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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
"A criatura não é nada e crê-se tudo. Ela deve nada se crer para ser tudo"
- Simone Weil, Cahier VI, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1999, p.848.
sábado, 7 de novembro de 2009
A Pintura é um olho cego que continua a ver, que vê o que o cega

Bram Van Velde, Sans titre, 1936/1941
Guache sobre cartão, 125,8 x 75,8 cm
Doação de Samuel Beckett, 1982
Centro Georges Pompidou
(imagem do Google)
Pintar é acercar-se do nada. Pinto a impossibilidade de pintar. [...] o importante é não ser nada[...]. A Pintura é um olho cego que continua a ver, que vê o que o cega [...]. Para ser autêntico é necessário submergir-se, tocar o fundo [...]. Dizer o nada [...]. Não ser nada, simplesmente nada [...]. A arte é um esforço para o impossível, o desconhecido [...]. É necessário tratar de ver onde ver já não é possível ou onde já não há visibilidade [...]. Não assino as minhas telas. Não se pode pôr um nome no que ultrapassa o indivíduo [...]. Para chegar a certo algo, é necessário não ser nada [...]. Importa avançar sem saber nada, inclusive sem saber aonde se vai [...]. Tal é o que me permite fazer visível o invisível [...]. A pintura é o abismar-se, a imersão [...]. Quanto mais se está perdido, mais se é empurrado para a raiz, a profundidade [...]. O que sai de mim é sempre desconhecido. Tal é a razão de viver neste perpétuo assombro [...]. É terrivelmente difícil aproximar-se do nada.
- Charles Juliet, Rencontres avec Bram van Velde, Fata Morgana, 1978.
domingo, 16 de agosto de 2009
Objectivos pessoais 2009/10
- Tirar a especialização em Filosofia e Estudos Orientais;
- Meditar e fazer retiros de meditação;
- Catequese e (possivelmente) Baptismo;
- Possivelmente participar num grupo de Estudos Bíblicos;
- Deixar de fumar (hoje, quando acabar este maço);
- Não consumir qualquer tipo de drogas;
- Tornar-me vegetariano;
- Comprar o mínimo possível.
- Meditar e fazer retiros de meditação;
- Catequese e (possivelmente) Baptismo;
- Possivelmente participar num grupo de Estudos Bíblicos;
- Deixar de fumar (hoje, quando acabar este maço);
- Não consumir qualquer tipo de drogas;
- Tornar-me vegetariano;
- Comprar o mínimo possível.
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quarta-feira, 22 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Mãos
Ânfora, vaso, cálice… O que quer que fosse, quebrou-se, em milhares de pequenos pedaços pontiagudos, como ínfimos diamantes distorcidos por forças inconcebíveis, mais o pó entre eles. Olho agora para as mãos vazias, espantada, sem saber como escorregou. Escorregou. Olho-os, como pequenas lágrimas desfeitas, e o pior nem é o pó entre eles, irrecuperável, é a água e a luz que continham. Perdidas. Ajoelho-me no chão e seguro pedaços do delicado invólucro na mão direita, enquanto com o dedo indicador da mão esquerda desenho pequenas serpentes no pó. Uma nuvem brilhante ergue-se do solo e desvanece-se no ar. A perda é tão imensa, tão infinitamente inalcançável pela mente, tão muda, que nada sinto. Ânfora, vaso ou cálice? Até a forma vai desaparecendo na memória e depois os cacos desfazem-se em pó, e mais pó e mais serpentes entre o pó e depois as serpentes tornam-se cada vez mais finas, como fios de seda e desaparecem, pois já nem o pó ali está. Ficam as mãos vazias. Olho-as de novo, tão pequenas, as minhas mãos, os dedos pontiagudos. Tão pequenas. O que posso segurar com elas? Olho em volta. Nada. Ergo-me e olho mais longe. Nada, nada, nada. Não há nada neste mundo que eu possa ou queira segurar. Só esta ideia, que não devia ter deixado cair… o quê? Olho agora para o mundo inteiro, vejo tudo, o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, é enorme o mundo e tudo nele tão grande, para dentro e para fora, sem fim, fractal, fracturado. Não quero nada deste mundo.Só queria o que continha o... cálice? Escorregou. A perda é muda. Regresso então às minhas mãos, com uma agarro a outra e sorrio. Entre elas surge de novo água e luz. Mergulho inteira nas minhas mãos e crio um novo mundo. Fractal, intacto.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Ainda Agostinho da Silva: da explosão do nada em tudo (aperitivo para o Colóquio de amanhã, 3 de Abril, no Anf. I da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa
[…]
6. Parece-me, por outro lado, que se não pode construir nenhuma filosofia geral ou metafísica sem admitir, com o velho Espinosa, que se tem de partir da ideia de alguma coisa que é constituinte de tudo, mas da qual se não pode dizer, como ele, que é substância, porquanto excluiríamos o insubstante, nem que é deus, porque excluiríamos tudo a que não chamamos deus, nem sequer que existe fora do pensamento, porque estaríamos excluindo o que não existe; de resto, basta pensar esse alguma coisa como pensável para já excluirmos o que não pensamos.
7. Penso assim que esse alguma coisa é nada, só sendo alguma coisa quando todas as coisas existem e o fazem pensar como A Coisa. Logo que isso se dá, existe o a que chamamos o Universo, como suas imutáveis leis, imutáveis naquele Universo, portanto sob o domínio do que se chama determinismo no mundo material e destino no mundo humano.
8. Creio que esse explodir do Nada em Tudo não se deu de uma vez para sempre no mundo, mas se está dando a cada momento, sendo pura ilusão nossa a ideia de sua continuidade: cada ocultação do determinismo detectada pela ciência, cujo progresso não vejo como ilimitado, como não vejo o da Humanidade — o passo final será o salto do determinismo para a liberdade —, significa a passagem de um mundo a outro (a paleontologia estratigráfica pode não ser o fruto de uma evolução, mas o testemunho dos saltos de um mundo a outro).
9. Cada mundo criado tem leis fixas, e destinos humanos; cada intervalo significa a liberdade de aparecer outro mundo com diferentes relacionamentos legais.
10. Entrarei agora em linha de conta que aquilo a que chamo mundo é, na realidade, a ideia que eu tenho do mundo: outro ser completamente diferente teria dele um conceito completamente diferente.
11. Portanto, para que surja um mundo diferente do actual, basta que eu mude, que me insira naquele momento em que o alguma coisa se recolhe ao nada, o que só pode ser preparado e propiciado por um comportamento dentro do mundo que existe, mas o mais diferente possível dos comportamentos normais, o que é o conceito fonte das várias asceses de tantas culturas e o conceito fonte daquilo que nos Evangelhos cristãos vem designado por metanóia ou, calculo, o samadhi de Oriente.
12. A responsabilidade do mundo, tal qual ele é, está, por conseguinte, em mim e não nos outros — pessoas ou estruturas — e em mim, se o momento é certo, se estou eu certo, se procedo certo (tal como os alquimistas o julgavam para a limitada operação de transmutar matéria, se não para a mais vasta de transmutar a vida), reside o poder de modificar o mundo, de o fazer nascer outro.
13. Deixando de ter vontade própria — caso contrário não se atingiria o nada que pode ser tudo —, só posso contribuir para que surja um mundo que agrade aos outros, isto é, àqueles que mostram real impulso de não serem o que são, impulso real e válido dentro do que eu próprio penso estar certo — porquanto, até o último momento, é no universo que existe que estou agindo, a todos parecendo o novo que surgir como a consequência lógica das circunstâncias do anterior, o que ainda pode dar a vantagem de se poder conservar anonimato próprio”
– “Até o primeiro quartel do século XX…” [Fevereiro de 1976], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp.306-307.
6. Parece-me, por outro lado, que se não pode construir nenhuma filosofia geral ou metafísica sem admitir, com o velho Espinosa, que se tem de partir da ideia de alguma coisa que é constituinte de tudo, mas da qual se não pode dizer, como ele, que é substância, porquanto excluiríamos o insubstante, nem que é deus, porque excluiríamos tudo a que não chamamos deus, nem sequer que existe fora do pensamento, porque estaríamos excluindo o que não existe; de resto, basta pensar esse alguma coisa como pensável para já excluirmos o que não pensamos.
7. Penso assim que esse alguma coisa é nada, só sendo alguma coisa quando todas as coisas existem e o fazem pensar como A Coisa. Logo que isso se dá, existe o a que chamamos o Universo, como suas imutáveis leis, imutáveis naquele Universo, portanto sob o domínio do que se chama determinismo no mundo material e destino no mundo humano.
8. Creio que esse explodir do Nada em Tudo não se deu de uma vez para sempre no mundo, mas se está dando a cada momento, sendo pura ilusão nossa a ideia de sua continuidade: cada ocultação do determinismo detectada pela ciência, cujo progresso não vejo como ilimitado, como não vejo o da Humanidade — o passo final será o salto do determinismo para a liberdade —, significa a passagem de um mundo a outro (a paleontologia estratigráfica pode não ser o fruto de uma evolução, mas o testemunho dos saltos de um mundo a outro).
9. Cada mundo criado tem leis fixas, e destinos humanos; cada intervalo significa a liberdade de aparecer outro mundo com diferentes relacionamentos legais.
10. Entrarei agora em linha de conta que aquilo a que chamo mundo é, na realidade, a ideia que eu tenho do mundo: outro ser completamente diferente teria dele um conceito completamente diferente.
11. Portanto, para que surja um mundo diferente do actual, basta que eu mude, que me insira naquele momento em que o alguma coisa se recolhe ao nada, o que só pode ser preparado e propiciado por um comportamento dentro do mundo que existe, mas o mais diferente possível dos comportamentos normais, o que é o conceito fonte das várias asceses de tantas culturas e o conceito fonte daquilo que nos Evangelhos cristãos vem designado por metanóia ou, calculo, o samadhi de Oriente.
12. A responsabilidade do mundo, tal qual ele é, está, por conseguinte, em mim e não nos outros — pessoas ou estruturas — e em mim, se o momento é certo, se estou eu certo, se procedo certo (tal como os alquimistas o julgavam para a limitada operação de transmutar matéria, se não para a mais vasta de transmutar a vida), reside o poder de modificar o mundo, de o fazer nascer outro.
13. Deixando de ter vontade própria — caso contrário não se atingiria o nada que pode ser tudo —, só posso contribuir para que surja um mundo que agrade aos outros, isto é, àqueles que mostram real impulso de não serem o que são, impulso real e válido dentro do que eu próprio penso estar certo — porquanto, até o último momento, é no universo que existe que estou agindo, a todos parecendo o novo que surgir como a consequência lógica das circunstâncias do anterior, o que ainda pode dar a vantagem de se poder conservar anonimato próprio”
– “Até o primeiro quartel do século XX…” [Fevereiro de 1976], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp.306-307.
quinta-feira, 19 de março de 2009
A Pessoa
Não, sou nada, sempre serei nada
e apesar disso sou um exilado da terra e do mar
sem falar do céu, com pés inchados.
Não falo nenhuma língua e não tenho nenhuma língua
somente um músculo sangrento e inchado
tanto de tentar falar e chupar a essência das coisas
todas perdidas como eu no espaço e no tempo
e no espaço do tempo que chamamos a vida.
Não, não falo nenhuma língua suficiente
pois sou incapaz de natureza e cheio do orgulho amargo
das minhas próteses e não falo a língua do ódio
pois a minha raiva é uma onda sem espuma
que não quebra as rochas da terra … Ai! Ai! Ai!
Veja as ondas do mar serena, raiva imortal da água e da lua.
Não, sou nada, nem um grau de areia
pedra incluído no ciclo eterno e esplendoroso das coisas
sou nada pois não sou nem coisa nem espectro
sou exilado como o vento mas somente no vento
uma pluma preta com a cor do asfalto e com o cheiro do alheio
do estrangeiro inimigo dos costumes quotidianos
que causa o medo nas ruas escuras das cidades
angustia tenho também, neste caminho sem fim.
Não, sou nada e não tenho nada
pois tudo é dono de mim, sou escravo da minha liberdade
e prisioneiro de uma ética duvidosa da verdade fugitiva
da tolerância cheia de crueldade com dentes e olhos
com palavras antropófagos e corpos carnívoros
com o fome das almas que se escondem e que se recusam
para o canto mais distante da larva mortal.
Palavras e palavrões destinados para confundir os povos
para sempre, para poder sobreviver como parasitas
para se multiplicar nas bocas humanas com mal cheiros.
Não, sou nada e apesar disso não falo nenhuma língua
pois as línguas falarão de me e me falam e me abrasam
não falo a língua do amor mas a minha carência de querer amor
é como um remoinho, um buraco preto, um querer que destrua tudo
o próprio ser e tudo que é e que quer ser, mesmo aqui e agora mesmo.
Não, sou nada e o nada que sou é como o nada
e o que eu sou, sendo nada, sou eu mesmo…Ai! Ai! Ai!
Lisboa 22.01.09
e apesar disso sou um exilado da terra e do mar
sem falar do céu, com pés inchados.
Não falo nenhuma língua e não tenho nenhuma língua
somente um músculo sangrento e inchado
tanto de tentar falar e chupar a essência das coisas
todas perdidas como eu no espaço e no tempo
e no espaço do tempo que chamamos a vida.
Não, não falo nenhuma língua suficiente
pois sou incapaz de natureza e cheio do orgulho amargo
das minhas próteses e não falo a língua do ódio
pois a minha raiva é uma onda sem espuma
que não quebra as rochas da terra … Ai! Ai! Ai!
Veja as ondas do mar serena, raiva imortal da água e da lua.
Não, sou nada, nem um grau de areia
pedra incluído no ciclo eterno e esplendoroso das coisas
sou nada pois não sou nem coisa nem espectro
sou exilado como o vento mas somente no vento
uma pluma preta com a cor do asfalto e com o cheiro do alheio
do estrangeiro inimigo dos costumes quotidianos
que causa o medo nas ruas escuras das cidades
angustia tenho também, neste caminho sem fim.
Não, sou nada e não tenho nada
pois tudo é dono de mim, sou escravo da minha liberdade
e prisioneiro de uma ética duvidosa da verdade fugitiva
da tolerância cheia de crueldade com dentes e olhos
com palavras antropófagos e corpos carnívoros
com o fome das almas que se escondem e que se recusam
para o canto mais distante da larva mortal.
Palavras e palavrões destinados para confundir os povos
para sempre, para poder sobreviver como parasitas
para se multiplicar nas bocas humanas com mal cheiros.
Não, sou nada e apesar disso não falo nenhuma língua
pois as línguas falarão de me e me falam e me abrasam
não falo a língua do amor mas a minha carência de querer amor
é como um remoinho, um buraco preto, um querer que destrua tudo
o próprio ser e tudo que é e que quer ser, mesmo aqui e agora mesmo.
Não, sou nada e o nada que sou é como o nada
e o que eu sou, sendo nada, sou eu mesmo…Ai! Ai! Ai!
Lisboa 22.01.09
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Antonio Machado - da "bestia paradojica" e do nada nela
XV
Cantad conmigo en coro: Saber, nada sabemos,
de arcano mar vinimos, a ignota mar iremos …
Y entre los dos misterios está el enigma grave;
tres arcas sierra una desconocida llave.
La luz nada ilumina y el sabio nada enseña.
¿Qué dice la palabra? ¿Qué el agua de la peña?
XVI
El hombre es por natura la bestia paradójica,
un animal absurdo que necesita lógica.
Creó de nada un mundo y, su obra terminada,
“Ya estoy en el secreto – se dijo -, todo es nada.”
Antonio Machado, dos “Proverbios y Cantares”,
(“Poesías Completas”, Espasa-Calpe, Madrid, 1980, pág. 220 e seg.)
Cantad conmigo en coro: Saber, nada sabemos,
de arcano mar vinimos, a ignota mar iremos …
Y entre los dos misterios está el enigma grave;
tres arcas sierra una desconocida llave.
La luz nada ilumina y el sabio nada enseña.
¿Qué dice la palabra? ¿Qué el agua de la peña?
XVI
El hombre es por natura la bestia paradójica,
un animal absurdo que necesita lógica.
Creó de nada un mundo y, su obra terminada,
“Ya estoy en el secreto – se dijo -, todo es nada.”
Antonio Machado, dos “Proverbios y Cantares”,
(“Poesías Completas”, Espasa-Calpe, Madrid, 1980, pág. 220 e seg.)
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sábado, 27 de dezembro de 2008
obrigada

Conhecer-se a si próprio é esquecer-se de si mesmo.
Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo o que existe no mundo.
Dogen (monge budista japonês do séc. XIII)
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domingo, 27 de julho de 2008
sábado, 24 de maio de 2008
"... do Alguma coisa ao Nada"
"Deves amar Deus não intelectualmente (nichtgeistig), é o mesmo que dizer que a tua alma deve ser não intelectual e despojada de toda a intelectualidade, pois, enquanto a tua alma for intelectual (geistformig), tem imagens; enquanto tiver imagens, tem intermediários; enquanto tiver intermediários, não tem unidade nem simplicidade. Enquanto não tiver a simplicidade, jamais verdadeiramente amou Deus, pois o verdadeiro amor reside na simplicidade. É por isso que a tua alma deve ser não intelectual, despojada de toda a intelectualidade, permanecer sem intelecto, pois se tu amas Deus enquanto é Deus, enquanto é intelecto, enquanto é Pessoa, enquanto é imagem, tudo isso deve desaparecer. - Como devo então amá-lo ? - Deves amá-lo enquanto é um Não-Deus, um Não-Intelecto, uma Não-Pessoa, um Não-separado de toda a dualidade. E neste Uno devemos eternamente nos abismar: do Alguma coisa ao Nada" - Mestre Eckhart, Sermão 83.
terça-feira, 22 de abril de 2008
nada sobre o nada
sobre o nada não esquece a dor
da mente na barca do ser
a arca danada no cabo bojador
no mar tinha visto o ser se perder
o ente, o ser e todos o seres
gente talvez, pessoas se queres
nadando no mar tão salgado
cercado de nada, nada de algo
mais profundo do que o pensar
digerindo o tudo que nada aqui
no ar tinha visto gaivotas - aí!
...que vivem na vida só para voar
da mente na barca do ser
a arca danada no cabo bojador
no mar tinha visto o ser se perder
o ente, o ser e todos o seres
gente talvez, pessoas se queres
nadando no mar tão salgado
cercado de nada, nada de algo
mais profundo do que o pensar
digerindo o tudo que nada aqui
no ar tinha visto gaivotas - aí!
...que vivem na vida só para voar
terça-feira, 15 de abril de 2008
Nada não niilista e vacuidade
"Lo español y el portugués lo expresan admirablemente sin recurrir a la negación dialéctica: Nada no significa "no-Ser" sino ausencia de Ser (no nacido, non-natum, ajata en sánscrito); pero no la ausencia como una privación, como la negación de algo que debiera ser, como un aborto que aún no ha llegado a ser" [...].
La Nada no es el asat (no-Ser) de las filosofías del atman; es más bien la vacuidad de las filosofías del anatman. Esta nada es el meollo de la experiencia mística. Por algo la dimensión mística de la realidad es más connatural al buddhismo que a las filosofías del Ser - sobre todo si este último se identifica con Substancia" - Raimon Pannikar, De la Mística. Experiencia plena de la Vida, Barcelona, Herder, 2005, pp. 143-144.
"Nada", em castelhano e português, procede da expressão latina "nulla res nata" (nenhuma coisa nascida).
La Nada no es el asat (no-Ser) de las filosofías del atman; es más bien la vacuidad de las filosofías del anatman. Esta nada es el meollo de la experiencia mística. Por algo la dimensión mística de la realidad es más connatural al buddhismo que a las filosofías del Ser - sobre todo si este último se identifica con Substancia" - Raimon Pannikar, De la Mística. Experiencia plena de la Vida, Barcelona, Herder, 2005, pp. 143-144.
"Nada", em castelhano e português, procede da expressão latina "nulla res nata" (nenhuma coisa nascida).
Pelo caminho do nada até ao centro do nada
"Por el camino de la nada has de llegarte a perderte en Dios, que es el último grado de la perfección, y [si] así te sabes perder, serás dichosa, te ganarás y te acercarás a hallar. En esta oficina de la nada se fabrica la sencillez, se halla el interior y infuso recogimiento, se alcanza la quietud y se limpia el corazón de todo género de imperfección. Oh, qué tesoro descubrirás si haces en la nada su morada ! Y si te entras en el centro da la nada, en nada te mezclarás por afuera (escalón en donde tropiezam infinitas almas), sino solamente en aquello que por oficio te toca" - Miguel de Molinos, Guía Espiritual, XX, 191.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Tudo isto é lindo
Não procuro o incriado, o tal nada diferente de coisa nenhuma, por oposição ao criado. Na verdade, agora que penso, fascina-me mais o nada que é coisa nenhuma, o inexistente, do que o incriado. Sim, o incriado envolve-me nos mais loucos delírios e iluminações mas, como estou agora, e só como agora estou posso estar, fascina-me absolutamente mais nada que é coisa nenhuma, o inexistente, o que poderia ter existido mas que não chegou a existir. Nas visões que temos, vermos o que não pôde ser visto, porque não chegou a acontecer. Neste sentido, a vida é não só feita de um eterno perder, desde amados a ilusões, mas de um enorme nada, de um não vir a ser. E isso, mais do que entristecer-me, comove-me, porque tem uma beleza e potência tais escondidas, ou mesmo visíveis, que só os poetas podem descrever. Tenho plena consciência de que sou não só fruto do que fui mas, também, e quem sabe se com igual ou maior pujança, do que não fui. Tudo isto é lindo, sentimentos (tristezas, alegrias), inexprimibilidades (perdoem-me a palavra horrenda). Mas quem sou eu para afirmar tanto? Um em seis biliões, uma cosmovisão. Paz.
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Da natureza primordial
1. A natureza primordial de todas as coisas é desprovida de qualquer característica, incluindo a de ser a natureza primordial de todas as coisas e desprovida de qualquer característica. É alheia a todos os conceitos, imagens e palavras, incluindo o ser-lhes alheia. Não há discurso ou símbolo que a possa verdadeiramente formular, podendo apenas sugeri-la, tanto menos impropriamente quanto mais os conceitos, imagens e palavras respeitem essa irrelação e se assumam e exerçam no limite que apela a sua conversão em limiar da sua própria recriação, suspensão e transcensão na experiência inefável que, com a profunda transformação que opera, é a única garantia da sua mesma autenticidade. Isto aplica-se antes de mais a este texto, que é insistente e urgente convite ao seu total esquecimento na experiência para que aponta.
2. Nos limites do pensamento e do discurso é possível sugerir a natureza primordial de todas as coisas, sem deixar de a trair, como o infinito, um nada-tudo e um nada que se pode relativamente manifestar ou ser percepcionado de todos os modos e em todas as formas possíveis, nele intemporal e a cada instante claramente presentes. Nos limites da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, pela imagem de um espaço infinito, insubstancial e sem obstáculos, transparente e luminoso, inalterável e inseparável de tudo o que nele ilimitadamente se pode manifestar ou percepcionar. Nos limites do pensamento, do discurso e da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, como um infinito esplendor, um ilimitado nada e tudo poder ser, pura energia informe e insubstancial susceptível de irradiar, assumir e ser experienciada segundo irrestritas modalidades, sempre cambiantes e evanescentes.
3. Supõe a primeira possibilidade a não confusão do nada com o não ser e com a sua interpretação niilista. "Nada", de acordo com a origem etimológica portuguesa e castelhana, do latino “nulla res nata”, assinala o inato, o não nascido, o não originado e não produzido da natureza primeira e última de todas as coisas, bem como a sua não reificação, o não ser “coisa”, e a sua não entificação, o não ser “ente”. Assinala ainda o transcender toda a determinação e manifestação e não lhe convir nenhum dos predicados onto-lógicos possíveis: ser, não ser, ser e não ser, nem ser nem não ser. Em verdade, o nada nem sequer é nada. Assinala-o a palavra portuguesa e castelhana “nonada”, sinónimo da “insignificância” que permite toda a emergência de sentido e significado. "Tudo" indica quer a plenitude em acto disso que é sem determinação, quer a totalidade ilimitada das manifestações possíveis do que, sendo de todas inseparável, não menos a todas, por sua não determinação, engloba e transcende. Este nada não é inerte e estéril, sendo o espaço matricial e fecundo de toda a manifestação, que todavia, sendo dele inseparável, jamais se entifica ou reifica como isto ou aquilo, com características e determinações intrínsecas. A natureza da manifestação é a de meras aparições-aparências que a cada instante evanescem e se libertam de o ser, sem origem, fim ou duração.
4. Sendo a natureza primordial de tudo inacessível a qualquer forma de conhecimento, representação e discurso, é-lhe todavia inerente um saber-sabor de experiência feito. Este saber-sabor-experiência é o estado natural, primordial, comum e espontâneo de todos os seres aparentes, na plena consciência fruitiva da sua natureza autêntica, livres de todos os conceitos e determinações, incluindo os de “serem” e de serem “seres”. Esta consciência fruitiva é sem sujeito, nem objecto, nem características: por isso infinita e inefável, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem entidade nem referência a si ou a outro, sem concepção nem intenção. Sem auto ou hetero-relação, intelectual, reflexiva ou outra, sem identidade-diferença, sem mesmidade-alteridade, não é para si, livre de toda a auto-apreensão e auto-apropriação. A consciência inerente à natureza primordial não é de si como um si ou um ser, como sendo ou não sendo isto ou aquilo. Refractando o seu saber-sabor-experiência pelos limites do pensamento e do discurso, as características menos impróprias para indicar a sua total ausência são vacuidade-plenitude e liberdade-infinidade. Isto não contradiz uma inerente sabedoria experiencial que, sempre que confrontada, como veremos, com qualquer forma de limitação e sofrimento, espontaneamente se manifesta como uma infinita sensibilidade amorosa, compassiva e libertadora.
5. Tu, que escreves e lês, importa que quanto antes o recordes, experiencies e vivencies, “és” em verdade, no mais fundo sem fundo de ti mesmo, e sem qualquer identidade ou diferença, a natureza primordial de tudo e o seu saber-sabor-experiência inerente, isso para além do qual nada mais há, com toda a sua potencialidade sensível, amorosa e compassiva. Sem características, não és tu, porque não és nem não és isto ou aquilo. No mais íntimo de ti, és livre de ti, livre de ser ou não ser e por isso bem-aventurado e infinito. Um não sei quê, insuperável e irredutível, estranho e entranho a tudo, que a todas as coisas abrange e engloba. É nessa imensidão incriada de ti sem ti que tudo acontece e se manifesta: sempre superabunda e nada lhe falta, nem sequer o nada. É essa afinal a verdadeira natureza e excelência de todos os seres, seres aparentes como tu, pois ser é apenas aparecer como tal, numa aparência de determinação sem qualquer essência, substância ou entidade intrínseca.
(Excerto inicial de Da Natureza primordial, da Mundanidade e da Saudade. Teoria e prática de libertação, inédito em fase de conclusão)
2. Nos limites do pensamento e do discurso é possível sugerir a natureza primordial de todas as coisas, sem deixar de a trair, como o infinito, um nada-tudo e um nada que se pode relativamente manifestar ou ser percepcionado de todos os modos e em todas as formas possíveis, nele intemporal e a cada instante claramente presentes. Nos limites da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, pela imagem de um espaço infinito, insubstancial e sem obstáculos, transparente e luminoso, inalterável e inseparável de tudo o que nele ilimitadamente se pode manifestar ou percepcionar. Nos limites do pensamento, do discurso e da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, como um infinito esplendor, um ilimitado nada e tudo poder ser, pura energia informe e insubstancial susceptível de irradiar, assumir e ser experienciada segundo irrestritas modalidades, sempre cambiantes e evanescentes.
3. Supõe a primeira possibilidade a não confusão do nada com o não ser e com a sua interpretação niilista. "Nada", de acordo com a origem etimológica portuguesa e castelhana, do latino “nulla res nata”, assinala o inato, o não nascido, o não originado e não produzido da natureza primeira e última de todas as coisas, bem como a sua não reificação, o não ser “coisa”, e a sua não entificação, o não ser “ente”. Assinala ainda o transcender toda a determinação e manifestação e não lhe convir nenhum dos predicados onto-lógicos possíveis: ser, não ser, ser e não ser, nem ser nem não ser. Em verdade, o nada nem sequer é nada. Assinala-o a palavra portuguesa e castelhana “nonada”, sinónimo da “insignificância” que permite toda a emergência de sentido e significado. "Tudo" indica quer a plenitude em acto disso que é sem determinação, quer a totalidade ilimitada das manifestações possíveis do que, sendo de todas inseparável, não menos a todas, por sua não determinação, engloba e transcende. Este nada não é inerte e estéril, sendo o espaço matricial e fecundo de toda a manifestação, que todavia, sendo dele inseparável, jamais se entifica ou reifica como isto ou aquilo, com características e determinações intrínsecas. A natureza da manifestação é a de meras aparições-aparências que a cada instante evanescem e se libertam de o ser, sem origem, fim ou duração.
4. Sendo a natureza primordial de tudo inacessível a qualquer forma de conhecimento, representação e discurso, é-lhe todavia inerente um saber-sabor de experiência feito. Este saber-sabor-experiência é o estado natural, primordial, comum e espontâneo de todos os seres aparentes, na plena consciência fruitiva da sua natureza autêntica, livres de todos os conceitos e determinações, incluindo os de “serem” e de serem “seres”. Esta consciência fruitiva é sem sujeito, nem objecto, nem características: por isso infinita e inefável, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem entidade nem referência a si ou a outro, sem concepção nem intenção. Sem auto ou hetero-relação, intelectual, reflexiva ou outra, sem identidade-diferença, sem mesmidade-alteridade, não é para si, livre de toda a auto-apreensão e auto-apropriação. A consciência inerente à natureza primordial não é de si como um si ou um ser, como sendo ou não sendo isto ou aquilo. Refractando o seu saber-sabor-experiência pelos limites do pensamento e do discurso, as características menos impróprias para indicar a sua total ausência são vacuidade-plenitude e liberdade-infinidade. Isto não contradiz uma inerente sabedoria experiencial que, sempre que confrontada, como veremos, com qualquer forma de limitação e sofrimento, espontaneamente se manifesta como uma infinita sensibilidade amorosa, compassiva e libertadora.
5. Tu, que escreves e lês, importa que quanto antes o recordes, experiencies e vivencies, “és” em verdade, no mais fundo sem fundo de ti mesmo, e sem qualquer identidade ou diferença, a natureza primordial de tudo e o seu saber-sabor-experiência inerente, isso para além do qual nada mais há, com toda a sua potencialidade sensível, amorosa e compassiva. Sem características, não és tu, porque não és nem não és isto ou aquilo. No mais íntimo de ti, és livre de ti, livre de ser ou não ser e por isso bem-aventurado e infinito. Um não sei quê, insuperável e irredutível, estranho e entranho a tudo, que a todas as coisas abrange e engloba. É nessa imensidão incriada de ti sem ti que tudo acontece e se manifesta: sempre superabunda e nada lhe falta, nem sequer o nada. É essa afinal a verdadeira natureza e excelência de todos os seres, seres aparentes como tu, pois ser é apenas aparecer como tal, numa aparência de determinação sem qualquer essência, substância ou entidade intrínseca.
(Excerto inicial de Da Natureza primordial, da Mundanidade e da Saudade. Teoria e prática de libertação, inédito em fase de conclusão)
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Antologia do Padre António Vieira - I - Teologia e Filosofia
“Deus é Senhor de tudo: mas de que modo ? De tal modo, que para si não quer nada, e tudo o de que é Senhor, é para nós. Antes de Deus criar o mundo, tinha alguma coisa fora de si ? Nada; porque não havia nada. E depois do mundo criado, teve mais alguma coisa de novo ? Para si o mesmo nada que antes; mas para nós e para o homem tudo […]” – Sermões, XIII, p.191.
“[falando do Juízo Final] […] em um momento se abrirão os processos, e ficarão manifestas e patentes as vidas de todos, sem haver obra, palavra, omissão, nem pensamento, por mais secreto e oculto, que ali não seja público; vendo todos as consciências de todos, todos a de cada um, e cada um a sua” – Sermão da Primeira Dominga do Advento [1652], Sermões, I, p.63.
“Todas as grandes mudanças de estados que se vêem e têm visto neste mundo, sempre vário e inconstante, não são outra coisa que um perpétuo jogo do supremo poder que o governa: Ludit in humanis Divina potentia rebus” – Sermões, XIII, p.252.
“Os pensamentos são os primogénitos da alma; sempre se parecem à origem donde nasceram: assim como ninguém é o que cuida de si, assim é certo que cada um é o que cuida dos outros. Há uns pensamentos que nascem pelo que entra pelos sentidos; e há outros que nascem do que se considera com o discurso: os que são filhos dos sentidos, parecem-se com os objectos, os que são filhos do discurso, parecem-se com o sujeito, cada um costuma discorrer como costuma obrar; e o que cuida o que os outros hão-de fazer, é o que ele fizera; as obras e as imaginações dos homens não têm mais diferença que serem umas por dentro, outras por fora; as obras são imaginações por fora, as imaginações são obras por dentro” – Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.214.
“Que mal filosofaram da dor e do amor, os que lhe deram por defensivo a ausência ! Quem armou o amor com arco e não com espada, quis dizer que na distância seria mais; o amor não é união de lugares, senão de corações; a dor na presença reparte-se entre os sentidos, na ausência recebe-se só na alma, e toda é alma; a dor na presença tem o assistir, tem o servir, tem o ver, tem a mesma presença por alívio; a dor na ausência toda é dor” - Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.262.
“Que pouco disse quem chamou ao amor tão forte como a morte: Fortis ut mors dilectio ! A morte sepulta os que matou, o amor sepulta sem matar, que é género de morrer mais forte, mais duro, mais triste” - Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, Sermões, XV, p.329
“Pôs Deus a Adão no Paraíso com obrigação de que o cultivasse e guardasse: […] de quem havia de guardar Adão o Paraíso ? De quem o não guardou. Havia-o de guardar de si mesmo. E porque Adão o não guardou de Adão, sendo os bens que possuía todos os do mundo, ele mesmo, e só ele se despojou de todos, sem haver outro que lhe impedisse o lográ-los” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.69.
“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terá se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70.
“Mais inventaram e fizeram os homens a este mesmo fim de conservar cada um o seu. Inventaram e firmaram leis, levantaram tribunais, constituíram magistrados, deram varas às chamadas justiças, com tanta multidão de ministros maiores e menores, e foi com efeito tão contrário, que em vez de desterrarem os ladrões, os meteram das portas a dentro, e em vez de os extinguirem, os multiplicaram: e os que furtavam com medo e com rebuço, furtam debaixo de provisões, e com imunidade. O solicitador com a diligência, o escrivão com a pena, a testemunha com o juramento, o advogado com a alegação, o julgador com a sentença, e até o beleguim com a chuça, todos foram ordenados para conservarem a cada um no seu, e todos por diferentes modos vivem do vosso” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.71.
“Porque assim como no Sacramento tanto recebe um, como todos, e tanto recebem todos, como cada um; assim na glória tanto logram todos, como cada um, e tanto cada um, como todos. Cá na terra, como há a divisão de meu a teu, cada um logra os seus bens, mas não participa os dos outros: porém no céu os próprios e os dos outros, tanto são comuns de todos, como particulares de cada um, porque lá não tem lugar esta divisão” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.76.
“O céu é uma república imensa, mas onde todos se amam: e está lá a caridade tanto no auge da sua perfeição, que todos, e cada um, amam tanto a qualquer outro, como a si mesmo” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.80.
“De sorte que a cidade da glória no pavimento, nas paredes, e no interior dos aposentos, toda é um espelho de oiro; porque todos perpetuamente se vêem a si mesmos, todos vêem a todos, e todos vêem tudo. Nada se esconde ali; porque lá não há vício, nada se encobre; porque tudo é para ver; nada se recata, ou dificulta; porque tudo agrada; e porque tudo é amor, tudo se comunica.
[…] esta é, senhores, a cidade da glória […]: e basta que fosse assim como se descreve, para ser merecedora das nossas saudades, e que fizéssemos mais do que fazemos, por ir viver nela” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma (1651), Sermões, III, pp.36-37.
“Grande é o ódio que os homens têm à idade em que nasceram. […] Tudo o moderno desprezam, só o antigo veneram e acreditam. Ora desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores” – Sermão de São Pedro [1644], Sermões, VII, p.320.
“Considerai-me o mundo desde seus princípios e vê-lo-eis sempre, como nova figura no teatro, aparecendo e desaparecendo juntamente, porque sempre passando” – Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.104.
“A razão deste curso, ou precipício geral com que tudo passa, não é uma só, senão duas: uma contrária a toda a estabilidade e outra repugnante ao mesmo ser. E quais são ? O tempo, e antes do tempo, o nada. Que coisa mais veloz, mais fugitiva, e mais instável que o tempo ? Tão instável, que nenhum poder, nem ainda o divino, o pode parar. […]
E como o tempo não tem, nem pode ter consistência alguma, e todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo, por isso nem ele, nem elas podem parar um momento, mas com perpétuo moto, e revolução insuperável passar, e ir passando sempre.
A segunda razão ainda é mais natural e mais forte: o nada. Todas as coisas se resolvem naturalmente, e vão buscar com todo o peso, e ímpeto da natureza o princípio donde nasceram. […] Assim todas as coisas deste mundo, por grandes e estáveis que pareçam, tirou-as Deus com o mesmo mundo do não ser ao ser; e como Deus as criou do nada, todas correm precipitadamente, e sem que ninguém lhes possa ter mão, ao mesmo nada de que foram criadas” - Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.113.
“Tu quis es ? Quanto ao espiritual, ninguém há no mundo que possa responder a esta pergunta. Cada um de nós espiritualmente é o que há-de ser; o que há-de ser cada um, ninguém o sabe; e assim não há ninguém que possa responder com certeza à pergunta: Tu quis es ?” - Sermão da Terceira Dominga do Advento, Sermões, I, p.200.
“Este mundo é um teatro, os homens as figuras que nele representam, e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus, traçada e disposta maravilhosamente pelas idades de sua Providência” - Livro Anteprimeiro da História do Futuro, p.110.
“Mais gosto de ver em Roma as ruínas e desenganos do que foi, que a vaidade e variedade do que é, e com isto me parece o mundo muito estreito e a minha cela muito larga […]. Hoje começam as máscaras do Carnaval, em que eu digo as tiram, porque verdadeiramente mostram que não são por dentro o que parecem por fora”- Carta ao marquês de Gouveia [1671], Cartas, II, pp.316-317.
“[falando do Juízo Final] […] em um momento se abrirão os processos, e ficarão manifestas e patentes as vidas de todos, sem haver obra, palavra, omissão, nem pensamento, por mais secreto e oculto, que ali não seja público; vendo todos as consciências de todos, todos a de cada um, e cada um a sua” – Sermão da Primeira Dominga do Advento [1652], Sermões, I, p.63.
“Todas as grandes mudanças de estados que se vêem e têm visto neste mundo, sempre vário e inconstante, não são outra coisa que um perpétuo jogo do supremo poder que o governa: Ludit in humanis Divina potentia rebus” – Sermões, XIII, p.252.
“Os pensamentos são os primogénitos da alma; sempre se parecem à origem donde nasceram: assim como ninguém é o que cuida de si, assim é certo que cada um é o que cuida dos outros. Há uns pensamentos que nascem pelo que entra pelos sentidos; e há outros que nascem do que se considera com o discurso: os que são filhos dos sentidos, parecem-se com os objectos, os que são filhos do discurso, parecem-se com o sujeito, cada um costuma discorrer como costuma obrar; e o que cuida o que os outros hão-de fazer, é o que ele fizera; as obras e as imaginações dos homens não têm mais diferença que serem umas por dentro, outras por fora; as obras são imaginações por fora, as imaginações são obras por dentro” – Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.214.
“Que mal filosofaram da dor e do amor, os que lhe deram por defensivo a ausência ! Quem armou o amor com arco e não com espada, quis dizer que na distância seria mais; o amor não é união de lugares, senão de corações; a dor na presença reparte-se entre os sentidos, na ausência recebe-se só na alma, e toda é alma; a dor na presença tem o assistir, tem o servir, tem o ver, tem a mesma presença por alívio; a dor na ausência toda é dor” - Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.262.
“Que pouco disse quem chamou ao amor tão forte como a morte: Fortis ut mors dilectio ! A morte sepulta os que matou, o amor sepulta sem matar, que é género de morrer mais forte, mais duro, mais triste” - Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, Sermões, XV, p.329
“Pôs Deus a Adão no Paraíso com obrigação de que o cultivasse e guardasse: […] de quem havia de guardar Adão o Paraíso ? De quem o não guardou. Havia-o de guardar de si mesmo. E porque Adão o não guardou de Adão, sendo os bens que possuía todos os do mundo, ele mesmo, e só ele se despojou de todos, sem haver outro que lhe impedisse o lográ-los” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.69.
“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terá se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70.
“Mais inventaram e fizeram os homens a este mesmo fim de conservar cada um o seu. Inventaram e firmaram leis, levantaram tribunais, constituíram magistrados, deram varas às chamadas justiças, com tanta multidão de ministros maiores e menores, e foi com efeito tão contrário, que em vez de desterrarem os ladrões, os meteram das portas a dentro, e em vez de os extinguirem, os multiplicaram: e os que furtavam com medo e com rebuço, furtam debaixo de provisões, e com imunidade. O solicitador com a diligência, o escrivão com a pena, a testemunha com o juramento, o advogado com a alegação, o julgador com a sentença, e até o beleguim com a chuça, todos foram ordenados para conservarem a cada um no seu, e todos por diferentes modos vivem do vosso” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.71.
“Porque assim como no Sacramento tanto recebe um, como todos, e tanto recebem todos, como cada um; assim na glória tanto logram todos, como cada um, e tanto cada um, como todos. Cá na terra, como há a divisão de meu a teu, cada um logra os seus bens, mas não participa os dos outros: porém no céu os próprios e os dos outros, tanto são comuns de todos, como particulares de cada um, porque lá não tem lugar esta divisão” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.76.
“O céu é uma república imensa, mas onde todos se amam: e está lá a caridade tanto no auge da sua perfeição, que todos, e cada um, amam tanto a qualquer outro, como a si mesmo” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.80.
“De sorte que a cidade da glória no pavimento, nas paredes, e no interior dos aposentos, toda é um espelho de oiro; porque todos perpetuamente se vêem a si mesmos, todos vêem a todos, e todos vêem tudo. Nada se esconde ali; porque lá não há vício, nada se encobre; porque tudo é para ver; nada se recata, ou dificulta; porque tudo agrada; e porque tudo é amor, tudo se comunica.
[…] esta é, senhores, a cidade da glória […]: e basta que fosse assim como se descreve, para ser merecedora das nossas saudades, e que fizéssemos mais do que fazemos, por ir viver nela” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma (1651), Sermões, III, pp.36-37.
“Grande é o ódio que os homens têm à idade em que nasceram. […] Tudo o moderno desprezam, só o antigo veneram e acreditam. Ora desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores” – Sermão de São Pedro [1644], Sermões, VII, p.320.
“Considerai-me o mundo desde seus princípios e vê-lo-eis sempre, como nova figura no teatro, aparecendo e desaparecendo juntamente, porque sempre passando” – Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.104.
“A razão deste curso, ou precipício geral com que tudo passa, não é uma só, senão duas: uma contrária a toda a estabilidade e outra repugnante ao mesmo ser. E quais são ? O tempo, e antes do tempo, o nada. Que coisa mais veloz, mais fugitiva, e mais instável que o tempo ? Tão instável, que nenhum poder, nem ainda o divino, o pode parar. […]
E como o tempo não tem, nem pode ter consistência alguma, e todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo, por isso nem ele, nem elas podem parar um momento, mas com perpétuo moto, e revolução insuperável passar, e ir passando sempre.
A segunda razão ainda é mais natural e mais forte: o nada. Todas as coisas se resolvem naturalmente, e vão buscar com todo o peso, e ímpeto da natureza o princípio donde nasceram. […] Assim todas as coisas deste mundo, por grandes e estáveis que pareçam, tirou-as Deus com o mesmo mundo do não ser ao ser; e como Deus as criou do nada, todas correm precipitadamente, e sem que ninguém lhes possa ter mão, ao mesmo nada de que foram criadas” - Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.113.
“Tu quis es ? Quanto ao espiritual, ninguém há no mundo que possa responder a esta pergunta. Cada um de nós espiritualmente é o que há-de ser; o que há-de ser cada um, ninguém o sabe; e assim não há ninguém que possa responder com certeza à pergunta: Tu quis es ?” - Sermão da Terceira Dominga do Advento, Sermões, I, p.200.
“Este mundo é um teatro, os homens as figuras que nele representam, e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus, traçada e disposta maravilhosamente pelas idades de sua Providência” - Livro Anteprimeiro da História do Futuro, p.110.
“Mais gosto de ver em Roma as ruínas e desenganos do que foi, que a vaidade e variedade do que é, e com isto me parece o mundo muito estreito e a minha cela muito larga […]. Hoje começam as máscaras do Carnaval, em que eu digo as tiram, porque verdadeiramente mostram que não são por dentro o que parecem por fora”- Carta ao marquês de Gouveia [1671], Cartas, II, pp.316-317.
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Antologia do Padre António Vieira - I - Espiritualidade
“Cuidamos que o céu onde subiram os santos está muito longe, e enganamo-nos: o céu não está longe, senão muito perto, e mais ainda que perto, porque está dentro de nós, e dentro do que está mais dentro, que é o coração. E que haja almas, e tantas almas, que tendo o céu dentro de si na vida, fiquem fora do céu na morte; e que podendo tão facilmente purificar o coração, e ser santas, só porque não querem, o não sejam ?” - Sermão de Todos os Santos, S, IX, p.68.
“As cadeiras das universidades, ainda que sejam de teologia, de leis, de Cânones, todas são de medicina, porque todas se ordenam à saúde pública. E que seria se os catedráticos da saúde se trocassem em catedráticos da peste: In cathedra pestilentiae ? Pois saibam que tais são os que, tentados da ambição, da lisonja ou do temor, em lugar de desenganarem com a verdade aos príncipes que os consultam, se deixam enganar do seu ou de outros despeitos, e o que eles desejam ou pretendem, isso respondem que é justo. […] E por esta perversão das letras e dos letrados, as mesmas universidades e cadeiras donde havia de manar a saúde pública, vêm a ser o veneno, a ruína e a peste dos reinos: Cathedra pestilentiae” – Sermão de Santa Catarina [1663], S, IX, pp.164-165.
“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p. 278.
“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p.288.
“[…] a oração mental. No meio do ruído da corte, e dos concursos do paço, recolhia-se sua majestade por muitas horas ao seu oratório como a um deserto e ali, levantando o espírito sobre todas as coisas cá de baixo, ouvia da boca de Deus, no silêncio da contemplação, aqueles altíssimos desenganos, e via, no espelho da eternidade, aquelas claríssimas luzes, em que o tudo e o nada são da mesma cor: em que o tudo e o nada têm a mesma conta; em que o tudo e o nada têm o mesmo peso; em que o tudo e o nada têm as mesmas medidas; e por isso nenhuma mudança ou variedade das coisas humanas lhe alteravam o coração, tendo-o sempre unido com a vontade divina. E como nesta união da vontade humana com a divina consiste a suma da santidade, e a santidade suma, […]” – Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, S, XV, p.329
" [...] tudo o que não é ser Santo, é não ser [...]" - Sermoens, IV, p.136.
“As cadeiras das universidades, ainda que sejam de teologia, de leis, de Cânones, todas são de medicina, porque todas se ordenam à saúde pública. E que seria se os catedráticos da saúde se trocassem em catedráticos da peste: In cathedra pestilentiae ? Pois saibam que tais são os que, tentados da ambição, da lisonja ou do temor, em lugar de desenganarem com a verdade aos príncipes que os consultam, se deixam enganar do seu ou de outros despeitos, e o que eles desejam ou pretendem, isso respondem que é justo. […] E por esta perversão das letras e dos letrados, as mesmas universidades e cadeiras donde havia de manar a saúde pública, vêm a ser o veneno, a ruína e a peste dos reinos: Cathedra pestilentiae” – Sermão de Santa Catarina [1663], S, IX, pp.164-165.
“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p. 278.
“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p.288.
“[…] a oração mental. No meio do ruído da corte, e dos concursos do paço, recolhia-se sua majestade por muitas horas ao seu oratório como a um deserto e ali, levantando o espírito sobre todas as coisas cá de baixo, ouvia da boca de Deus, no silêncio da contemplação, aqueles altíssimos desenganos, e via, no espelho da eternidade, aquelas claríssimas luzes, em que o tudo e o nada são da mesma cor: em que o tudo e o nada têm a mesma conta; em que o tudo e o nada têm o mesmo peso; em que o tudo e o nada têm as mesmas medidas; e por isso nenhuma mudança ou variedade das coisas humanas lhe alteravam o coração, tendo-o sempre unido com a vontade divina. E como nesta união da vontade humana com a divina consiste a suma da santidade, e a santidade suma, […]” – Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, S, XV, p.329
" [...] tudo o que não é ser Santo, é não ser [...]" - Sermoens, IV, p.136.
domingo, 6 de janeiro de 2008
Para uma nova teoria da saudade (celebrando o dia de Reis como o da nossa Realeza-Natureza profunda)
[...]14. A soledade (“solitas, atis”), a solidão e o isolamento são a artificial mas necessária condição da subjectividade, que não nasce senão da ilusória conversão do espaço infinito, livre, transparente e bem-aventurado da natureza-experiência primordial num foco de percepção dualista, egocentrada e portanto insatisfatória, sujeito e submisso ao mal-estar do sentimento de separação, solidão e desamparo e ao decorrente e necessariamente frustrado desejo de submeter todos os aparentes obstáculos-objectos externos e internos que dentro e fora de si a sua ignorância, desejo e aversão lhe fazem surgir como distintos, sedutores e repulsivos, o que o arrasta afinal no círculo vicioso da ilusão, escravidão e tormento. Não obstante, permanecendo íntima e atemporalmente vinculada à sua natureza-experiência primordial e profunda, cujo esplendor e fruição em si mesma a cada instante encobre e perde, sentindo-a como uma presença ausente, ou uma ausência presente, como algo abissalmente ou outrora vivido e agora remoto, perdido na lonjura, apenas pressentido ou instantaneamente aparente nos súbitos e curtos intervalos e suspensões da percepção dualista e condicionada, como um relâmpago fulgindo nas espessas e letais trevas da desatenção e do esquecimento quotidianos, a subjectividade não é nem pode ser senão memória e desejo, mais ou menos consciente ou inconsciente, disso, ou seja, desse vivido estado anterior de si, anterior a si, livre de si e de todo o fardo e dor conceptual, emocional e existencial que o si, o sujeito e o eu sempre carregam, tanto mais absurda quanto ilusoriamente: tal um Sísifo que não vê que a pedra e a fatalidade que incessantemente rola e arrasta é tomar-se por real e às suas percepções, com todos os pesadelos desse sonho resultantes, sendo o maior o confundi-lo com o estar desperto, o que verdadeiramente lhe impede o despertar libertador. Ou seja, como eloquente e notavelmente mostra a singular evolução da “solitate” latina na língua galaico-portuguesa, mostrando toda a sua aptidão a ser matriz de uma profunda visão da existência universal, a soledade da subjectividade não pode senão explicitar-se como a saudade que desde início é, com todos os sentidos que se lhe associam, adiante explicitados, e conforme o mostra a sua análise etimológico-filológica .
15. Filha da ilusória flexão e contracção da infinidade, plenitude e bem-aventurança da natureza-experiência primordial na soledade da subjectividade, a saudade é nesta a manifestação veemente, natural e necessária do sentimento de exílio, desintegração, desamparo, incompletude e carência que lhe é inerente enquanto ilusoriamente protagoniza o condicionamento dualista, sub/ob-jectado e espácio-temporal do próprio incondicionado absoluto. O que não o afecta, mas apenas ao sujeito que nele ficticiamente surge. Na verdade, se este saudosamente sente o vago e o não sei quê de uma presença ausente, ou de uma ausência presente, como algo outrora vivido e agora remoto, perdido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente, de que há pressentimento, memória e desejo, o que assim sente é menos intrínseco ao objecto da saudade, que já vimos ser a natureza-experiência primordial - infinita e por isso sempre e a cada instante totalmente e em tudo presente - , do que ao próprio ilusório afastamento e desintegração dela, pelo qual o que não é sujeito nem objecto surge como objecto para um sujeito ou sujeito para um outro sujeito. Na verdade a subjectividade, a soledade e a saudade não resultam, como dissemos, senão da flexão e intelectualização da experiência originária, com o complexo conceptual-emocional daí resultante.
Filha da inalienável e irrecusável plenitude sempre presente e da ilusória diminuição da sua experiência na génese do sujeito e da percepção objectivadora, a saudade é todavia manência nessa plenitude antes de ser memória-desejo dela. Na sua ponta extrema, onde é não sendo, a saudade é manência na saúde (“salus, utis”) e na sanidade (de “sanus”, são, puro) da natureza-experiência primordial, a única sã – ou seja, pura, íntegra, perfeita - , necessária e autêntica. É apenas na medida em que, relativamente, há encobrimento e perda disso que, em absoluto, jamais se pode deixar de ser - pelo afastamento ilusório e mental, isto é, mentiroso, pelo estado alterado de consciência da percepção dualista, pela di-versão e dis-tracção instituidoras do sujeito e do objecto, pela dolência e doença dessa aparente privação do que afinal se é em superabundância - , que se aspira a reintegrar a experiência da manência pela memória e o desejo, eles mesmos antes de mais instâncias de inerência e vínculo e só derivadamente de reversão e regresso a partir de uma suposta distância. Pois esta memória e desejo, que são saudade, são-no de não serem, não manifestando senão a sua pertença a isso que constantemente os antecede, culmina e anula. Memória e desejo, memória-desejo do infinito, a saudade é-o disso onde nunca houve, há ou haverá qualquer memória, desejo e saudade. A saudade é a saúde, integridade e perfeição da natureza-experiência primordial, em toda a sua pujança iluminativa e fruitiva, amorosa e compassiva, a mover a reintegração de todos os sujeitos, humanos e não humanos, no imo de onde ilusoriamente se extraviam as mentes obscurecidas e errantes, envolvidas e arrastadas no fluxo insalubre e aflitivo das percepções, dos pensamentos e das emoções dualistas e assim das preocupações mundanas, enquanto auto-manipuladas pela sua ignorância na sujeição às aparências sedutoras, repulsivas e neutras dos objectos que em função dessa mesma ignorância lhes aparecem. A inquietação saudosa, que é sempre ponto de fuga e ruptura da soledade, pena e penúria da dualidade, reflexividade e discursividade mental, do existir em si recluso, da subjectividade e da mundanidade, promana da necessariamente insatisfatória experiência de si e do mundo por quem continuamente inere ao sempre instante não haver si nem mundo.
Manifestação da saúde e sanidade da natureza-experiência primordial em seu relativo encobrimento e privação, a saudade é, simultaneamente, a sua salvaguarda no domínio da aparente experiência dualista, impedindo que esta plena e verdadeiramente o seja, e a salvaguarda do aparente sujeito desta experiência no domínio daquela sua natureza autêntica, íntegra e sã, impedindo que ele se torne plena e realmente um sujeito isolado, perdido e submetido num mundo de objectos. A saudade é assim potência de salvação e redenção, entendidas como saudação, desejo, dom, reconhecimento e cuidado da saúde do que verdadeiramente é onde ela parece diminuir ou faltar. Mesmo associadas às saudações e aos cumprimentos inter-subjectivos, as “saudades” expressam o voto, ainda que inconsciente, de que o seu emissário e o seu destinatário se cumpram, cumprindo, ou seja, realizando e consumando, a sua inerente vocação à plena saúde de se tornarem quem realmente são, reunindo-se com o que de mais precioso há em si e em tudo, reencontrando-o e reconhecendo-o como a sua inalienável natureza.
Neste sentido, a saudade é também potência de re-ligação (“religare”, ou seja, neste caso, não religar, mas ligar atrás ou por detrás) e de re-colhimento (“relegere”, colher ou tomar de novo, enrolar de novo, percorrer de novo - também na memória - , reler). Ela é assim religiosa, segundo as duas etimologias possíveis de “religião”, não porém no sentido de religar algo ou alguém que efectivamente se separou, e enquanto separado, mas de ligar a mente que vive como real e absoluta a ilusória separação e soledade subjectiva ao que está sempre “atrás” ou “por detrás” dessa experiência, isto é, de a levar a des-cobrir a encoberta e constante anterioridade, o fundo sem fundo, da própria saúde incondicionada. A ligação, o vínculo do sujeito ao antes de o ser, desvelado nesse passo atrás do estar aí mental e reflexivo, des-inscrevendo-o da autoposição de-limitadora de si e do mundo, de-limitadora de si no mundo, consiste no seu re-colher-se, no reassumir da integridade encoberta e relativamente perdida pela incontinente disseminação da consciência nos estados mentais relativos aos aparentes objectos da experiência dualista e mundana. O re-colhimento processa-se assim pelo despojamento desses objectos e desses estados mentais de atracção, aversão e indiferença a seu respeito, tanto mais fácil e rápido quanto mais desde o início se reconhecer o carácter artificial e ilusório de toda a percepção dualista e de toda a clivagem sujeito-objecto. A consciência, redimindo-se da distracção e dispersão geradoras dos conceitos de interior e exterior, de eu e outro, de eu e mundo, percorre assim de novo, gradual ou subitamente, mas em sentido inverso, o caminho da sua ilusória constituição mundana, que é a constituição do próprio sujeito e do próprio mundo, regressando ao insituado e incondicionado imo da natureza-experiência primordial, sem sujeito nem objecto, sem centro nem periferia, sem intenções nem características. Reconhecendo-se e repousando nessa saúde inata, nessa plenitude livre de todas as condições, a saudade mata-se e liberta-se de o ser.
Todavia, se a saudade não pode morrer senão na cessação do sujeito e do mundo, esta não é de modo algum a extinção de algo efectivamente existente, mas tão só o fim de uma ilusão e de uma percepção falsa, o reconhecimento de que nunca em verdade houve, há ou poderá haver algo que seja sujeito e objecto, eu e mundo, com uma natureza ou entidade substancial, existente em si e por si própria. Como o desvanecimento de uma miragem ao abeirarmo-nos dela, cujo resultado não é contudo a decepção mas a alegria infinita. O que surge para a consciência dualista e mundana como um fim é afinal, embora ainda apenas para ela, um início. O início da fruição de todas as possibilidades do sem fim nem início.
À luz de quanto se disse, podemos agora acrescentar que o sentimento de ausência habitualmente associado à experiência da saudade, como afastamento e distância do seu objecto em relação ao sujeito que o recorda e deseja, e que aqui reinterpretamos como ilusório afastamento e distância do sujeito em relação à natureza-experiência primordial sempre presente e instante, tem ainda um outro e mais fundo sentido. A ausência (de “absentia”, “abesse”) pode ser compreendida não apenas como afastamento e distância de algo em relação a alguma coisa, mas, conforme o sentido também privativo da partícula “ab-“, como não entificação, como ausência da de-terminação de algo como ser ou ente, em plena conformidade com o sentido do “nada” português e castelhano (de “nulla res nata”). O sentimento de ausência, não disto ou daquilo, mas de aus-ência enquanto não entidade ou entificação, de não haver jamais relação com isto ou aquilo, de nunca haver nem não haver isto ou aquilo, é assim, em primeira e última instância, inerente à própria natureza-experiência primordial e à sua vacuidade-plenitude, alheia a sujeito e objecto e a todos os conceitos que estruturam a e decorrem da suposta relação entre um sujeito e um objecto. O sentimento de ausência, de eu e outro, de si e de mundo, é a experiência mais funda e primeira da saudade, enquanto experiência directa da manência na própria saúde e sanidade primordial, onde, como dissemos, a saudade é sem ser e sem o ser. A experiência de aus-ência é a jubilosa experiência primeira e última de não haver ente algum que possa ser ausente, no sentido de afastado ou distante, e de, sem contradição, todos os supostos e aparentes entes serem na verdade aus-entes, no sentido de livres de qualquer entificação e entidade, que os faça ser ou não ser isto ou aquilo. A saudade, enquanto experiência do vago e do não sei quê de uma presença ausente ou de uma ausência presente, é assim - antes de se desfocar e degradar na soledade subjectiva, que a converte na iludida memória-desejo de algo outrora vivido e agora remoto, perdido e pressentido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente – a experiência directa e imediata da não presença (de “praesentia”, “praeesse”) de tudo o que aparece como presente, no sentido de nela jamais haver qualquer coisa ou ente que se constitua “prae”, ou seja, “diante”, “em frente”, “defronte”, nessa experiência de de-limitação, oposição e objecção mútua que vimos estruturar toda a relação dual e fictícia entre sujeito e objecto. O que se dá na presença ausente ou ausência presente da experiência saudosa é na verdade a infinita abertura de uma vacuidade-liberdade que esvazia toda a suposta substancialidade e densidade da esfera ôntico-ontológica e dissolve em espaço puro e infinito o ilusório enclausuramento da experiência de ser e ser algo. A saudade, enquanto experiência de aus-ência - em sua primordial instância, irredutível a todo o ausente - , é experiência da inerência da mente e de tudo o que percepciona à infinidade sem centro nem periferia, ao fundo sem fundo insubstancial e não-dual de tudo. Nesse sentido é um radical antídoto ao preconceito substancialista, que se aferra ao suposto de haver sub-postos, entidades substanciais (de “substantia”, procedente de “substare”, estar debaixo, resistir) cuja realidade sólida seja o firme, resistente e fundador suporte de aparentes e mutáveis qualidades ou de características intrínsecas, fomentando o apego e a aversão a tais entidades e, deste modo, a confusão e o sofrimento inevitáveis.
No mesmo sentido aponta o vago (de "vagus", errante; indeciso, inconstante, indefinido, e de "vacuus", vazio, desocupado, deserto; livre de; livre, aberto) da experiência saudosa, que se até um certo ponto indica a errância, inconstância e agitação da ignorante saudade mundana, em que a memória e o desejo do sujeito transitam continuamente de objecto para objecto, já em primeira e última instância refere a vacuidade, liberdade e infinita abertura da natureza-experiência primordial, em que a saudade não é de, em que não há saudade do quer que seja, mas tão só manência na saúde-sanidade da aus-ência de id-entidade-diferença, mesmidade-alteridade, eu-outro, sujeito-objecto. O imo da saudade é a fruitiva e criativa paz da vacância, estado de vacar e vagar (ambos do latino "vacare"), onde o ser vazio, desocupado e livre de si é espontâneo vagar para todo o possível (cf. os múltiplos sentidos do verbo latino).
Embora não seja este o lugar para o fundamentar, explicitar e desenvolver, cabe referir, a respeito deste sentido da saudade, que num dos vectores maiores da experiência galaico-portuguesa e da sua tematização poético-filosófica, de que o presente texto se assume continuador, emerge assim um paradigma alternativo àquele que tem predominado (com múltiplas dissidências e excepções) na experiência ocidental, desde a sua vertente clássica, greco-latina, até à cristã e à sobrevivência de ambas no planetarizado senso comum contemporâneo (de que alguma ciência dá mostras hoje de se emancipar). Aproximando-se, neste e noutros aspectos, de várias correntes e possibilidades da experiência oriental, isso é para nós sinal de uma mais profunda, radical e comum convergência onde Ocidente e Oriente se transcendem numa Origem irredutível às determinações histórico-geográficas e culturais do espírito. [...] - Excerto de "Da natureza primeira e última de todas as coisas, da mundanidade e da saudade", artigo publicado no último número da revista galega Agália, que integrará um livro em preparação.
15. Filha da ilusória flexão e contracção da infinidade, plenitude e bem-aventurança da natureza-experiência primordial na soledade da subjectividade, a saudade é nesta a manifestação veemente, natural e necessária do sentimento de exílio, desintegração, desamparo, incompletude e carência que lhe é inerente enquanto ilusoriamente protagoniza o condicionamento dualista, sub/ob-jectado e espácio-temporal do próprio incondicionado absoluto. O que não o afecta, mas apenas ao sujeito que nele ficticiamente surge. Na verdade, se este saudosamente sente o vago e o não sei quê de uma presença ausente, ou de uma ausência presente, como algo outrora vivido e agora remoto, perdido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente, de que há pressentimento, memória e desejo, o que assim sente é menos intrínseco ao objecto da saudade, que já vimos ser a natureza-experiência primordial - infinita e por isso sempre e a cada instante totalmente e em tudo presente - , do que ao próprio ilusório afastamento e desintegração dela, pelo qual o que não é sujeito nem objecto surge como objecto para um sujeito ou sujeito para um outro sujeito. Na verdade a subjectividade, a soledade e a saudade não resultam, como dissemos, senão da flexão e intelectualização da experiência originária, com o complexo conceptual-emocional daí resultante.
Filha da inalienável e irrecusável plenitude sempre presente e da ilusória diminuição da sua experiência na génese do sujeito e da percepção objectivadora, a saudade é todavia manência nessa plenitude antes de ser memória-desejo dela. Na sua ponta extrema, onde é não sendo, a saudade é manência na saúde (“salus, utis”) e na sanidade (de “sanus”, são, puro) da natureza-experiência primordial, a única sã – ou seja, pura, íntegra, perfeita - , necessária e autêntica. É apenas na medida em que, relativamente, há encobrimento e perda disso que, em absoluto, jamais se pode deixar de ser - pelo afastamento ilusório e mental, isto é, mentiroso, pelo estado alterado de consciência da percepção dualista, pela di-versão e dis-tracção instituidoras do sujeito e do objecto, pela dolência e doença dessa aparente privação do que afinal se é em superabundância - , que se aspira a reintegrar a experiência da manência pela memória e o desejo, eles mesmos antes de mais instâncias de inerência e vínculo e só derivadamente de reversão e regresso a partir de uma suposta distância. Pois esta memória e desejo, que são saudade, são-no de não serem, não manifestando senão a sua pertença a isso que constantemente os antecede, culmina e anula. Memória e desejo, memória-desejo do infinito, a saudade é-o disso onde nunca houve, há ou haverá qualquer memória, desejo e saudade. A saudade é a saúde, integridade e perfeição da natureza-experiência primordial, em toda a sua pujança iluminativa e fruitiva, amorosa e compassiva, a mover a reintegração de todos os sujeitos, humanos e não humanos, no imo de onde ilusoriamente se extraviam as mentes obscurecidas e errantes, envolvidas e arrastadas no fluxo insalubre e aflitivo das percepções, dos pensamentos e das emoções dualistas e assim das preocupações mundanas, enquanto auto-manipuladas pela sua ignorância na sujeição às aparências sedutoras, repulsivas e neutras dos objectos que em função dessa mesma ignorância lhes aparecem. A inquietação saudosa, que é sempre ponto de fuga e ruptura da soledade, pena e penúria da dualidade, reflexividade e discursividade mental, do existir em si recluso, da subjectividade e da mundanidade, promana da necessariamente insatisfatória experiência de si e do mundo por quem continuamente inere ao sempre instante não haver si nem mundo.
Manifestação da saúde e sanidade da natureza-experiência primordial em seu relativo encobrimento e privação, a saudade é, simultaneamente, a sua salvaguarda no domínio da aparente experiência dualista, impedindo que esta plena e verdadeiramente o seja, e a salvaguarda do aparente sujeito desta experiência no domínio daquela sua natureza autêntica, íntegra e sã, impedindo que ele se torne plena e realmente um sujeito isolado, perdido e submetido num mundo de objectos. A saudade é assim potência de salvação e redenção, entendidas como saudação, desejo, dom, reconhecimento e cuidado da saúde do que verdadeiramente é onde ela parece diminuir ou faltar. Mesmo associadas às saudações e aos cumprimentos inter-subjectivos, as “saudades” expressam o voto, ainda que inconsciente, de que o seu emissário e o seu destinatário se cumpram, cumprindo, ou seja, realizando e consumando, a sua inerente vocação à plena saúde de se tornarem quem realmente são, reunindo-se com o que de mais precioso há em si e em tudo, reencontrando-o e reconhecendo-o como a sua inalienável natureza.
Neste sentido, a saudade é também potência de re-ligação (“religare”, ou seja, neste caso, não religar, mas ligar atrás ou por detrás) e de re-colhimento (“relegere”, colher ou tomar de novo, enrolar de novo, percorrer de novo - também na memória - , reler). Ela é assim religiosa, segundo as duas etimologias possíveis de “religião”, não porém no sentido de religar algo ou alguém que efectivamente se separou, e enquanto separado, mas de ligar a mente que vive como real e absoluta a ilusória separação e soledade subjectiva ao que está sempre “atrás” ou “por detrás” dessa experiência, isto é, de a levar a des-cobrir a encoberta e constante anterioridade, o fundo sem fundo, da própria saúde incondicionada. A ligação, o vínculo do sujeito ao antes de o ser, desvelado nesse passo atrás do estar aí mental e reflexivo, des-inscrevendo-o da autoposição de-limitadora de si e do mundo, de-limitadora de si no mundo, consiste no seu re-colher-se, no reassumir da integridade encoberta e relativamente perdida pela incontinente disseminação da consciência nos estados mentais relativos aos aparentes objectos da experiência dualista e mundana. O re-colhimento processa-se assim pelo despojamento desses objectos e desses estados mentais de atracção, aversão e indiferença a seu respeito, tanto mais fácil e rápido quanto mais desde o início se reconhecer o carácter artificial e ilusório de toda a percepção dualista e de toda a clivagem sujeito-objecto. A consciência, redimindo-se da distracção e dispersão geradoras dos conceitos de interior e exterior, de eu e outro, de eu e mundo, percorre assim de novo, gradual ou subitamente, mas em sentido inverso, o caminho da sua ilusória constituição mundana, que é a constituição do próprio sujeito e do próprio mundo, regressando ao insituado e incondicionado imo da natureza-experiência primordial, sem sujeito nem objecto, sem centro nem periferia, sem intenções nem características. Reconhecendo-se e repousando nessa saúde inata, nessa plenitude livre de todas as condições, a saudade mata-se e liberta-se de o ser.
Todavia, se a saudade não pode morrer senão na cessação do sujeito e do mundo, esta não é de modo algum a extinção de algo efectivamente existente, mas tão só o fim de uma ilusão e de uma percepção falsa, o reconhecimento de que nunca em verdade houve, há ou poderá haver algo que seja sujeito e objecto, eu e mundo, com uma natureza ou entidade substancial, existente em si e por si própria. Como o desvanecimento de uma miragem ao abeirarmo-nos dela, cujo resultado não é contudo a decepção mas a alegria infinita. O que surge para a consciência dualista e mundana como um fim é afinal, embora ainda apenas para ela, um início. O início da fruição de todas as possibilidades do sem fim nem início.
À luz de quanto se disse, podemos agora acrescentar que o sentimento de ausência habitualmente associado à experiência da saudade, como afastamento e distância do seu objecto em relação ao sujeito que o recorda e deseja, e que aqui reinterpretamos como ilusório afastamento e distância do sujeito em relação à natureza-experiência primordial sempre presente e instante, tem ainda um outro e mais fundo sentido. A ausência (de “absentia”, “abesse”) pode ser compreendida não apenas como afastamento e distância de algo em relação a alguma coisa, mas, conforme o sentido também privativo da partícula “ab-“, como não entificação, como ausência da de-terminação de algo como ser ou ente, em plena conformidade com o sentido do “nada” português e castelhano (de “nulla res nata”). O sentimento de ausência, não disto ou daquilo, mas de aus-ência enquanto não entidade ou entificação, de não haver jamais relação com isto ou aquilo, de nunca haver nem não haver isto ou aquilo, é assim, em primeira e última instância, inerente à própria natureza-experiência primordial e à sua vacuidade-plenitude, alheia a sujeito e objecto e a todos os conceitos que estruturam a e decorrem da suposta relação entre um sujeito e um objecto. O sentimento de ausência, de eu e outro, de si e de mundo, é a experiência mais funda e primeira da saudade, enquanto experiência directa da manência na própria saúde e sanidade primordial, onde, como dissemos, a saudade é sem ser e sem o ser. A experiência de aus-ência é a jubilosa experiência primeira e última de não haver ente algum que possa ser ausente, no sentido de afastado ou distante, e de, sem contradição, todos os supostos e aparentes entes serem na verdade aus-entes, no sentido de livres de qualquer entificação e entidade, que os faça ser ou não ser isto ou aquilo. A saudade, enquanto experiência do vago e do não sei quê de uma presença ausente ou de uma ausência presente, é assim - antes de se desfocar e degradar na soledade subjectiva, que a converte na iludida memória-desejo de algo outrora vivido e agora remoto, perdido e pressentido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente – a experiência directa e imediata da não presença (de “praesentia”, “praeesse”) de tudo o que aparece como presente, no sentido de nela jamais haver qualquer coisa ou ente que se constitua “prae”, ou seja, “diante”, “em frente”, “defronte”, nessa experiência de de-limitação, oposição e objecção mútua que vimos estruturar toda a relação dual e fictícia entre sujeito e objecto. O que se dá na presença ausente ou ausência presente da experiência saudosa é na verdade a infinita abertura de uma vacuidade-liberdade que esvazia toda a suposta substancialidade e densidade da esfera ôntico-ontológica e dissolve em espaço puro e infinito o ilusório enclausuramento da experiência de ser e ser algo. A saudade, enquanto experiência de aus-ência - em sua primordial instância, irredutível a todo o ausente - , é experiência da inerência da mente e de tudo o que percepciona à infinidade sem centro nem periferia, ao fundo sem fundo insubstancial e não-dual de tudo. Nesse sentido é um radical antídoto ao preconceito substancialista, que se aferra ao suposto de haver sub-postos, entidades substanciais (de “substantia”, procedente de “substare”, estar debaixo, resistir) cuja realidade sólida seja o firme, resistente e fundador suporte de aparentes e mutáveis qualidades ou de características intrínsecas, fomentando o apego e a aversão a tais entidades e, deste modo, a confusão e o sofrimento inevitáveis.
No mesmo sentido aponta o vago (de "vagus", errante; indeciso, inconstante, indefinido, e de "vacuus", vazio, desocupado, deserto; livre de; livre, aberto) da experiência saudosa, que se até um certo ponto indica a errância, inconstância e agitação da ignorante saudade mundana, em que a memória e o desejo do sujeito transitam continuamente de objecto para objecto, já em primeira e última instância refere a vacuidade, liberdade e infinita abertura da natureza-experiência primordial, em que a saudade não é de, em que não há saudade do quer que seja, mas tão só manência na saúde-sanidade da aus-ência de id-entidade-diferença, mesmidade-alteridade, eu-outro, sujeito-objecto. O imo da saudade é a fruitiva e criativa paz da vacância, estado de vacar e vagar (ambos do latino "vacare"), onde o ser vazio, desocupado e livre de si é espontâneo vagar para todo o possível (cf. os múltiplos sentidos do verbo latino).
Embora não seja este o lugar para o fundamentar, explicitar e desenvolver, cabe referir, a respeito deste sentido da saudade, que num dos vectores maiores da experiência galaico-portuguesa e da sua tematização poético-filosófica, de que o presente texto se assume continuador, emerge assim um paradigma alternativo àquele que tem predominado (com múltiplas dissidências e excepções) na experiência ocidental, desde a sua vertente clássica, greco-latina, até à cristã e à sobrevivência de ambas no planetarizado senso comum contemporâneo (de que alguma ciência dá mostras hoje de se emancipar). Aproximando-se, neste e noutros aspectos, de várias correntes e possibilidades da experiência oriental, isso é para nós sinal de uma mais profunda, radical e comum convergência onde Ocidente e Oriente se transcendem numa Origem irredutível às determinações histórico-geográficas e culturais do espírito. [...] - Excerto de "Da natureza primeira e última de todas as coisas, da mundanidade e da saudade", artigo publicado no último número da revista galega Agália, que integrará um livro em preparação.
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