintora e desenhava o inaudito. Pintava os sopros. Nós as imagens. Talvez essa fosse a grande diferença entre nós. Nós líamos encontrando imagens, M. lia procurando os sopros. Por isso nos tocava e em cada parte particular do corpo deixava a citação de uma passagem que por ali entrava, era a sua paisagem:
Os teus seios, amigos das minhas serpentes;
Os teus braços, álamos à porta do castelo;
As tuas mãos, tábuas de juras mortas;
As tuas ancas, pão e esperança
E quando chegava repetia a vontade de tocar com que nos largava ao deitar. E deixava passar pelo corredor das mãos com que colava um sopro aos meus ouvidos, o segredo. O segredo que me percorria como um frio que vinha de outro mundo. Era tão frio que me arrefecia o coração. Até que um dia, quando sentada continuava a procurar, ouvi o segredo e M. não estava. Quem me dissera o segredo? De onde vinha? Olhava em redor e nada encontrara. Quem mo soprara destruindo o seu silêncio de anos, o seu estar fechado desde sempre na alma que guarda o imemorial? Quem? E quando perguntei alto, quem? Ninguém respondeu, ninguém disse nada. Intrigada procurei com o olhar e não vi quem o dissesse rompendo o silêncio daquela sala onde estava sozinha sentada a ler. Então percebi as duas coisas que M. sabia e pelas quais talvez me tivesse sido enviada: que um segredo não se diz à linguagem mas ao Silêncio, que o Silêncio tem guardado o inesquecível. Por isso Deus e a Música o habitam como hóspedes, o masculino e o feminino com que a Língua pura foi criada para se ouvir no acto de pensar e no acto de ler. Audição dos sopros e da canção de amor de Deus. Ler e pensar que não são senão o mesmo. Então recebi de novo Platão. Ouvi-o dizer-me que pensar é ler o que está inscrito na alma. O que sopra da alma para a linguagem. Que dialogar mais não é do que uma questão de cadenciar os sopros de cada um com a ordem da alma e não do mundo. O diálogo, a tarefa demiúrgica dos homens para arredarem o ruído e a indefinição do sentido. A definição não a procura do significado, como tinha aprendido, mas um acerto à sinfonia da alma. Aos seus sons. A palavra adequada era afinal um som que irrompe do silêncio de quem lê e de quem pensa. O movimento da alma sobre si mesma, a dança da Verdade, o segredo contado ao Silêncio. Balada de Amor e Saudade.
Atravessei a sala cheia de luz e, despida de sombra, voltei a ensaiar desenhar o anjo de Klee, o Anjo da História. Quando o terminei, ou a imitação estava próxima do reconhecível, acrescentei duas conchas às asas. Um pouco de Mar para dar conta do meu Amar pelas criaturas que moram no fundo sem fundo da Vida. Um anjo com som a Mar e a Amar. Um Anjo para M. me escutar.
Nessa tarde, ao entardecer, sob o relvado continuava a ler. M. chegou com uma folha escrita. Nada que conseguisse ler mas que o poema entre-mãos talvez ajudasse a receber:
Por vezes os amantes, ou aqueles que escrevem,
Encontram palavras que, mesmo que se desvaneçam,
Deixam no coração um lugar feliz –
Porque, sob o que se passa, nascem
Constâncias invisíveis;
Sem que abram qualquer trilho,
Algumas tornam-se estribilhos de dança
Para M., que toda a vida tinha lido sons, confiado nos sons, as palavras não emergiam na superfície da folha pelo que mostram, mas pelo que fazem dançar. Abraçou-me e disse:
Mãe, o teu livro tinha o movimento de Ontem. De outrora. O Anjo que desenhaste moveu-se. Tu tinhas o seu movimento preso no coração.
Abracei-a e gritámos como na infância, até a hera revelar o seu vento livre em direcção ao Tempo em que os homens chamavam liberdade ao movimento da mão que lendo abria as páginas da alma e da História e, fixando lentamente as conchas no lugar das asas, percebi que só o Amor empresta movimento ao instante. Nesse que me era dado viver, o movimento primordial acordara, M. escutara-o e encontrara-o e tudo na História poderia de novo recomeçar. M. tinha-me conduzido, pelos livros, à audição de Deus que soprando por uma flauta criou, com a Música, os sopros ou os sons únicos de tudo. Era noite. A folha com o nome ilegível era agora clara: só a folha onde ainda há vento acolhe a música, e Deus pode morar para se deixar tocar, não ver. Ou a gaiola de pássaro, que aberta ou fechada, nos prepara para a leitura do poema do mundo, que é uma litania, ou um louvor. Um acerto, uma gaiola aberta, onde o nome é o sopro que eleva a natureza da coisa; um desacerto, uma gaiola fechada, onde o nome emudece a natureza de cada qual. Escutando ainda os seus sons:
É a paisagem ressoando, é o badalo de um sino,
É a libertação tão pura do entardecer; -
Tudo sinais que, em nós, anunciam
A vinda de uma figura terna e nova.
Assim se compreende que vivamos num incómodo estranho
Entre o arco longínquo e a flecha tão penetrante:
Entre o mundo demasiado vago para apreender o Anjo
E Aquela que, por excesso de presença, não o deixa vir.
Aprendeu que ler é esperar o estranho, mas essa espera é regulada pelo doseamento na nossa voz do ruído e da Música. O ruído o vago, a Música a excessiva presença que deixa para sempre Deus no invisível da página e da alma. Mas murmurante no seu movimento. Nesse em que só a infância e os sopradores atentos se lembram de procurá-Lo. M. relia Rilke todos os dias e dele colhendo frutos e apontamentos refez o Jardim do Paraíso na sua interioridade, no Jardim do Silêncio. Então, tendo todos aprendido o exercício da leitura, floriam falando e perceberam por que razão a morte é uma flor.

Em louvor da oração sapiencial que foi escutar Jean-Yves Leloup na Faculdade de Letras de Lisboa. Em louvor dos que trouxeram livros certos até à minha alma e às minhas mãos. Em louvor de todos aqueles que, sendo invisíveis, são o sopro rítmico com que a vida flúi e se desenvolve como uma melodia e não como uma narrativa. Aos seres musicais que com enlevo e arte desenham no nosso corpo movimentos com que podemos dançar de olhos fechados, na noite escura, sem medo e com confiança ou fé nas paisagens invisíveis.










A Nave dos Loucos

A José Alberto Gil, com muita Saudade

Ignorando de onde, com quem e para onde
uma nau cruza o oceano ignoto
Por pendão um remoinho de línguas de fogo
nas velas um incêndio jamais extinto

A bordo vai Todo o Mundo e Ninguém
animais, deuses e homens de sexo indefinido
Sem tempo consomem os dias
em missas, danças e riso
coisas santas porque inúteis
discursos sábios sem juízo

As populações da costa temem-na,
mas diz-se que a terra canta quando passa
e as colheitas logo superabundam
Também as mulheres se tornam mais fecundas
e concebem filhos que não choram:
os que súbito não desaparecerem
morrerão infantes ou envelhecerão poetas

Se uma trompa entre brumas a anuncia
e em chamas no horizonte a avistam,
os homens entregam às vagas peças de ouro
pão, frutos e flores
as mais velhas garrafas de vinho

Nas igrejas os sinos repicam
os padres proferem sermões inspirados
mas há sempre algo de estranho:
um vitral que em silêncio explode
amantes beijando-se quando a Hóstia é consagrada
imagens tombando na direcção anunciada

Por isso todos se benzem
e intimamente a esconjuram,
a longínqua nau que jamais de terra se aproxima
e insondável segue a sua infinda Viagem,
sem leme nem bússola nem capitão
sem mapa, rota ou razão

Murmuram os loucos e os vagamundos
ouvidos extasiados na sibilina voz do Vento
que a bordo é sempre Domingo de Pentecostes
e numa eterna Folia bailam os inocentes do Senhor,
os eleitos do Profundo:
Todo o Mundo e Ninguém

quinta-feira, 24 de abril de 2008

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Copying Beethoven



Trago-vos um extracto do filme Copying Beethoven com os actores Ed Harris e Diane Kruger nos papéis de Beethoven e Anna Holtz, uma jovem compositora, copista.
É só um pedaço entre vários, emocionantes, como a estreia da 9ª sinfonia e Beethoven a ditar a Anna o Hino de Acção de Graças. A fotografia é preciosíssima.

(diálogo entre Anna Holtz e Ludwig Beethoven, a propósito da grosse fuge)
A.H. - Não compreendo, onde termina o andamento?
L.B.- Não termina, flui. Temos de parar de pensar em fim e em princípio – isto é uma coisa viva – como nuvens tomando forma ou a sucessão das marés.
A.H. Mas como funciona, musicalmente?
L.B.- Não funciona, desenvolve-se. O primeiro andamento torna-se no segundo. À medida que cada ideia morre, nasce uma nova.
A Anna compõe obcecada pela estrutura, por escolher a forma correcta. Mas tem é de escutar a voz que fala dentro de si. Eu próprio só a ouvi depois de ficar surdo.
A.H.- Diz que tenho de encontrar o silêncio dentro de mim antes de poder ouvir a música?
L.B.- Isso mesmo. Isso, o silêncio é a chave. O silêncio que existe entre as notas. É quando estiver rodeada por esse silêncio que a sua alma poderá cantar.

But one heart




As I sat sadly by her side - Nick Cave

As I sat sadly by her side
At the window, through the glass
She stroked a kitten in her lap
And we watched the world as it fell past
Softly she spoke these words to me
And with brand new eyes, open wide
We pressed our faces to the glass
As I sat sadly by her side

She said, "Father, mother, sister, brother,
Uncle, aunt, nephew, niece,
Soldier, sailor, physician, labourer,
Actor, scientist, mechanic, priest
Earth and moon and sun and stars
Planets and comets with tails blazing
All are there forever falling
Falling lovely and amazing"

Then she smiled and turned to me
And waited for me to reply
Her hair was falling down her shoulders
As I sat sadly by her side

As I sat sadly by her side
The kitten she did gently pass
Over to me and again we pressed
Our different faces to the glass
"That may be very well", I said
"But watch the one falling in the street
See him gesture to his neighbours
See him trampled beneath their feet
All outward motion connects to nothing
For each is concerned with their immediate need
Witness the man reaching up from the gutter
See the other one stumbling on who can not see"

With trembling hand I turned toward her
And pushed the hair out of her eyes
The kitten jumped back to her lap
As I sat sadly by her side

Then she drew the curtains down
And said, "When will you ever learn
That what happens there beyond the glass
Is simply none of your concern?
God has given you but one heart
You are not a home for the hearts of your brothers

And God does not care for your benevolence
Anymore than he cares for the lack of it in others
Nor does he care for you to sit
At windows in judgement of the world He created
While sorrows pile up around you
Ugly, useless and over-inflated"

At which she turned her head away
Great tears leaping from her eyes
I could not wipe the smile from my face
As I sat sadly by her side

A Saudade, a Canção de Amor e a luz de Deus segundo Nick Cave

"We all experience within us what the Portuguese call saudade, which translates as an inexplicable longing, an unnamed and enigmatic yearning of the soul, and it is this feeling that lives in the realms of imagination and inspiration and is the breeding ground for the sad song, for the Love Song. Saudade, or longing, is the desire to be transported from darkness into light. To be touched by the hand of that which is not of this world. The Love Song is the light of God, deep down, blasting up through our wounds" - Nick Cave, in The Secret Life of the Love Song. The Flesh Made Word. Two Lectures by Nick Cave (CD).

terça-feira, 22 de abril de 2008

Forward de Gomes Leal

*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*

(A Bruno Blue de Carvalho)


Eu moro altivo é só n'uma trapeira,
Onde as pennas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia á soalheira...
E onde passa dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas,
As graves castellãs nos seus balcões,
E gothicas varandas recostadas...
--Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!...

Professo o culto só do _far niente_
Deitado, todo o dia, num colchão...
Na posição immovel d'um vidente...
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquillos modos d'um sultão.

Ó filhas do _spleen_ malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
_Ó sebentas_ do estudo empoeiradas,
E tristes quaes sultanas despresadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!...

E vós teias d'aranhas inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!...
Ó Musas que inspiraes os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astros dos meus tectos!
Que vos creou ao seu _fiat lux_!?

Sois vós que me escondeis, qual caracol,
E servís de cortina e bambinellas...
Quando eu declamo involto n'um lençol,
E as visinhas que estão tomando o Sol
A espreitar-me se põe entre as janellas!...

Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felicia...
E onde puz um retrato de Trajano,
Dentro d'um casacão diluviano,
Soffrendo como Cesar de calvicia!

Nas paredes estão phrases symbolicas,
E aqui e ali borrados a carvão:
Uma Venus com ar de grandes colicas,
Um santo d'umas barbas apostolicas,
E dous frades jogando o bofetão!

Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Biblia mui velha onde no fim...
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro...
Tendo n'um grande pé chinello mouro,
E vestido com ar de mandarim!...

Defronte ri sinistra uma caveira,
A que puz uns bigodes com cortiça...
E d'um truão a loura cabelleira...
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda á missa!

Ao lado mora-me um visinho manco
Que faz dos sinos unico regallo...
E gosa da união d'um saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noute canta como um gallo.

Defronte uma visinha costureira,
Doce lyrio que treme a um vento vario...
Que canta a manhã toda e a tarde inteira...
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canario!...

Toda a noute o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indescretos...
E canta, n'uma voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só n'uma trapeira...
Onde as pennas das pombas deixam rastros...
Exposta todo o dia á soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!

Gomes Leal

nada sobre o nada

sobre o nada não esquece a dor
da mente na barca do ser
a arca danada no cabo bojador
no mar tinha visto o ser se perder

o ente, o ser e todos o seres
gente talvez, pessoas se queres
nadando no mar tão salgado
cercado de nada, nada de algo

mais profundo do que o pensar
digerindo o tudo que nada aqui
no ar tinha visto gaivotas - aí!
...que vivem na vida só para voar

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Blasfémias pessoanas e Jean-Yves Leloup, amanhã, 22, sobre a meditação que nos liberta de quem medita

Para quem não tenha nada de melhor para fazer, se queira aborrecer e deixar de perceber o quer que seja acerca de Pessoa, recordo a conferência que farei hoje sobre "A Questão de Deus em Fernando Pessoa". Aí se ouvirão, entre outras blasfémias, coisas como: "Deus existe, com efeito, para si próprio; mas Deus está enganado". Será no Auditório 1 do Edifício 3 da Universidade Católica, pelas 17 h.

O importante é amanhã, 3ª feira, a presença de Jean-Yves Leloup, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelas 18 h, para uma conferência sobre "O Peregrino Russo: antropologia do hesicasmo e diálogo entre as religiões". A entrada é livre e haverá tradução para português.
"Para João Clímaco, a hésychia não é somente "negação das preocupações racionais", ela é também "eliminação dos pensamentos", no sentido muito amplo do termo. "Não terás a oração pura se estás embaraçado pelas coisas materiais e agitado por preocupações constantes, pois a oração é eliminação dos pensamentos" (De Oratione, 70, P. G. 79, 1181).
Esta ausência de pensamentos é esquecimento de si. Quando a mente está pacificada, o "pequeno eu" desaparece pouco a pouco, abre-se à Alteridade que o funda e repousa-se nela" - Jean-Yves Leloup, Écrits sur l'Hésychasme. Une tradition contemplative oubliée, Paris, Albin Michel, 2003, p.47.

gémeas

domingo, 20 de abril de 2008

Desafio


Uma das coisas boas dos EUA é a capacidade de auto-critica de alguns dos seus cidadãos. Não obstante a apatia e auto-contentamento da grande maioria dos Norte-americanos, há um honrosa minoria cuja coragem, capacidade de análise e espírito denunciador e interventivo não têm par no mundo inteiro. Um desses exemplos é o escritor "Beat" William Burroughs:


William S. Burroughs - Thanksgiving Prayer

http://www.youtube.com/watch?v=Z7_MYrVzU-Y

Thanks for the wild turkey and the passenger pigeon…destined to be shit out through wholesome American guts.

Thanks for a continent to despoil and poison.

Thanks for Indians to provide a modicum of challenge and danger.

Thanks for vast herds of bison to kill and skin…leaving the carcasses to rot.

Thanks for bounties on wolves and coyotes.

Thanks for the American dream: To vulgarize and to falsify until the bare lies shine through.

Thanks for the KKK.

For nigger-killin’ lawmen, feelin’ their notches.

For decent church-goin’ women, with their mean, pinched, bitter, evil faces.

Thanks for “Kill a Queer for Christ” stickers.

Thanks for laboratory AIDS.

Thanks for Prohibition and the war against drugs.

Thanks for a country where nobody’s allowed to mind their own business.

Thanks for a nation of finks.

Yes, thanks for all the memories…all right, let’s see your arms.

You always were a headache and you always were a bore.

Thanks for the last and greatest betrayal of the last and greatest of human dreams.

(1988)


Quem escreve e declama assim não é um homem cheio de ódio e amargura, mas sim alguém arrebatado de Amor pelo seu país ... Quem não ama está-se nas tintas

Só um@ verdadeir@ patriota pode denunciar os podres do seu país como Burroughs o denuncia.


Por isso, tenho uma sugestão para o 10 de Junho:


Escrevermos um poema colectivo, na linha do "Thanksgiving Prayer", composto por vários versos começados por "Celebro", "Canto" ou "Louvo", "Agradeço", "Orgulho-me" ou "Alegro-me", no qual ironizemos todos os "podres", passados e presentes, do nosso país.


Esse poema seria escrito a várias mãos, publicado neste blogue, e no final poderiamos incluir os nomes (reais, pseudónimos ou heterónimos) de todos os participantes.


Criariamos assim um poema catártico, no qual "queimaríamos" tudo aquilo que oprime Portugal com o Fogo da Palavra, criando assim um espaço interior e energia para que possamos exprimir a alta voz os nossos sonhos.
No final, faríamos uma ode à nossa força interior, de como todos esses factores supostamente opressivos apenas contribuem para nos tornar consciente da nossa própria força, impedem que nos acomodemos e forçam-nos a querermos nos cumprir e transcender a nós mesmos e a tudo o que nos rodeia.


Quem quizer participar, que ponha os seus versos aqui na "Serpente Emplumada".


quem vem lá?

sábado, 19 de abril de 2008

A iniciação do jovem Jean-Yves Leloup à meditação hesicasta

"O velho monge tinha-o bem aconselhado, com efeito, a meditar "como o oceano" e não como o mar. [...] Inspiro, expiro... depois: sou inspirado, sou expirado. Deixo-me levar pelo sopro, como nos deixamos levar pelas vagas... [...] A gota de água mantinha a sua identidade e no entanto sabia "ser una" com o oceano. É assim que o jovem aprendeu que meditar é respirar profundamente, deixar ser o fluxo e refluxo do sopro.
Aprendeu igualmente que, se havia vagas à superfície, o fundo do oceano permanecia tranquilo. Os pensamentos vão e vêm, espumam-nos, mas o fundo do ser permanece imóvel. Meditar a partir das vagas que somos para perder pé e ganhar raiz no fundo do oceano. Tudo isto tornava-se cada dia um pouco mais vivo nele e recordava as palavras de um poeta que o tinham marcado no tempo da sua adolescência: "A Existência é um mar sem cessar cheio de vagas. Deste mar as pessoas comuns não percepcionam senão as vagas. Vê como das profundezas do mar inumeráveis vagas aparecem à superfície, enquanto o mar permanece escondido nas vagas". Hoje o mar parecia-lhe menos "escondido nas vagas", a unicidade de todas as coisas parecia-lhe mais evidente e isso não abolia o múltiplo. Tinha menos necessidade de opôr o fundo e a forma, o visível e o invisível. Tudo isso constituía o oceano único da vida.
No fundo do seu sopro não havia a Ruah [o Espírito divino]? O pneuma ? O grande sopro de Deus ?
"Aquele que escuta atentamente a sua respiração, disse-lhe então o velho monge Serafim, não está longe de Deus.
Escuta quem está lá no final da tua expiração. Quem está lá no final da tua inspiração". Havia aí com efeito alguns segundos de silêncio mais profundos que o fluxo e o refluxo das vagas, havia aí alguma coisa que parecia suportar o oceano..." - Jean-Yves Leloup, Écrits sur l'Hésychasme. Une tradition contemplative oubliée, Paris, Albin Michel, 2003, pp.17-18.

O autor falará sobre este tema na próxima 3ª feira, dia 22, pelas 18 h, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Martinho da Arcada

No Martinho da Arcada
não tem nada
não tem pessoa, nem gente
não tem ninguém que mente

como o poeta nas fotografias
com identidades falsas
que fala de outras vidas
e de mares nunca navegadas

Não tem ninguém de verdade
aqui só existem heterónimos
então bebo e tenho tanta vontade
de inventar um monte de poetas

31.III.08

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Uma experiência de êxtase laico e contemporâneo

"Aí onde penetrei era uma esfera de cristal, onde tudo era luz e silêncio - tudo isso que subitamente veio e me envolveu. Esfera feita duma substância poderosamente dura e frágil. Irradiante e geometricamente definida. Fremente e calma: a verdadeira vida nesse lugar desvendada. Impondo-se por uma potência irresistível, uma autoridade incontestável; mas vulnerável, susceptível de ser posta em fuga à menor falta da minha parte. Vinda expressamente para mim, mas fugaz. Impossível de aprisionar porque indizivelmente livre. Uma só imperfeição existia nesse paraíso, não lhe pertencendo, mas acompanhando-o: a certeza do seu fim inevitável, inelutável, num momento desconhecido mas próximo. Esta apreensão subsistia, tal um ponto negro sobrenadando neste mar cintilante de pura alegria" - Dalila Pereira da Costa, "Três meditações sobre o êxtase", Porto, Lello & Irmão, 1972, p.9.

Dalila Pereira da Costa é uma Amiga, autora de vasta obra, a cuja homenagem será dedicado o III Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, em 19 e 20 de Maio, no Porto e em Viana do Castelo.

Da "normalidade" como doença

"É o ego que resiste. Tantos combates lhe foram necessários para afirmar-se e eis que agora lhe é exigido que passe ao segundo plano, que dê lugar ao si mesmo. O ego toma isso como um ameaça e tem razão. O indivíduo como ego é ameaçado, é convidado a morrer... Mas o indivíduo que não tem medo, que aceita esta ameaça e que abre mão, torna-se uma pessoa, alguém através do qual o si mesmo, a presença do Ser essencial, pode ressoar e manifestar-se.
A "normalidade" (que eu chamo de "normose" para fazer a conexão com neurose e psicose), mesmo se Freud a chama de "cura ou saúde", pode ser considerada uma doença do Ser essencial. Esta normalidade pode tornar-se um obstáculo no caminho da verdadeira realização; é preciso saber colocar em questão a imagem que cada um tem de si ou que a sociedade nos impõe e, através de uma certa solidão, expressar a maneira única pela qual o Ser quer manifestar-se em nós" - Jean-Yves Leloup, Enraizamento e Abertura, Petrópolis, Vozes, 2003, p.41.

Fernando Pessoa e Jean-Yves Leloup - 21 e 22 de Abril

Caros Amigos,

Chamo a atenção para as conferências que decorrem no Auditório 1 do Edifício 3 da Universidade Católica. Aí falarei no dia 21, 2ªfeira, pelas 17 h, sobre "A Questão de Deus em Fernando Pessoa".
Recordo sobretudo a presença de Jean-Yves Leloup, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Cidade Universitária), no dia 22, 3ª feira, pelas 18 h, para uma conferência sobre "O Peregrino Russo: antropologia do hesicasmo e diálogo entre as religiões". A entrada é livre e haverá tradução para português. A não perder !

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Alexandre Herculano, Século XXI


http://www.wardruna.com/about/index.html


Nas horas do silêncio, à meia-noite,
Eu louvarei o Eterno!

Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,

E os abismos do inferno.

Pela amplidão dos céus meus cantos soem

E a Lua prateada

Pare no giro seu, enquanto pulso

Esta harpa a Deus sagrada.

Antes de tempo haver, quando o infinito

Media a eternidade,

E só do vácuo as solidões enchia

De Deus a imensidade, Ele existia, em sua essência envolto,

E fora dele o nada:

No seio do Criador a vida do homem

Estava ainda guardada:

Ainda então do mundo os fundamentos

Na mente se escondiam

Do Omnipotente, e os astros fulgurantes

Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento

Das mãos sai do Senhor:

Surge o Sol, banha a terra, e desabrocha

Sua primeira flor:

Sobre o invisível eixo range o globo:

O vento o bosque ondeia:

Retumba ao longe o mar: da vida a força

A natureza anseia!

cantiga de amigo

A noite segura-a

Como um barco ao vento.

Dentro dos teus olhos

Acordam as docas

Sacudidas.

E o tempo mastiga

Violento mais um dia

Fragmentos, um braço

Nas garras da espuma

Agitada

Como um barco ao vento

– Sem poder acostar.

Easter (Erotic Poetry)

Em resposta ao comentario da Alumbrada "O Nada é a noite ululante do sexo e do abismo !"

http://www.youtube.com/watch?v=FKu59SMZAAs

"Easter is an erotic poem written by Caeser Pink and an Indian poetess from San Francisco. The words were inspired by the writing of Henry Miller and Anais Nin. The video features New York City singer and dancer Chisa, and Samantha D. Camera work by Louis Mhina Dada Terrier and Caeser Pink. The open music section is based on Stravisnky's The Rite Of Spring. "

Uma versao "Cyberpunk" da Cancao de Salomao?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Tantra: O saber Amar como porta de acesso a vacuidade libertadora

A pedido de varias familias, esta de regresso o filme "Sex: The secret gate to Eden". Espero que gostem e, se possivel, facam comentarios construtivos e dem sugestoes de material escrito e audiovisual sobre o tema:

http://video.google.com/videoplay?docid=-6756768187241710929

Nada não niilista e vacuidade

"Lo español y el portugués lo expresan admirablemente sin recurrir a la negación dialéctica: Nada no significa "no-Ser" sino ausencia de Ser (no nacido, non-natum, ajata en sánscrito); pero no la ausencia como una privación, como la negación de algo que debiera ser, como un aborto que aún no ha llegado a ser" [...].
La Nada no es el asat (no-Ser) de las filosofías del atman; es más bien la vacuidad de las filosofías del anatman. Esta nada es el meollo de la experiencia mística. Por algo la dimensión mística de la realidad es más connatural al buddhismo que a las filosofías del Ser - sobre todo si este último se identifica con Substancia" - Raimon Pannikar, De la Mística. Experiencia plena de la Vida, Barcelona, Herder, 2005, pp. 143-144.

"Nada", em castelhano e português, procede da expressão latina "nulla res nata" (nenhuma coisa nascida).

Pelo caminho do nada até ao centro do nada

"Por el camino de la nada has de llegarte a perderte en Dios, que es el último grado de la perfección, y [si] así te sabes perder, serás dichosa, te ganarás y te acercarás a hallar. En esta oficina de la nada se fabrica la sencillez, se halla el interior y infuso recogimiento, se alcanza la quietud y se limpia el corazón de todo género de imperfección. Oh, qué tesoro descubrirás si haces en la nada su morada ! Y si te entras en el centro da la nada, en nada te mezclarás por afuera (escalón en donde tropiezam infinitas almas), sino solamente en aquello que por oficio te toca" - Miguel de Molinos, Guía Espiritual, XX, 191.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Orgulho de irmã

Aqui vos deixo um texto de “Portas da Percepção”, blogue da minha Irmã, que escreve de uma forma muito mais harmoniosa, corajosa e iconoclasta que eu:

http://miz-hyde.livejournal.com/99984.html?view=468368#t468368

"April 12th, 2008

02:16 am - Registo – o filme “I’m Not There”……é dos poucos filmes que consigo dizer “Pá, é mesmo isto”. Acabei ainda há pouco de o ver. Disse isto não em detrimento dos outros, claro. Simplesmente tenho uma mente tão activa, que poucos são aqueles filmes que a acompanham. Tão simples quanto isso. Cada um sente como sabe. Amei o filme. E pouco conheço de Bob Dylan. A sua desintegração integra uma colectividade enorme, mas somente quem se consegue esquecer de si mesmo.“As pessoas dizem que eu tenho uma imaginação extraordinária. Sinto-me só.”Os desempenhos da Cate Blanchet e do Christian Bale foram qualquer coisa de magnífico e… sexy. O meu fetiche pelo Christian Bale não afecta qualquer objectividade. Já pressentia noutros filmes isto, mas neste dá para ver o quanto ele se entrega e ama o que faz. Sinto-me orgulhosa por adorar este menino bonito.

“Um dia destes mostro-te o meu texto sobre Jesus Cristo. Não me sinto melhor ou pior do que as outras pessoas apenas por escrever, jamais, sabes? Às vezes escrevo. As pessoas por vezes não se relativizam, sabes? A escrita e a música nada mais são do que uma expressão individual. É como limpar o rabo, sabes? – pode-se usar papel higiénico, mas também se tem a opção de utilizar uma folha de jornal, ou o cão da vizinha, ou alguma coisa que estimule de modo especial os entrefolhos do olho do cu.”, palavras saíam-me de rompante perante o meu companheiro da sessão, enquanto nos dirigíamos para o carro.

Esqueçamo-nos de nós próprios. Esqueçamos as nossas necessidades de estímulos, de nos sentirmos deuses, especiais. E assim se É. Cada um de nós é um Deus comum. Plagiados de merda por dentro para nos fazer sentir “que bom que sou, nesta causa virtual que segue a minha vida ansiando público e aplausos de quem eu no fundo gostaria de ser e copio, só que carregando mais na maquilhagem para desviar a atenção das traças de uma outra chama para mim” – plagiados de esterco tapador de vazios, motor artificial do interesse banal.

Esqueçamo-nos de nós próprios e besuntemo-nos de vida. Não é preciso esforço, no sentido de espasmo doente. Morte ao antídoto dos vazios. Amemos o plural mais do que nós mesmos. Amemo-nos a nós próprios como a derradeira, desesperada expressão de vida do sentir do carinho e do animal afectuoso. Leoa que vai à caça e tigre que dá turras de amor. Hedonismo com alma, sempre.

sábado, 12 de abril de 2008

I am not like other people. I am burning in hell. The hell of myself. (Henry Chinaski, personagem de Charles Bukowski em "Barfly - Amor Marginal)

Quem nunca levou com um "nunca mais" que atire o primeiro calhau

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y, otra vez, con el ala a sus cristales
jugando llamarán;
pero aquéllas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha al contemplar,
aquéllas que aprendieron nuestros nombres...
ésas... ¡no volverán!

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde, aún más hermosas,
sus flores se abrirán;
pero aquéllas, cuajadas de rocío,
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer, como lágrimas del día...
ésas... ¡no volverán!

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
tu corazón, de su profundo sueño
tal vez despertará;
pero mudo y absorto y de rodillas,
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido..., desengáñate:
¡así no te querrán!

(Gustavo Adolfo Bécquer)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Dia Mundial dos Ciganos - 8 de Abril

A vida como ela é

repousar nos braços da ternura...


(este poema encontra-se na Senhora do Viso - Douro)

o mar


"depondo as falsas seguranças mentais e afectivas em prol da imprevisível Aventura, nada há em que ela não nos solicite, o mais banal e quotidiano é esplendor e prodígio, o existir é Festa sem porquê nem para quê. Ser faz-se Viagem nas velas pandas do Amor: onde a terra acaba amar começa"
paulo borges - do finistérreo pensar, lisboa 2001

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Lançamento do livro do Professor Oscar Brenifier
Presidente do Institut de Pratiques Philosophiques, França (www.brenifier.com)Consultor Filosófico e Formador de Filosofia Prática e Didáctica da FilosofiaDoutorado em Filosofia pela Sorbonne, Paris

“O livro dos grandes opostos filosóficos”
EdiCare Editora, Lda


Onde?
LANGUAGECRAFT - Línguas, Artes e Cultura, LdaRua Alexandre Herculano, nº 19, 1º - S1091250-008 Lisboa

Quando?
11 de Abril, sexta feira, pelas 20h

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Chanteloube - Novembro de 2007



Cocteau Twins - Pearly Dewdrops drops



Gotejantes como pérolas de orvalho nacarado....
...................................................................................caiem ,uma a uma, folhas de carvalho.
Cantam crocitantes todas a florestas de folha caduca, num ensurdecedor uníssono esvoaçante. Sob meus passos jaz lívida, em vala comum, a Primavera verdejante. Por cada folha tombada renascem duas, ainda mais glabras e cintilantes no silêncio de geada.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Abandona tudo. Sobretudo a ti mesmo

Há em ti algo mais precioso do que toda a religião, filosofia, arte, moral e ciência. Algo mais essencial do que todos os livros, criações e revelações. Porque é da limitada expressão disso que valem o que valem quando valem. Lê, escuta e vive apenas o que te ajude a não esquecer, recordar e assumir isso. E deixa o resto para o nada de tudo. Abandona tudo por amor ao tesouro que em ti trazes. Abandona tudo. Sobretudo a ti mesmo.

sonhos


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo.
Fernando Pessoa

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Criatividade e... meia dúzia de chapéus às cores!

Workshop Gratuito
nos próximos dias 6 / 7 de Junho

Six Thinking Hats(R) de Edward de Bono


Reserve a sua inscrição, consulte os nossos horários.Solicite informação detalhada através deste e-mail seischapeuspensamento@gmail.com



dentro da casca plúmbea do depois
as árvores as aves os sonhos as aventuras os desejos as dores sem carnes parturientes
as manhãs rubras de purpurina e não ter sido
acoitam-se da desolação
ao olhar tudo se furta se a luz se entrelaça com o desejo
e esperam o rasgar das veias do silêncio
pelo gume cristalino da saudade
entrelaçam-se em nós de pele e crinas com sabor a sangue
os ecos das batalhas e as orações dos que não partiram
cântico degolado
na quietação das aves depois do crepúsculo
as nuvens e as vertigens os amantes e os gritos as escoras do chão que ninguem pisa
e é de par em par que a noite se desfaz dos prantos e dos restos mortais
de haver mundo

John Cage - sons, música e o silêncio



"The first question I ask myself when something doesn't seem to be beautiful is why do I think it's not beautiful. And very shortly you discover that there is no reason." --John Cage.

Fado embarcadiço

Quando eu voltar,
sei que os meus pés vão pegar fogo,
e que o meu coração vai desdobrar-se em mil braços,
os seus dedos desenhando mudras
que são os contornos do mapa
onde se cruzam as geografias do mundo
e da alma.

Sei que os meus olhos vão medir o tempo
contemplando os matizes das horas que passam
sobre as àguas do Tejo,
e que os meus lábios vão contar o quanto o mundo é belo
quando visto através dos olhos de terra
que, encobertos, julgam só ver
o derrocar de tudo.

Olhos de serpente
que parecem olhos predadores
a quem perdeu a fé num mais-além
e se enclausurou nas misérias da sua carne,

olhos alquímicos
de oceânica esmeralda,
que desencombrem o seu tenebroso esplendor
a quem tem pés de pólvora
e o peito em permanente combustão.

O teu brilho viperino expulsou-me da vida mansa,
e a ti me há de fazer voltar
quando descobrir o centro sagrado
onde que os pontos cardeais se encontram,
e o riso universal floresce nas espirais de luz
que esperam nas partículas de cada ser.

Providence, RI, EUA, 07/04/2008

Batota Dupla* ou só para dizer que ainda existo

Das janelas calafetadas ( Over de afgedichte ramen, traduçao de Arie Pos)

Na tua casa todas as janelas são calafetadas.
Têm fitas adesivas
siliconizadas
para reduzir o coeficiente de atrito

de tracção

Fecham sem deixar abrir a janela.

Mesmo assim
quando chove

os caracóis marcham deslizando suavemente pelos vidros.
Deixam uma caligrafia viscosa que me arrepia.
- Grito
horrorizam-me os caracóis.

Eles assustam-se
recolhem os seus pauzinhos

estagnando na tua vidraça calafetada.


O seu rasto viscoso permanece nos vidros da tua janela
nas madeiras envernizadas
nas carpetes densas
nos meus pés nus
no meu pescoço


E eu grito
os vidros racham-se.

E eu grito
porque sinto o caracol no meu pescoço,
a subir pela nuca
deixando o seu rasto viscoso
no meu pescoco.


Tu apaziguas-me
dizendo que as janelas estão calafetadas
siliconizadas
os caracóis amedrontados

e o rasto viscoso é apenas o da tua língua
no meu pescoco.



De como as tuas janelas calafetadas não me protegem de arrepios.

in Joana Serrado, Emparedada Uit de Muur Hendrik de Vriesstipendium 2008

*Publicidade à obra futura e preguiça de escrever post, portanto cópia directa da minha Botânica

Musicalização-Alienação

"[...] o florescimento sem precedentes da música ocidental apenas se pode compreender a partir da necessidade de produzir um sucedâneo de amplitude cultural convincente para o deserto perdido e para o encerrado refúgio monástico. [...] Nos últimos cem anos, a música estabeleceu-se como o mediador universal através do qual a época sem deserto procura cobrir as suas necessidades de fuga do mundo. O ataque do som artificial aos ruídos exteriores do mundo atingiu neste século uma intensidade sem par em toda a história da espécie. Mas, ao contrário do deserto, que ajudava a libertar o interior, a musicalização mediática de todos os espaços submerge os últimos vácuos de interioridade livre: esquecimento do Ser em todos os altifalantes, ausência banal do mundo em todos os lares, a toda a hora do dia. Desde que há auriculares, o princípio de desconexão do mundo progride no consumo moderno da música também ao nível do aparelho" - Peter Sloterdijck, O Estranhamento do Mundo, Lisboa, Relógio d'Água, 2008, p.72.

Porque estamos sempre a ouvir música, a ver televisão, a viajar na net, a ler, escrever, telefonar, a receber e enviar mails, msns, smss ? Porque passamos tanto tempo neste blogue ? Para fugir de quê ? Para não escutar o quê ? As vozes dos deuses e do silêncio ? A sinfonia do mundo ? Para esquecer e povoar o deserto que somos, que tudo é ? Para nos escondermos de Deus ou do sem nome ? Para não ficarmos nus e despidos de experiências, transidos de luz, despertos ?

domingo, 6 de abril de 2008

Mudar de estado





“Para viver em espírito e em verdade, os iniciados respondem: torna-te árvore seca, touro, leão, passa de estado em estado para te tornares árvore florida.
Mudar de estado é passar de verdade em verdade sem se fixar numa delas, sem se esclerosar num dogmatismo e sem por isso ser céptico”


(A pintura que juntei é de um pintor que assina Ortiz)

a arte de bem responder (ou não)

«Muitas pessoas não ficaram indiferentes à vinda de Sua Santidade. Os livros venderam-se bem e levantaram a curiosidade de algumas crianças.
Uma delas perguntou à mãe quem era o Dalai Lama.
E a conversa foi a seguinte:
- Mãe, quem é o senhor careca?
- É o Dalai Lama.- Quem é o Dalai Lama?
- É o líder do Budismo.
- O que é o Budismo?
- É uma religião.
- Mas o que é que ele faz?
- Ele é o líder religioso.
- O que é isso?
- Então, ele é líder dos recursos humanos do Tibete.
Como toda a gente sabe, o Dalai Lama tinha passado antes pela contabilidade e pelo marketing, mas foi nos recursos humanos que encontrou a sua vocação.»

Fonte: http://www.olivreiro.blogspot.com/

No 7º Simpósio Aquém e Além do Cérebro, Stefan Schmidt apresentou um estudo cujo resultado indicava os benefícios de meditar.


Lemos na Revista Visão que «Duas horas e meia semanais de meditação em grupo e 45 minutos diários individuais conduziram a melhorias de 180 pacientes que sofriam de dor crónica.»


«Quando a consciência está centrada no movimento e se aceita o que vem, cria-se um padrão de coerência cerebral que regula as emoções», diz o investigador.



Fonte: Visão, nº 787, 3 de Abril de 2008


Ana, eu estou aqui!





Ontem fui ao cinema. Este filme, que em português se chama «Nunca é Tarde Demais», captou a minha atenção quando vi o «trailer». E os actores eram promessa de qualidade.

O sentido da vida. Gostarias de saber antecipadamente do momento da tua morte? Quando podemos dizer: VIVI VERDADEIRAMENTE ?!?

The Bucket List é a lista de coisas que queremos fazer, antes de bater a bota. Foi um trabalho de casa que o professor de Filosofia deu à personagem interpretada por Morgan Freeman.

Não sei se este filme vai mudar a vida de alguém, mas julgo que a todos nos convoca para uma reflexão interior sobre «o que raio ando eu aqui a fazer!»


@PraiadoMagoito
«Lembre-se que nada é constante,
só a mudança é constante»

Principe Siddhârta Gautama ou Shâkyamuni, dito Buda.

sábado, 5 de abril de 2008

Isto sim, é o Quinto Império!

Amina, cantora Tunisina que já acompanhou um coral Alentejano e a Sinfonietta de Lisboa no Centro Cultural de Belem, a cantar em Frances e Árabe, com imagens do Mediterraneo, e a lançar a Runas ...

Amina - Le Cercle Rouge

http://www.youtube.com/watch?v=gxw-Kj9Xu6A&feature=related

Será o deixar de meditar para poder suportar certas "realidades" uma forma socialmente correcta de alcoolismo?

O que não vacila...

O próprio Espírito, Ele
Sem estados de alma
Tronco de aço
Braços em brasa, em asa
Voa a direito, sem vacilar
Para Ele, os ventos são apenas sons
Com eles compõe a sua valsa
Para Ele, não há marés
Apenas o Azul, o Silêncio, o Horizonte
Ergue-se indiferente às vagas
Na Dança, unívoca, da Vontade
Em eterno retorno, em eterno tornar-se
Focado, tão-só, na Visão
Não vacila, simplesmente é-o...
É o...

Já alguém fez este trocadilho?

Abril águias mil

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Uma Homenagem a Gabriela Llansol

aceno

Passo a passo

Companheira

Nos aproximamos

Da infinita câmara

Para o repouso

Também ele

Partilhado

E sem fim

Com seus silêncios de pedra.

No oriente eterno

Em que dormimos

Estaremos apenas quietos

Camarada.

Por breves instantes

Os nossos passos

Se acompanharam

Lado a lado

No fulgor encarnado por encantos

Na partilha alegre das montanhas

Na extensão dos vales e dos mares

Na consentida presença

Companheira

No mesmo pão mastigado

Sobre as duras pedras

E as flores

Do caminho

Também ele

Interminável

Também ele

Animado –

E, ele também, solitário

Com seus cantos de cigarras.

A Visão da Águia Desperta a Serpente!


Ah! esta Serpente Alada…!
Que sobe…sobe…vértebra por vértebra...
A enroscar no espiral de ADN
Movimento em cadeia ao despertar da rede
Que morfologia é esta? Na fusão de escamas com plumas?
Somos esta esfinge “tríunitária”: (ave-humana-serpentina)
O fogo ascendente na árvore da vida e do conhecimento
Nasce a dança no soar do guizo…
E todos à bailar no mesmo movimento
Tecem os fios da existência…
Olhar para o horizonte no alçar voo
Encontramo-nos no pico mais alto da mente
Somos “Um” na Águia-Serpente

(Giancarlo de Aguiar /"Ambaráguia")


Sendeiros sem glória do fiel hússar



Qual Condição Humana?

http://youtube.com/watch?v=J0yVoxUQ7Q8

Só mais um, antes de te silenciar

-Charles Bukowski-

Genius of the Crowd

there is enough treachery, hatred violence absurdity in the average
human being to supply any given army on any given day

and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace

those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach peace do not have love

beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it
beware those quick to praise
for they need praise in return
beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know
beware those who seek constant crowds for
they are nothing alone
beware the average man the average woman
beware their love, their love is average
seeks average

but there is genius in their hatred
there is enough genius in their hatred to kill you
to kill anybody
not wanting solitude
not understanding solitude
they will attempt to destroy anything
that differs from their own
not being able to create art
they will not understand art
they will consider their failure as creators
only as a failure of the world
not being able to love fully
they will believe your love incomplete
and then they will hate you
and their hatred will be perfect

like a shining diamond
like a knife
like a mountain
like a tiger
like hemlock

their finest art

A condição humana


May, chorando Kyo morto:

«Aquela morte esperava qualquer coisa, uma resposta que ela ignorava, mas que nem por isso existia menos. Ó sorte abjecta dos outros, com as suas rezas, as suas flores fúnerbres! Uma resposta que superasse aquele desespero que arrancava às suas mãos carícias maternais que nenhuma criança recebera dela, o espantoso apelo que faz falar aos mortos pelas formas mais ternas da vida

André Malraux, A condição humana (sublinhado meu).

Bukowski: The Secret of My Endurance

http://www.youtube.com/watch?v=iCrn1LDDoRc&NR=1

I still get letters in the mail, mostly from cracked-up

men in tiny rooms with factory jobs or no jobs who are

living with whores or no woman at all, no hope, just

booze and madness.

Most of their letters are on lined paper

written with an unsharpened pencil

or in ink

in tiny handwriting that slants to the

left

and the paper is often torn

usually halfway up the middle

and they say they like my stuff,

I've written from where it's at, and

they recognize that. truly, I've given them a second

chance, some recognition of where they're at.

it's true, I was there, worse off than most

of them.

but I wonder if they realize where their letters

arrive?

well, they are dropped into a box

behind a six-foot hedge with a long driveway leading

to a two car garage, rose garden, fruit trees,

animals, a beautiful woman, mortgage about half

paid after a year, a new car,fireplace and a green rug two-inches thick

with a young boy to write my stuff now,

I keep him in a ten-foot cage with a

typewriter, feed him whiskey and raw whores,

belt him pretty good three or four times

a week.

I'm 59 years old now and the critics say

my stuff is getting better than ever.

Charles Bukowski: Poetry and Motion

Interessante, o que este poeta tem a dizer sobre a poesia:

http://www.youtube.com/watch?v=r1e5Jeh2Fk0&NR=1

Há indícios de que, não obstante os excessos cometidos durante toda a sua vida e a atitude irónica em relação a tudo o que existe (ou talvez por causa dela), Bukowski tornou-se Budista nos últimos anos da sua vida:

http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Bukowski

Que e feito das Joanas?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sabes, às vezes queria

Sabes, às vezes queria
Que fosse sempre noite
"Porquê?". Porque de dia
Não tenho onde me acoite.

Não tenho onde me acoite
Sinto-me desprotegida
Que fosse sempre noite
A minha única amiga.

A minha única amiga
Sem ela não posso viver
Sinto-me desprotegida
Em constante morrer.

Em constante morrer
Será para sempre assim?
Sem ela não posso viver
A vida que não mais tem fim.

“Darum bitten wir Gott, dass wir “Gottes” ledig werden” [“Por isso rogamos a Deus que de “Deus” sejamos livres”] - Mestre Eckhart

Diário da Manhã



Nasci no rigor de uma manhã de Inverno em plena promessa de Luz. Fui salva pela Manhã. Desde então a luz matinal é a que me ilumina por todas as claridades nocturnas.
Hoje assinalo: eram dez horas em ponto e o Sol ergueu-se
para entrar a arder pelas janelas do meu Oriente.

Um horizonte mais claro e luminoso

Perdoar e perdoar-se é uma perda para o Ego e uma dádiva ao Amor. Abdica-se da posse ilusória da ofensa ou do engano e encaminha-se a alma para o seu centro mais verdadeiro.
Fácil será dizer que somos bons, compreensivos, tolerantes, mais fácil ainda será acusar, julgar e punir. Mas é nesses momentos em que a prova chega, nesse doloroso confronto com a perda, a ameaça e outros vislumbrados caudais lamacentos, que se revela a genuína essência e o Ser autêntico se impõe e manifesta.
Sempre que o perdoador e o perdoado se entregam ao mesmo gesto, um Sol mais alto se levanta e o horizonte do mundo fica mais claro e luminoso.

Um horizonte mais claro e luminoso

quarta-feira, 2 de abril de 2008

3 de Abril - 18.00 - Encontro informal do MIL e lançamento de "Perspectivas sobre Agostinho da Silva", de Renato Epifânio

Caros Membros e Amigos da NOVA ÁGUIA e do MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO,

Vimos por este meio convocar-vos para um primeiro encontro informal na nossa sede, na Associação Agostinho da Silva, Rua do Jasmim, 11, 2º (junto ao Príncipe Real, em Lisboa, na próxima quinta-feira, dia 3 de Abril, às 18h00. Será na ocasião lançado o livro Perspectivas sobre Agostinho da Silva (Zéfiro), da autoria de Renato Epifânio, com apresentação por Paulo Borges.

Estarão igualmente disponíveis os primeiros prospectos da secção portuguesa do MIL, já visualizáveis no nosso site: www.movimentolusofono.org
Estes prospectos, auto-colantes, serão o nosso cartão de apresentação e pedimos a todos que os distribuam (caso não possam vir levantá-los à Associação, poderão enviar-nos um pedido para que os entreguemos por correio).

Nota de apresentação: O MIL - MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO - é um movimento cultural e cívico recentemente criado, em associação com a NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI, projecto que conta já com cerca de meio milhar de adesões, de todos os países lusófonos.
A Comissão Coordenadora é presidida por Paulo Borges (Universidade de Lisboa), Presidente da Associação Agostinho da Silva (sede do MIL).
A lista de adesões é pública – como se pode confirmar no nosso blogue (novaaguia.blogspot.com), são pessoas das mais diversas orientações culturais, políticas e religiosas, dos mais diferentes locais do país e de fora dele.

Se quiser aderir ao MIL, basta enviar um mail: adesao@movimentolusofono.org
Indicar: nome, e-mail e área de residência.

--
NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI/ ÓRGÃO DO MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO
http://www.novaaguia.blogspot.com

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MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org)
ÓRGÃO: NOVA ÁGUIA, REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (novaaguia.blogspot.com)
SEDE: ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA (Rua do Jasmim, 11, 2º – 1200-228 Lisboa; E-Mail: AgostinhodaSilva@mail.pt; Tel.: 21 3422783 / 96 7044286; http: www.agostinhodasilva.pt; NIF: 503488488; NIB: 0033 0000 2238 0019 8497 2)

Vá que é de borla.

Et maintenant je rêve. Je rêve de terminer mon cours de philo dans quelques mois… avoir quelque argent quelques mois après… et voyager sans destin. J’ai fait un peux ça, un jour… mais je veux le refaire encore une fois. Seulement aller. Dans cette voyage j’aimerai bien te raconter, parler avec toi, revivre toi mais, j’aimerais plus si cette rencontre peut’il être sans aucune rendez-vous, aucune marcation avant, sans aucune planification ultérieur, que seulement le destin peux organiser ça… et, dans le moment du rencontre, on se regarderai pour des instants brefs, et, comme pulsion passionnante, on s’embrasserai pas d’amour, mais de regret des notre temps où on a été « chez nous ».... à Paris.

Gute Nacht


Franz Peter Schubert (1797-1828)
Wilhelm Müller (1794-1827)
Fremd bin ich eingezogen,
Fremd zieh' ich wieder aus.
Der Mai war mir gewogen
Mit manchem Blumenstrauß.
Das Mädchen sprach von Liebe,
Die Mutter gar von Eh', -
Nun ist die Welt so trübe,
Der Weg gehüllt in Schnee.

Ich kann zu meiner Reisen
Nicht wählen mit der Zeit,
Muß selbst den Weg mir weisen
In dieser Dunkelheit.
Es zieht ein Mondenschatten
Als mein Gefährte mit,
Und auf den weißen Matten
Such' ich des Wildes Tritt.

Was soll ich länger weilen,
Daß man mich trieb hinaus?
Laß irre Hunde heulen
Vor ihres Herren Haus;
Die Liebe liebt das Wandern -
Gott hat sie so gemacht -
Von einem zu dem andern.
Fein Liebchen, gute Nacht!

Will dich im Traum nicht stören,
Wär schad' um deine Ruh',
Sollst meinen Tritt nicht hören -
Sacht, sacht die Türe zu!
[Ich schreibe nur im Gehen
An's Tor noch gute Nacht]1,
Damit du mögest sehen,
An dich hab' ich gedacht.


terça-feira, 1 de abril de 2008



Alba seria teu nome,
Oh, noite de luar coroada,
Não fora a obscena alvura,
Desflorada pela alvorada.

Generoso é teu negrume,
Esplendoroso teu apagar,
Que a própria luz traz velada,
Pr’ à das estrelas exaltar.

O céu também tem grutas, mas a transparência oculta-as.

Agora falando forte e feio:

O Brasil deu-me cabo da mona. Não consigo estar em sossego longe do desassossego do Rio.

Socorroooooooooooooo!!!!!

Aqui vai a c
ópia de um comentário a propósito da morte de Arthur C. Clarke que deixei noutro blogue:

"Sempre que revejo o "2001 - Odisseia no Espaço" do Kubrik (grande Senhor, com S grande) fico tristíssima ao dar-me conta do que poderia ter sido a aventura espacial e acabou por não ser ... Quando terminou a Guerra Fria, os Americanos e os Russos, numa lógica economicista de caca, deram-se conta de que não dava mais lucro político andarem a exibir-se uns aos outros com programas espaciais ...

E aí se viu que ao programa espacial norte-americano e soviético faltava a qualidade essencial para assegurar o sucesso de uma tal ventura - Heroísmo ...

Foi também nessa altura que abandonei o sonho de menina de um dia trabalhar para a NASA e me virei para as Ciências Sociais. Primeiro de uma maneira mercenária - Queria o "status", a dinheiraça e o "glamour" de ser funcionária da UE - Ir à Ópera ao "Palais des Beaux Arts", passar fins-de-semana em Paris e Budapeste, limpar-me da "chunguisse, atraso e ignorância Tuga" que os anormais de muitos adultos diziam ser real, casar com um Belga, Francês ou Alemão e assim ter um marido que fizesse metade da lida da casa (sim, filha, fia-te na história da carochinha, fia-te ...), ter uma reforma choruda, cinco semanas de férias anuais a torrar o cu nalgum "Club Med" à volta do mundo ou a contratar nativos para carregar a mimha tralha em "eco-aventuras", viver num país onde as coisas "funcionassem", fossem "ordenadas" e houvesse "disciplina e transparência".

Tomei a pílula vermelha do Matrix quando a própria UE me mandou numa missão de dois anos para a Delegação no Brasil. Aí dei-me conta da treta em que me tinha metido e descobri os vastos horizontes que a cultura Lusófona nos oferece. Também me dei conta que tudo aquilo que descrevi no parágrafo anterior era um preço demasiado baixo em troco da minha criatividade e liberdade. Se passasse o resto da vida a arquivar papeis e a ser mais um elo de uma cadeia burocrática acabaria por dar em xoné mais cedo ou mais tarde.

Quando voltei a Bruxelas entrei em depressão: Depois de dois anos a curtir o caldeirão de culturas que é o Brasil, a viver em profunda comunhão com a Natureza e o Cosmos, a ter experiências místicas de vários tipos, a estudar xamanismos e espiritualismos de várias espécies, a viver cada momento como se este tivesse sido extraído de algum romance de realismo fantástico, o dia-a-dia dos funcionários da UE e dos círculos concêntricos de advogados e lobbyistas que rodeiam as instituições comunitárias pareceu-me de um aborrecimento descomunal. Os meus amigos, que entretanto tinham acabado os mestrados e começado a trabalhar, a se orgulharem imenso por passarem das 9 às 23h todos os dias no seu escritório de advogados, achando isso o cúmulo do sucesso, todas aquelas senhoras e aqueles senhores muito cinzentinhos, muito aprumadinhos e comportadinhos, muito recalcadinhos, muito o orgulhozinho da sua mamã cujo filhinho ou filhinha ganha tanto dinheiro e trabalha para uma institutição tão importante, com autênticos vulcões de energias não vividas a revolver-lhes as entranhas ...

Bem, o resto da história já tu sabes: mandei tudo às urtigas e vim para os "states", onde me pagam para fazer a pesquisa que eu quero - formas de desenvolvimento guiadas pela vontade e iniciativa dos povos, não das organizações internacionais - e passar parte do ano no Brasil, que é o meu vício, a minha droga, o meu amante.

Ah, ter o melhor e o pior da Humanidade alí escrachado à frente dos nossos olhos, no seu tenebroso esplendor ...

O cheiro a sangue, a esperma, a mijo, a dendê, ao mar, a floresta, a feijoada, os sons inebriantes da guitarra e da bateria ...

O sentir-me fera cada vez que me preparo para sair de casa e subir o morro - sapatos de sola de borracha para poder correr na eventualidade de ser apanhada no meio de algum tiroteio, as chaves, a carteira e os documentos escondidos no local certo, os cinco sentidos no alerta máximo, o ler as entrelinhas de cada ser humano que se cruza comigo, a intuição mais afinada do que nunca, o sentir que me crescem olhos na nuca e que Deus e o Diabo se abraçam na minha mente ...

Faltam poucas semanas para lá voltar, desta vez por um ano ..."


Resposta ao Paulo Borges

É mesmo verdade: Tudo nos beija e abraça mas nós, na nossa visão e sentir limitados, recusamos todo o Amor que o Universo nos dá. Com muita frequência, aprendemos cedo demais a não gostarmos de nós mesmo, a imaginarmo-nos “menos que” e por isso obrigados a mostrarmos que somos “tanto quanto” para nos sentirmos merecedores de viver.

Á custa do desamor de nós mesmos e das desilusões com a vida que tal desamor propicia, aprendemos a rejeitar, por vezes de forma violenta, todos os “mimos” que o Universo nos oferece, pois no fundo de nós mesmos temos medo de que sejam condicionais, que tragam consigo a expectativa de que nós tenhamos de provar que somos “tanto quanto”, ou então que nos sejam tirados da mesma forma inesperada e incontrolável como nos foram oferecidos.
Por isso, com muita frequência preferimos nos acomodar a um cinzentismo sem grandes sobressaltos do sentir do que correr o risco de entrar na montanha russa que é a aceitação dos “mimos” que o universe nos oferece.

Digo isso pois eu própria padeço (e quanto) desse pecado. Que vocês e o Universo inteiro me perdoem.

“Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procure.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esta da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.”

Hilda Hilst (Do Desejo, 1992)

A Criança Mística


[Olhar analogicamente, como faz a criança, é viver em estado continuado de mística relação com o mundo …A criança não tem crenças: descobre presenças e pertenças]

I e D, junto ao Mar, esperando a última onda e o nascimento de Margarida descobrem que será urgente ensinar-lhe, primeiro pela formação da impressão no olhar, depois pela palavra e pelo silêncio, como é que o Mar fala com o Céu. O que se aproxima do Mar pode conseguir chegar ao Céu. Porque o que quer que seja que se possa dizer sobre um e sobre outro, é pouco mais do que a relação entre silêncio e linguagem e é preciso que se aprenda essa relação ainda antes de aprender a Língua, uma Língua. A relação entre silêncio e linguagem só pode ser clarificada à luz da relação e da experiência que o verdadeiro religioso, o verdadeiro contemplador, sente quando, no silêncio, pressente a mudez de Deus e torrentes refluxivas de palavra o convocam para a profecia inaudita da sua existência. Só o religioso, só o contemplador pode, pelo pensamento analógico mais do que lógico ou judicativo, descobrir na expressão e na comunicação entre o Mar e o Céu, a via para a sua particular e universal comunicação com o Ilimitado. E também entre os outros elementos da natureza: o olhar religioso – todo o contemplativo é religioso – conhece afinidades que o estudioso das morfologias não desoculta. O religioso pensa que o Mar fala para e com o Céu, na medida em que o que é numinoso reconhece o que é numinoso e que entre um e outro há agentes do Silêncio. A relação meramente morfológica das coisas esconde a relação criacional ou sequencial com que o Sem Nome ditou o aparecimento das mesmas. Olharão, como repetirão com ela, nas horas que precedem a dor – essas são de impossível leitura, as páginas da Vida tingem-se de uma cor ilegível para o olhar e são impermeáveis aos fluxos do coração – a frequência das ondas e a formação das nuvens. A formação das ondas e a destruição das nuvens. Seguirão o rastro do pintor e do músico que, escondido, compõe o efémero e, todavia, irreproduzível e inimitável pelo artista humano. Deixaremos, concordam, que aprenda, antes do caderno dos desenhos, o quanto é tudo possível antes da imaginação humana. Demoraremos, pensam, as horas que a Necessidade demorar para preencher os seus sentidos internos e externos com as paisagens visíveis e invisíveis. I e D acreditam que Margarida se concentrará no diálogo, com tradutor, entre a cor do Mar e do Céu, e decifrará a relação entre a pontuação dos sons exclamativos do Mar e os reticentes e interrogativos do Céu, para então, depois da lenta iniciação aos movimentos e aos sons da Natureza, do olhar e só depois de escutar, aprender a ler.
Talvez um dia, pensam com aquela parte da alma em que florescem desejos que são meras aspirações à Beleza, ela perceba que o Mar é tão numinoso quanto o Céu, que na espuma do Mar, nas ondas que se revoltam em confusão de branco e água em agitada convulsão, há uma espécie de vento falante, inquietante, lamuriante, proveniente do Céu mas que também contém a oração dos aflitos. Desejam, também, que ela não tema orá-la nem tema senti-la. Se ofereça aos dias e às horas da Vida em que se forma no humano a Grande Aflição. Nesses dias, como nas paisagens afins às de Mar e Céu, Homem e Sofrimento, a onda ergue a sua água esbranquiçada e revolta e, acima do audível do Mar, como a mão do aflito que acima do rosto reza, implora, entregando a aflição às agentes silenciosas do Céu, nesses dias, em que o Mar submerge as preces excessivas e incontivéis da linguagem humana e as eleva ao Céu, Margarida entenda que há seres criados que desfazem o enigma do nó pré-lógico dos soluços e dos suspiros. Que entenda que essa decifração do som da dor, não o podendo fazer o Mar sozinho, o faz invocando as agentes do Silêncio. As gaivotas. As gaivotas chegando de zonas inomeáveis e antiquíssimas, do branco com que o Tempo veste o que é de outrora, e regressando indistintamente ao Mar e ao Céu, do Mar e do Céu num grande bailado orquestrado pelos acordes da alma lacrimosa, essas agentes de asas muito brancas, pintadas aqui e ali de uma cor indefinida como a dor, entregam traduzido o indiscernível que a linguagem humana emite em tom plangente à linguagem divina igualmente plangente ao que é o Silêncio, ao que é Sem Nome. E, se um dia Margarida perguntar como se traduz o inumano da linguagem na linguagem sem nomes do Sem Nome, I e D, pensam responder-lhe o que por ora sabem: as agentes do Silêncio, inversamente aos homens que são agentes do ruído, sabem a Língua única que a tudo une.
Neste momento da sua espera em frente ao Mar e ao Céu, I e D lembram-se de uma frase velha de Agostinho, rezar é chorar, as confissões são um livro de lágrimas. I e D sabem que não têm uma forma comum de rezar nem de chorar. Mas que esta espera é uma confissão: sentem que é possível a explicação dos pássaros. Prometem explicar à Margarida os pássaros, os agentes do Silêncio, as agentes eleitas do Mar e do Céu. Pensam, com o coração enternecido, que Margarida receberá deles uma verdade invisível aos olhos. Pensam que em cada dia é urgente descobrir uma verdade sem contornos lógicos, para além da crença, para educar uma criança, visto que Margarida, apesar de tudo, vai ser humana. Margarida deverá ser ensinada a olhar a Natureza, anterior à sua espécie, mas mais próxima do grande Mito. Explicar-lhe-ão, visto que foi gerada no Mar, as gaivotas. Com efeito, quando sobre ela, como sobre todos os humanos caírem os dias aMARgos e, dias naturais sem palavras lhe secarem a água viva da voz, sem viva voz chorar e desejar comunicar, I e D esperarão que ela consiga a proximidade com as que no Silêncio agem e entregam ao grande Descodificador da dor o seu incomunicável sentir. Explicar-lhe-ão, nos dias de aprendizagem dessa aproximação, a importância de ver as Ideias sem as palavras e da propedêutica dessa aprendizagem na especial contemplação das gaivotas. No seu bailado. É preciso que aprenda que não devemos dizer senão o que ocupa primeiro um espaço rítmico na alma, depois que não devemos lamentar senão o que for incomunicável quer ao humano quer ao divino. Gostariam, pensam, na contemplação da espera, que a Margarida se sentisse uma flor do Mar, margarida, do jardim submerso do Mar. Gostariam, desejam na contemplação de um sonho, que a Margarida aprenda a cantar com os pássaros e com eles a tarefa mais difícil do tradutor, escutar nas diferenças a unidade, o mesmo. Gostariam, sem porquê, na contemplação do mundo que esta criança por vir não tema brincar às escondidas com o Sem Nome e o procure seguindo as pistas dos pássaros ou das agentes do Silêncio.
Nesta fase I e D terão de acompanhar a contemplação das gaivotas com as narrativas bíblicas e do arcaico livro sumério de Gilgamesh em que se diz que o único homem imortal recolhia todos os bichos que mereciam ser salvos do ruído.
Margarida perguntará o que é o ruído. Por nunca o ter ouvido no vente, nas paisagens. Responder-lhe-ão que o “ruído” é a maior distância possível a Deus, a incalculável distância ao divino. Margarida não perguntará quem é Deus. As crianças conhecem bem não só essa distância dos adultos ao Sem Nome, como intuitivamente sabem todos os caminhos para encontrá-Lo(s) e assim desfazerem a distância. Estar directa e imediatamente com Ele. Sendo que as crianças são místicas criaturas entre as criaturas e procuram Deus no Universo com mais atenção do que os adultos a pérola na ostra. Então, talvez Margarida conclua:
- As ondas são as mãos do mar.
É possível que lhe respondam:
- Com efeito, filha, na espuma do mar, no marulhar das ondas que se revoltam ou somente se voltam para nós, há uma espécie de vento falante, inquietante, lamuriante, que torna as ondas as mãos do crente numa oração de aflitos. A onda ergue a sua água espumosa e revolta acima do nível do mar como a mão acima do rosto que reza, que implora. Agostinho disse que rezar é chorar.
Margarida poderá dizer:
- Das ondas saltam lágrimas grossas, como nos homens muito felizes ou muito tristes. Mãe, pai, mas e as gaivotas? - perguntarão em coro.
- Há sempre gaivotas quando o mar chora…Mãe, as gaivotas podem ser os anjos? Atrás dos homens que sofrem não estão anjos invisíveis? Não tendo corpo, os anjos não podem escolher todos os corpos permeáveis ao Bem e à anunciação? O Mar numinoso, sagrado, perigoso tem mais gaivotas a acompanhá-lo do que todas as paisagens da Terra. Deus confessa-se às gaivotas. Por meio delas lembra-lhes que há inumano na linguagem…
[Provavelmente I e D entreolhar-se-ão] Ela continuará na inesgotável via das analogias. - As penas dos anjos são as penas dos homens. Não haveria anjos se não houvesse homens que sofrem. Nesse sentido, I e D responderão com assentimento feliz:
- Sim Margarida. As gaivotas são como corpos de anjos. Essas são as criaturas que substituem a voz directa de Deus no Paraíso. Mas os homens não escutam as penas do mundo. São indiferentes às gaivotas.
Inquieta com a observação perguntará:
- Mas no Paraíso não haveria Mar, nem gaivotas?! O Paraíso era um jardim com duas árvores ancestrais…como pode o Mar ser Deus e Deus escutar o que provém do Mar?
- Margarida – dirão I e D – depois de Deus ter atravessado desertos, ter enviado os profetas, dos profetas terem regressado sem cabeça, como João, de ter escutado o lamento de Job, Deus chorou. O Jardim do Paraíso está submerso no Mar. No céu Deus terá chorado, criado, sem a tarefa nomeadora de Adão, o Mar. Mas o Homem não lhe aprendeu o som, nem visitou o seu Jardim.
Compreendendo que Deus tem muitas razões para chorar de infelicidade, porque os homens são criaturas impacientes e desligadas do seu fundo, de tudo o que é fundo, Margarida percebeu como as gaivotas mais não são do que anjos e as agentes privilegiadas do Silêncio. Os anjos posteriores ao desgosto de Deus perante a humanidade. As Gaivotas terão vindo depois das lágrimas incontidas de Deus ou do Sem Nome.

- Mãe – indagou desfeita em lágrimas – por que contemplam e rezam tão pouco os homens?
- Pouco…como pouco? – perguntará a mãe.
- Olho o Mar mãe, olho sempre o Mar, e o jardim não se vê. Os anjos não param de esvoaçar, mas nenhum Homem lhes entrega nada para além da sua desatenção…
- Vêem-nas mãe?
Não sabendo que responder, mas tendo percebido, I e D, que Margarida sabia olhar, tomaram-na nua nos braços e contaram-lhe a canção da justiça de Rilke. Para que as analogias fossem a sua esplendorosa e ilimitada forma de olhar. Que fosse sempre o olhar a guiar a pergunta, para não se fechar nela e descobrir mais horizontes do que caminhos.

Para a Inês, a Mariana, o Fábio que regressam hoje da neve, do jardim branco em que brincaram com o Anjo da História e encontraram vestígios do mundo intacto e também para o Obscuro, que sendo da luz, prefere aparecer à noite. Mas para nós, que não somos estudiosos das ciências, também a neve branca do que escreve, mesmo sendo escura no abscôndito da noite negra, é clar(o/i)vidente e alva como ao alvor. Para o João, para quem nunca preparei uma aula de Filosofia da linguagem a partir de Benjamin, e a quem devo o raio do sol abrasador com que acende luz na minha esperança apagada. E, porque gostaria que escrever fosse, como pensar, uma forma de agradecer e agradecer procurar os frutos desconhecidos para entregar aos que semeiam no nosso espírito desejos de pensamentos raros, que a esses este texto também chegue. Esse, ou esses, não tendo nome sentem que estão no âmago desta dedicatória. Entre eles também os que ainda não nasceram e são esperados ou são ou estão encobertos mas ajudam a pensar.