Mostrar mensagens com a etiqueta meditação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta meditação. Mostrar todas as mensagens
sábado, 12 de novembro de 2011
sábado, 25 de setembro de 2010
Meditação
Etiquetas:
Itzhak Perlman,
Jules Massenet,
meditação
segunda-feira, 26 de julho de 2010
“O que tu és, eu sou ! / E tu, tu és o que eu sou ! / Eu sou o Céu, tu és a Terra ! / Tu és a Estrofe, eu sou a Melodia !”
(fórmula ritual do casamento védico)

Qual o sentido espiritual da união sexual? Duas dicas da Índia:
“Neste mundo, o resultado do amor é não haver mais que um só pensamento. Quando o amor deixa diferentes os pensamentos (de cada um), é como se houvesse a união de dois cadáveres” - "Centúria da Paixão Amorosa" (tratado erótico indiano);
“Quando o pensamento não é reabsorvido no acto amoroso e na concentração yógica (samadhi), de que serve o recolhimento (dhyana) ? De que serve o acto amoroso ?” - "Sarngadharapaddhati".

Qual o sentido espiritual da união sexual? Duas dicas da Índia:
“Neste mundo, o resultado do amor é não haver mais que um só pensamento. Quando o amor deixa diferentes os pensamentos (de cada um), é como se houvesse a união de dois cadáveres” - "Centúria da Paixão Amorosa" (tratado erótico indiano);
“Quando o pensamento não é reabsorvido no acto amoroso e na concentração yógica (samadhi), de que serve o recolhimento (dhyana) ? De que serve o acto amoroso ?” - "Sarngadharapaddhati".
domingo, 25 de julho de 2010
"A união da quietude e do movimento"
"Quaisquer tipos de pensamentos que surjam, sem os suprimir, reconheçam de onde emergem e onde se dissolvem; e permaneçam focados enquanto observam a sua natureza. Fazendo isto, por fim o movimento dos pensamentos cessa e há quietude... De cada vez que observarem a natureza de quaisquer pensamentos que surjam, eles desvanecer-se-ão por si mesmos e a seguir uma vacuidade aparece. Do mesmo modo, se também examinarem a mente quando ela permanece sem movimento, verão uma vacuidade não obscurecida, clara e vívida, sem qualquer diferença entre o primeiro e o último estado. Isso é bem conhecido entre os praticantes de meditação e chama-se "a união da quietude e do movimento"
- Panchen Lozang Chökyi Gyaltsen (1570-1662, Tibete).
- Panchen Lozang Chökyi Gyaltsen (1570-1662, Tibete).
sábado, 24 de julho de 2010
Quem somos quando nada fazemos mas estamos presentes?
"Em termos do sentimento individual de quem somos, a maioria de nós identifica-se fortemente com os papéis que desempenhamos na vida quotidiana, por exemplo, pais, esposos, filhos, estudantes ou pessoas numa certa profissão. Tais papéis são importantes e eles definem-nos nas nossas inter-relações sociais. Mas, tirando as nossas relações específicas com outras pessoas e os tipos de actividades em que nos envolvemos regularmente, o que fica? Quem somos nós quando nos sentamos calmamente nos nossos quartos, nada fazendo mas estando presentes?"
- B. Alan Wallace, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity, Columbia University Press, 2009.
- B. Alan Wallace, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity, Columbia University Press, 2009.
domingo, 4 de julho de 2010
"Desautomatização"
O segredo está na desautomatização. Se conseguirmos desautomatizar as nossas actividades, então toda a nossa vida se tornará uma meditação. A meditação é uma qualidade; pode-se adaptá-la a tudo. Não se trata de um acto específico - sentar-se virado para Leste, repetir uns mantras, queimar incenso, fazer isto e aquilo numa altura específica, com gestos e rituais específicos. A meditação nada tem a ver com estes ritos que servem, apenas, para a automatizar. A meditação é contra toda e qualquer forma de automatização.
Osho
Osho
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
"O Pensamento Poético é [...] a Caldeira onde se gera o não-pensamento - a Meditação"
"O Pensamento Poético é, direi, a arma com que a lógica e a intuição são desmembradas depois de um foco as ter tomado em conjunto, é, direi, a Caldeira onde se gera o não-pensamento - a Meditação"
- António Maria Lisboa
- António Maria Lisboa
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Novo curso de meditação - Para uma real transformação do mundo
"A meditação sem objecto é a seta que se dispara sem que o arco a solte" - Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 151.
Inicio um novo curso de introdução à meditação hoje, dia 12, pelas 19.30, na Av. 5 de Outubro, 122, 8º esq., 213634363 (a partir das 16 h). Podem inscrever-se um pouco antes.
A única verdadeira transformação do mundo tem de começar na mente que o percepciona. A paz exterior depende da paz interior. Meditar é uma experiência directa de si por si mesmo que dispensa qualquer crença religiosa ou filosófica.
Partilhem com quem esteja interessado nesta aventura.
Abraços
Inicio um novo curso de introdução à meditação hoje, dia 12, pelas 19.30, na Av. 5 de Outubro, 122, 8º esq., 213634363 (a partir das 16 h). Podem inscrever-se um pouco antes.
A única verdadeira transformação do mundo tem de começar na mente que o percepciona. A paz exterior depende da paz interior. Meditar é uma experiência directa de si por si mesmo que dispensa qualquer crença religiosa ou filosófica.
Partilhem com quem esteja interessado nesta aventura.
Abraços
domingo, 23 de agosto de 2009
quinta-feira, 18 de junho de 2009
domingo, 31 de maio de 2009
Uma proposta de exercício prático
Hoje é dia de Pentecostes e, de partida para a Festa do Espírito Santo, na Arrábida, deixo-vos uma proposta de exercício que nos permita ir para além das meras palavras em que tanto nos enredamos, por mais belas e justas que possam ser. É um excerto do meu livro Da Saudade como Via de Libertação e uma proposta de acção que nos pode efectiva e radicalmente mudar, a nós e ao mundo, sem sairmos do lugar onde estamos, de forma mais eficaz que mil acções exteriores, sem contradizer estas, sempre que necessárias. Caso queiram fazer a experiência, boa prática!
[...]
Além dos exercícios anteriores, que desenvolvem na mente a sua qualidade inata de atenção, tornando-a estável, calma e clara, para que possa permanecer no reconhecimento-fruição da sua natureza primordial, outros há que despertam e desenvolvem, como indispensável complemento dos primeiros, a qualidade inata de sensibilidade, amor e compaixão que há nessa mesma natureza primordial da mente. Um dos mais potentes e eficazes é o que passamos a descrever e que se pode chamar troca.
Verifica primeiro os sete pontos da postura física, assegurando teres a coluna bem direita. As mãos podem ficar agora sobre os joelhos, com as palmas viradas para baixo. Começa por deixar a mente livre de qualquer referência e focalização, numa abertura da consciência tão vasta como o espaço, sem outro suporte da atenção senão a própria experiência de estar consciente. Deixa-te residir na experiência primordial, sem pensares nisso. Centra agora a consciência no coração e evoca aquele ser (ou seres) que neste preciso momento mais amas e/ou pelo qual mais te compadeces. O ser cuja felicidade mais desejas e/ou cujo sofrimento mais te é insuportável. Isto de modo mais autêntico, incondicional e pleno, com menos expectativas de reconhecimento, retribuição ou recompensa, ou seja, com menos apego. Esteja vivo neste mundo ou dele haja já partido, não importa. Se sentires que és tu próprio, não há qualquer problema. É por aí que deves começar.
Pensa nesse ser e sente-o, vê-o, visualiza-o bem presente diante de ti. Ele aqui está, porque a mente, o amor e a compaixão não conhecem tempo nem espaço… Para eles nunca há limites, separação ou distância…Ele aqui está… Podes agora fechar os olhos, se preferires, para melhor o ver e sentir, bem vivo e presente diante de ti… Bem vivo e sensível. Considera e sente todo o seu sofrimento, toda a sua dor e suas causas, todas as suas ilusões, obscurecimentos e negatividade…Todos os seus tormentos e dificuldades materiais, físicos, emocionais e mentais…Os que conheces e os que desconheces, os reais, os potenciais e os possíveis, as sementes de negatividade, implantadas pelas suas acções passadas, mentais, verbais e físicas, que já, sem que ele o saiba, no seu íntimo germinam em tendências que, perante as adequadas circunstâncias externas, no futuro desabrocharão em todo o tipo de problemas… Contempla tudo o que o fez, faz e fará sofrer… Que mais não seja a ignorância do seu bem profundo, o tormento da perda do que agora o faz feliz e a dor da morte inevitável. Considera, vê e sente tudo isso e aspira do fundo do coração a libertá-lo completamente de tal !
Se começas por ti próprio, desdobra-te e contempla-te diante de ti carregado de tudo isso. Do lado de cá está a tua natureza primordial, a dimensão saudável e incorruptível de ti mesmo, livre de todos esses problemas e aflições e por isso apta a fazer alguma coisa. Ama-te verdadeiramente. Cultiva realmente o amor-próprio. Não te limites à busca do prazer medíocre e fugaz. Reconhece tudo o que te atormenta e te pode vir a atormentar e deseja, do fundo do coração, veres-te livre, de uma vez por todas, de tudo isso ! Deseja a felicidade infinita !
Não consideres natural e fatal o sofrimento, nem o teu, nem o de ninguém. Revolta-te serenamente contra a indiferença, preguiça e distracção em que tens andado. Decide-te a fazer alguma coisa, a instaurar desde este preciso instante uma profunda diferença na tua vida e, assim, no universo !
Inspirando profundamente, bem concentrado no que estás a fazer, absorve então tudo isso, sob a forma de fumo negro que vem das entranhas desse ser, no mais fundo do teu coração subtil, no centro do teu peito. Aí toca e dissolve a sua carapaça e o seu cerne mais fechado e insensível, o núcleo cego e duro de ignorância, medo e auto-protecção de onde provém todo o nosso egocentrismo, todo o nosso apego à ideia de uma felicidade egoísta e a nossa rejeição do sofrimento para os outros, bem como a nossa indiferença… No caso de estares a praticar por ti, considera igualmente que esse fumo negro, ao tocar o teu coração, dissolve a sua armadura de ignorância e indiferença ao teu bem e felicidade profundos, que tantas vezes trocas pelo apego a prazeres efémeros e egoístas que só te deixam frustração, sede e dor. Toma em ti toda a ilusão e sofrimento do ser à tua frente e todo este fumo negro, toda esta negatividade, pelo amor e compaixão da tua motivação, ao tocar e dissolver esse núcleo cego e duro, converte-o e converte-se imediatamente numa luz, branca ou dourada, que ao expirar irradias agora abundantemente, banhando-o e impregnando-o de uma paz, uma saúde, um bem-estar e uma felicidade onde se dissipam todas as suas dificuldades e sofrimentos materiais, físicos, emocionais e mentais... À medida que praticas, profundamente concentrado e confiante nas tuas capacidades, contempla a transformação que ante ti e em ti se opera…Este ser que tanto amas torna-se saudável, radiante, feliz, bem-aventurado… E tu experimentas essa mesma plenitude e alegria, deixando que ela irradie num sorriso nos teus lábios.
Pratica assim durante algum tempo, embrenhando-te cada vez mais na experiência como uma oportunidade extremamente preciosa e gratificante. Não a vejas nem vivas como um sacrifício ou uma obrigação, de carácter moral ou religioso. Sente-a antes como a plena realização das tuas melhores aspirações a desenvolveres e manifestares o melhor que há em ti, como o cumprimento da mais funda saudade de plenitude que desde sempre em ti e tudo habita.
Se começaste por ti, passa então, durante uns momentos, a outro ser que ames de modo mais incondicional, considerando-o inseparável de ti. Depois, abre mais o coração, pensando em alguém conhecido, em relação ao qual tens uma atitude neutra e indiferente, não lhe querendo bem nem mal… Contemplando-o como um ser sensível que, tal como o primeiro, não deseja senão ser feliz e não sofrer, coloca-o a seu lado, considerando-os inseparáveis. Podes mesmo contemplar que no mais fundo do coração deste ser estás tu ou aquele(s) que mais amas. Pratica exactamente do mesmo modo por ambos sem perda de motivação, concentração e intensidade…Tenta mesmo aumentá-las, que mais não seja considerando que o benefício do primeiro ser e o teu próprio benefício será tanto maior quanto mais a partir dele abrires o coração a outros seres. Vive a crescente alegria, entusiasmo e calor de um coração que se abre, de uma respiração que se converte em bálsamo da dor, de uma mente que se torna mais vasta e consciente.
Após algum tempo, evoca então aquele ser ou seres que mais aversão te causam, o ser ou seres que os empedernidos conceitos e juízos que estruturam a tua actual percepção classificam como teus piores inimigos ou rivais. Se isso te não for imediatamente possível, por te perturbar em excesso, pensa em alguém que te suscite a máxima aversão que fores capaz de suportar, sem prejuízo da calma e concentração necessárias à prática deste exercício. Começa por aí e um dia chegarás aos outros. Tem essa coragem e vive a profunda alegria de te libertares do ódio, da raiva e do ressentimento, de transcenderes os teus limites e de os converteres em limiares, em portais de acesso a uma dimensão maior e melhor de ti mesmo. Pensa nesse ser ou seres como inseparáveis dos anteriores. Considera mesmo que no fundo do seu coração estás tu e/ou os seres que te são mais queridos. E sente a profunda gratidão por serem eles que te permitem tomares consciência dos teus limites e superá-los, por serem eles que através deste exercício te permitem evoluir mais e mais rapidamente, libertando-te de toda a ilusão, negatividade, rancor e ressentimento que te levam a percepcionar inimigos e a sofrer terrivelmente com isso. Bem presentes diante de ti, praticas pelos três tipos de seres, sem qualquer parcialidade nem hesitação e ainda com mais empenho e entusiasmo, desenvolvendo um sentimento de profunda alegria e imparcialidade no amor e na compaixão. É por todos que igualmente inspiras negras nuvens de ilusão, negatividade e dor, expirando luz dourada, sábia e benfazeja, convertendo o teu coração no mais precioso e poderoso forno alquímico, onde pela combustão da saudade emerge a tua e universal saúde e natureza primordial.
Abre-te progressivamente mais, bem para além do que o teu acanhado ego alguma vez julgou ser possível. Descobre poderes ser ou seres desde já mais do que alguma vez imaginaste possível. Abre-te e pratica, em círculos concêntricos em constante expansão, por todos os seres vivos e sensíveis, humanos e não humanos, visíveis e invisíveis, que habitam o lugar onde estás… a casa… o bairro… a povoação ou cidade… o país… o planeta… a galáxia… e, enfim, o inteiro universo !... Abre o coração a tudo, absorve toda a dor, negatividade e treva de todos os mundos – todas as doenças, cancros e sidas, todos os medos, angústias e loucuras, todas as solidões, torturas e misérias, todas as ilusões, desgraças e mortes - , transmutando-as em luz, paz e bem-aventurança cada vez mais poderosas e irradiantes. Pratica, pelo bem relativo e absoluto de todos os seres, pela satisfação das suas necessidades básicas e imediatas e pela sua felicidade e libertação suprema, imparcialmente, sem qualquer excepção. Faz do teu coração uma festa e um festim cósmico, eterno e infinito, para o qual todos são convidados. Pratica assim e sente que por esta prática o mundo, a percepção de ti e do mundo, se revoluciona e transmuda. A mente e o coração convertem-se progressivamente na própria luz que irradiam e nada percepcionam senão luz…Uma luz infinita, subtil e viva, livre, consciente e sensível, na qual tu, todos os seres e fenómenos se dissolvem, sem qualquer conceito de eu, de outro e de prática, de sujeito, objecto e sua relação…Uma imensidão luminosa, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior… Um infinito esplendor… Inominável.
Ao emergires desta funda absorção, faz imediatamente a dedicatória, tal como atrás descrito (II, 4), oferecendo todo o benefício do exercício, sem qualquer apego, para a paz, a felicidade e o bem, relativos e absolutos, de todos os seres. É importante fazê-lo enquanto sentes o efeito pleno da prática, antes que na mente regressem as suas habituais e sobreviventes tendências dualistas e egocêntricas, reprodutoras da percepção comum e dita normal do mundo. A melhor dedicatória, tal como a melhor prática, é acompanhada da ausência de crença na realidade efectiva do sujeito, do objecto e da própria acção, mas sem prejuízo do entusiasmo, do amor e da compaixão. Isso permite que, durante e após este exercício, não tenhamos uma visão dualista e substancialista do mundo e de nós mesmos, não caiamos na tentação de nos sentirmos especiais, não nos orgulhemos do que estamos a fazer, não tenhamos qualquer sentimento de superioridade “espiritual” ou pretensão a sermos ou tornarmo-nos justos, sábios, santos, iluminados ou mestres (o sinal mais óbvio de o não ser é ter essa pretensão). É decisivo que a prática dissolva qualquer forma de auto-conceito e auto-imagem, positivos ou negativos. Tudo é como um jogo, insubstancial e ilusório, por isso mesmo eficaz libertador de todas as ilusões. O que fica é a natureza-experiência primordial, a fundamental sanidade de todas as coisas, que não carece de se conceber como tal e não se atribui qualidade, valor ou importância alguma.
[...]
Além dos exercícios anteriores, que desenvolvem na mente a sua qualidade inata de atenção, tornando-a estável, calma e clara, para que possa permanecer no reconhecimento-fruição da sua natureza primordial, outros há que despertam e desenvolvem, como indispensável complemento dos primeiros, a qualidade inata de sensibilidade, amor e compaixão que há nessa mesma natureza primordial da mente. Um dos mais potentes e eficazes é o que passamos a descrever e que se pode chamar troca.
Verifica primeiro os sete pontos da postura física, assegurando teres a coluna bem direita. As mãos podem ficar agora sobre os joelhos, com as palmas viradas para baixo. Começa por deixar a mente livre de qualquer referência e focalização, numa abertura da consciência tão vasta como o espaço, sem outro suporte da atenção senão a própria experiência de estar consciente. Deixa-te residir na experiência primordial, sem pensares nisso. Centra agora a consciência no coração e evoca aquele ser (ou seres) que neste preciso momento mais amas e/ou pelo qual mais te compadeces. O ser cuja felicidade mais desejas e/ou cujo sofrimento mais te é insuportável. Isto de modo mais autêntico, incondicional e pleno, com menos expectativas de reconhecimento, retribuição ou recompensa, ou seja, com menos apego. Esteja vivo neste mundo ou dele haja já partido, não importa. Se sentires que és tu próprio, não há qualquer problema. É por aí que deves começar.
Pensa nesse ser e sente-o, vê-o, visualiza-o bem presente diante de ti. Ele aqui está, porque a mente, o amor e a compaixão não conhecem tempo nem espaço… Para eles nunca há limites, separação ou distância…Ele aqui está… Podes agora fechar os olhos, se preferires, para melhor o ver e sentir, bem vivo e presente diante de ti… Bem vivo e sensível. Considera e sente todo o seu sofrimento, toda a sua dor e suas causas, todas as suas ilusões, obscurecimentos e negatividade…Todos os seus tormentos e dificuldades materiais, físicos, emocionais e mentais…Os que conheces e os que desconheces, os reais, os potenciais e os possíveis, as sementes de negatividade, implantadas pelas suas acções passadas, mentais, verbais e físicas, que já, sem que ele o saiba, no seu íntimo germinam em tendências que, perante as adequadas circunstâncias externas, no futuro desabrocharão em todo o tipo de problemas… Contempla tudo o que o fez, faz e fará sofrer… Que mais não seja a ignorância do seu bem profundo, o tormento da perda do que agora o faz feliz e a dor da morte inevitável. Considera, vê e sente tudo isso e aspira do fundo do coração a libertá-lo completamente de tal !
Se começas por ti próprio, desdobra-te e contempla-te diante de ti carregado de tudo isso. Do lado de cá está a tua natureza primordial, a dimensão saudável e incorruptível de ti mesmo, livre de todos esses problemas e aflições e por isso apta a fazer alguma coisa. Ama-te verdadeiramente. Cultiva realmente o amor-próprio. Não te limites à busca do prazer medíocre e fugaz. Reconhece tudo o que te atormenta e te pode vir a atormentar e deseja, do fundo do coração, veres-te livre, de uma vez por todas, de tudo isso ! Deseja a felicidade infinita !
Não consideres natural e fatal o sofrimento, nem o teu, nem o de ninguém. Revolta-te serenamente contra a indiferença, preguiça e distracção em que tens andado. Decide-te a fazer alguma coisa, a instaurar desde este preciso instante uma profunda diferença na tua vida e, assim, no universo !
Inspirando profundamente, bem concentrado no que estás a fazer, absorve então tudo isso, sob a forma de fumo negro que vem das entranhas desse ser, no mais fundo do teu coração subtil, no centro do teu peito. Aí toca e dissolve a sua carapaça e o seu cerne mais fechado e insensível, o núcleo cego e duro de ignorância, medo e auto-protecção de onde provém todo o nosso egocentrismo, todo o nosso apego à ideia de uma felicidade egoísta e a nossa rejeição do sofrimento para os outros, bem como a nossa indiferença… No caso de estares a praticar por ti, considera igualmente que esse fumo negro, ao tocar o teu coração, dissolve a sua armadura de ignorância e indiferença ao teu bem e felicidade profundos, que tantas vezes trocas pelo apego a prazeres efémeros e egoístas que só te deixam frustração, sede e dor. Toma em ti toda a ilusão e sofrimento do ser à tua frente e todo este fumo negro, toda esta negatividade, pelo amor e compaixão da tua motivação, ao tocar e dissolver esse núcleo cego e duro, converte-o e converte-se imediatamente numa luz, branca ou dourada, que ao expirar irradias agora abundantemente, banhando-o e impregnando-o de uma paz, uma saúde, um bem-estar e uma felicidade onde se dissipam todas as suas dificuldades e sofrimentos materiais, físicos, emocionais e mentais... À medida que praticas, profundamente concentrado e confiante nas tuas capacidades, contempla a transformação que ante ti e em ti se opera…Este ser que tanto amas torna-se saudável, radiante, feliz, bem-aventurado… E tu experimentas essa mesma plenitude e alegria, deixando que ela irradie num sorriso nos teus lábios.
Pratica assim durante algum tempo, embrenhando-te cada vez mais na experiência como uma oportunidade extremamente preciosa e gratificante. Não a vejas nem vivas como um sacrifício ou uma obrigação, de carácter moral ou religioso. Sente-a antes como a plena realização das tuas melhores aspirações a desenvolveres e manifestares o melhor que há em ti, como o cumprimento da mais funda saudade de plenitude que desde sempre em ti e tudo habita.
Se começaste por ti, passa então, durante uns momentos, a outro ser que ames de modo mais incondicional, considerando-o inseparável de ti. Depois, abre mais o coração, pensando em alguém conhecido, em relação ao qual tens uma atitude neutra e indiferente, não lhe querendo bem nem mal… Contemplando-o como um ser sensível que, tal como o primeiro, não deseja senão ser feliz e não sofrer, coloca-o a seu lado, considerando-os inseparáveis. Podes mesmo contemplar que no mais fundo do coração deste ser estás tu ou aquele(s) que mais amas. Pratica exactamente do mesmo modo por ambos sem perda de motivação, concentração e intensidade…Tenta mesmo aumentá-las, que mais não seja considerando que o benefício do primeiro ser e o teu próprio benefício será tanto maior quanto mais a partir dele abrires o coração a outros seres. Vive a crescente alegria, entusiasmo e calor de um coração que se abre, de uma respiração que se converte em bálsamo da dor, de uma mente que se torna mais vasta e consciente.
Após algum tempo, evoca então aquele ser ou seres que mais aversão te causam, o ser ou seres que os empedernidos conceitos e juízos que estruturam a tua actual percepção classificam como teus piores inimigos ou rivais. Se isso te não for imediatamente possível, por te perturbar em excesso, pensa em alguém que te suscite a máxima aversão que fores capaz de suportar, sem prejuízo da calma e concentração necessárias à prática deste exercício. Começa por aí e um dia chegarás aos outros. Tem essa coragem e vive a profunda alegria de te libertares do ódio, da raiva e do ressentimento, de transcenderes os teus limites e de os converteres em limiares, em portais de acesso a uma dimensão maior e melhor de ti mesmo. Pensa nesse ser ou seres como inseparáveis dos anteriores. Considera mesmo que no fundo do seu coração estás tu e/ou os seres que te são mais queridos. E sente a profunda gratidão por serem eles que te permitem tomares consciência dos teus limites e superá-los, por serem eles que através deste exercício te permitem evoluir mais e mais rapidamente, libertando-te de toda a ilusão, negatividade, rancor e ressentimento que te levam a percepcionar inimigos e a sofrer terrivelmente com isso. Bem presentes diante de ti, praticas pelos três tipos de seres, sem qualquer parcialidade nem hesitação e ainda com mais empenho e entusiasmo, desenvolvendo um sentimento de profunda alegria e imparcialidade no amor e na compaixão. É por todos que igualmente inspiras negras nuvens de ilusão, negatividade e dor, expirando luz dourada, sábia e benfazeja, convertendo o teu coração no mais precioso e poderoso forno alquímico, onde pela combustão da saudade emerge a tua e universal saúde e natureza primordial.
Abre-te progressivamente mais, bem para além do que o teu acanhado ego alguma vez julgou ser possível. Descobre poderes ser ou seres desde já mais do que alguma vez imaginaste possível. Abre-te e pratica, em círculos concêntricos em constante expansão, por todos os seres vivos e sensíveis, humanos e não humanos, visíveis e invisíveis, que habitam o lugar onde estás… a casa… o bairro… a povoação ou cidade… o país… o planeta… a galáxia… e, enfim, o inteiro universo !... Abre o coração a tudo, absorve toda a dor, negatividade e treva de todos os mundos – todas as doenças, cancros e sidas, todos os medos, angústias e loucuras, todas as solidões, torturas e misérias, todas as ilusões, desgraças e mortes - , transmutando-as em luz, paz e bem-aventurança cada vez mais poderosas e irradiantes. Pratica, pelo bem relativo e absoluto de todos os seres, pela satisfação das suas necessidades básicas e imediatas e pela sua felicidade e libertação suprema, imparcialmente, sem qualquer excepção. Faz do teu coração uma festa e um festim cósmico, eterno e infinito, para o qual todos são convidados. Pratica assim e sente que por esta prática o mundo, a percepção de ti e do mundo, se revoluciona e transmuda. A mente e o coração convertem-se progressivamente na própria luz que irradiam e nada percepcionam senão luz…Uma luz infinita, subtil e viva, livre, consciente e sensível, na qual tu, todos os seres e fenómenos se dissolvem, sem qualquer conceito de eu, de outro e de prática, de sujeito, objecto e sua relação…Uma imensidão luminosa, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior… Um infinito esplendor… Inominável.
Ao emergires desta funda absorção, faz imediatamente a dedicatória, tal como atrás descrito (II, 4), oferecendo todo o benefício do exercício, sem qualquer apego, para a paz, a felicidade e o bem, relativos e absolutos, de todos os seres. É importante fazê-lo enquanto sentes o efeito pleno da prática, antes que na mente regressem as suas habituais e sobreviventes tendências dualistas e egocêntricas, reprodutoras da percepção comum e dita normal do mundo. A melhor dedicatória, tal como a melhor prática, é acompanhada da ausência de crença na realidade efectiva do sujeito, do objecto e da própria acção, mas sem prejuízo do entusiasmo, do amor e da compaixão. Isso permite que, durante e após este exercício, não tenhamos uma visão dualista e substancialista do mundo e de nós mesmos, não caiamos na tentação de nos sentirmos especiais, não nos orgulhemos do que estamos a fazer, não tenhamos qualquer sentimento de superioridade “espiritual” ou pretensão a sermos ou tornarmo-nos justos, sábios, santos, iluminados ou mestres (o sinal mais óbvio de o não ser é ter essa pretensão). É decisivo que a prática dissolva qualquer forma de auto-conceito e auto-imagem, positivos ou negativos. Tudo é como um jogo, insubstancial e ilusório, por isso mesmo eficaz libertador de todas as ilusões. O que fica é a natureza-experiência primordial, a fundamental sanidade de todas as coisas, que não carece de se conceber como tal e não se atribui qualidade, valor ou importância alguma.
sábado, 6 de setembro de 2008
Para um patriotismo trans-patriótico e universalista. Sete considerações para uma refundação do Movimento Internacional Lusófono
1. A milenar tradição da introspecção meditativa e os progressos contemporâneos da microfísica e das neurociências (que hoje se juntam numa convergência histórica, como nas experiências realizadas no MIT, em Massachusetts, e nos encontros Mind and Life, o último dos quais de 6 a 12 de Junho deste ano, em Nova Iorque) parecem indicar não ser possível encontrar, quer na constituição da chamada matéria, quer na da chamada mente, ou seja, nisso cujo conjunto designamos por realidade, uma mínima entidade que exista em si e por si e que permaneça idêntica a si mesma, ou seja, que tenha características próprias. Todas as dimensões da chamada realidade parecem obedecer assim a duas leis fundamentais, a de interdependência e a de impermanência, que se resumem na sua ausência de características ou qualidades intrínsecas. Como se pode constatar na mínima experiência perceptiva e como a observação científica confirma, sujeito e objecto constituem-se mutuamente e interagem num dinamismo e numa metamorfose constantes, como meros fenómenos recíprocos, sem essência própria. O conceito de identidade parece ser assim uma abstracção desadequada para expressar o real, sem outro fundamento senão o de ser uma ficção convencional e funcional, que serve o reproduzir de uma tradição fortemente entranhada nos hábitos culturais, psicológicos e sociais do senso comum humano.
2. O conceito de identidade nasce, como o seu correlato, o de alteridade, de uma experiência ingénua e irreflectida, na qual, devido a hábitos inconscientes, o sujeito se crê distinto do objecto, o eu do não-eu, o mesmo do outro, o idêntico do diferente, ao mesmo tempo que esses termos da experiência se crêem reais e existentes em si e por si, com características e qualidades próprias, positivas, negativas ou neutras, que nunca são mais do que projecção da percepção inconscientemente condicionada. Este estado, que se pode chamar de ignorância dualista, origina três tendências da experiência mental-emocional na relação sujeito-objecto: 1 – o fascínio e o desejo-apego, caso o objecto seja percepcionado como atraente e positivo; 2 – o medo e a aversão, caso o objecto seja percepcionado como repulsivo e negativo; 3 – a indiferença, caso o objecto seja percepcionado como neutro. Qualquer destas experiências resulta em conflito e sofrimento, primeiro interno e depois externo, indissociável de uma extrema vulnerabilidade perante todas as vicissitudes da vida, pois a mente dominada pelo apego e pela aversão não pode assegurar de modo algum a posse do que deseja nem a exclusão do que rejeita, devido à lei da impermanência e metamorfose constantes de tudo, sujeitando-se assim constantemente à carência do que deseja ou ao medo de o perder, bem como à ameaça do que rejeita ou ao medo de o não evitar. Por outro lado, a indiferença é uma falsa alternativa, que apenas gera a experiência de solidão, de entorpecimento mental e de despotenciamento vital.
Da ignorância dualista e da combinação das três tendências referidas resultam as pulsões emocionais inerentes a todos os actos e omissões, mentais, verbais e físicos, que as tradições ético-espirituais, teístas ou não-teístas, religiosas ou laicas, designam como actos negativos, faltas, pecados ou toxinas mentais, como hoje alguns preferem: desejo possessivo, ódio e cólera, inveja e ciúme, orgulho e arrogância, avidez e avareza, torpor mental e tristeza, entre muitas outras. Em qualquer dos casos, antes de lesarem os outros, estas pulsões lesam a mente do próprio sujeito a partir do primeiro instante em que nela surgem, distorcendo a percepção da realidade, gerando ignorância, insensibilidade e tormento interior. Por isso são objectivamente negativas, independentemente de qualquer doutrina moral ou revelação religiosa.
3. Um olhar desapaixonado e realista sobre o processo e a história da civilização humana, desde os seus primórdios até hoje, não pode deixar de constatar que tudo – a organização social, a ciência, a técnica, a política, a economia, a cultura, a educação e a religião - tem sido predominantemente movido pela ignorância dualista, o apego, a aversão e a indiferença, bem como por todas as suas combinações possíveis, com o resultado evidente, em termos gerais, de a humanidade até hoje sempre ter obtido precisamente o que mais rejeita, o sofrimento, e sempre haver falhado o que mais deseja, a felicidade: prova evidente de que o desejo-apego e a aversão resultam precisamente no contrário do que buscam. As únicas excepções a esta monumental ilusão e fracasso colectivo, habitualmente camuflado com os nomes de “progresso”, “evolução”, etc., são os seres que despertam e se libertam da ignorância dualista e das suas consequências mentais e emocionais: aqueles que nas várias tradições se designam como sábios, santos, etc., e que se consideram mestres espirituais quando à libertação individual acrescentam o amor e a compaixão de continuarem a agir para disso libertarem os outros.
4. Aplicada à questão das sociedades, das culturas, das nações e das pátrias, esta visão constata que nenhuma delas existe em si e por si, com uma identidade e características irredutivelmente próprias. Todas, pelo contrário, apesar de apresentarem singularidades em devir, nascem, vivem e morrem ou metamorfoseiam-se de acordo com as leis fundamentais de interdependência e impermanência que abrangem todas as dimensões do real. Com efeito, quem pode, por exemplo, pensar o que é Portugal separando a sua história e cultura das de todos (ou quase) os povos europeus, africanos, sul-americanos e orientais ? O conceito de identidade nacional é pois, tal como o de identidade pessoal - e sobretudo se pensado de forma essencialista ou substancialista - , uma mera abstracção que em última instância apenas funciona na lógica da ignorância dualista que predomina na mente humana.
5. Tal como acontece quando se extrema a bipolarização eu-outro, o extremar da suposta identidade cultural ou nacional como uma essência única, permanente e independente das demais, leva ao nacionalismo ou patriotismo que potenciam essa ignorância dualista e esses complexos de apego ao que parece ser próprio e de indiferença ou aversão ao que parece ser alheio que já vimos serem as causas fundamentais de insensibilidade, sofrimento e conflito para quem por elas se deixa dominar e para os demais. O nacionalismo ou patriotismo, levando a amar a sua cultura, nação ou pátria acima das demais, é pois injustificável e condenável em termos sapienciais e éticos, sendo incompatível com qualquer projecto de emancipação da consciência e de serviço do bem comum a todos os homens e a todos os seres.
6. Há todavia a possibilidade de se conceber e praticar uma outra forma, não de nacionalismo, mas de patriotismo, o patriotismo trans-patriótico e universalista, que apenas preze, cultive e promova, numa determinada tradição cultural e numa determinada pátria, aquilo que nela houver de melhor, ou seja, de aspiração ao bem comum universal, não só dos homens, mas de todos os seres. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que em última instância aspira a orientar as energias de uma dada nação para que progressivamente se superem todas as fronteiras e barreiras, primeiro mentais e afectivas, e depois institucionais e territoriais, entre todos os povos e culturas, de modo a que a comunidade humana possa expressar o mais possível a estrutura e as leis fundamentais da própria realidade: ausência de id-entidades com características intrínsecas, interdependência, impermanência. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que aspira a romper o círculo vicioso e infernal em que tem decorrido e decorre a história da civilização humana e a devolver humanidade e mundo ao Paraíso que em si intimamente encobrem. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o único que está de acordo com a milenar tradição sapiencial da humanidade e com a ciência contemporânea, convergindo para a verdadeira evolução que é a da consciência e para o verdadeiro progresso que é o espiritual, entendendo por tal o despertar da dualidade que permita ver e sentir o outro como a si mesmo e assim visar a emancipação mental, cultural, social, política e económica de todos os homens e o respeito por todas as formas de vida.
7. Este patriotismo trans-patriótico e universalista é o que encontro no melhor da ideia de Portugal e da comunidade lusófona que – depurada do lastro de muitos condicionantes - interpreto em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para apenas referir os mais destacados. Foi ele, embora ainda informulado e sem a fundamentação aqui apresentada, que inspirou o Manifesto da Nova Águia e a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL – Movimento Internacional Lusófono - , cujos textos iniciais redigi e dos quais oitenta por cento ou mais permaneceu nas versões finais. É apenas à luz do patriotismo trans-patriótico e universalista, como projecto fundamentalmente ético-espiritual e só a partir daí cultural, cívico e social, que considero fazer sentido a existência do MIL. Por isso, aliás, propus e foi aceite que as reuniões da Comissão Coordenadora do MIL começassem com alguns minutos de silêncio meditativo, em que cada um se comprometesse consigo ou com o que considerasse mais sagrado a não ter outro objectivo senão o bem comum de todos os seres. Não acredito, aliás, noutra possibilidade de transformação do mundo – a nível cultural, social ou político - que não se enraíze primeiro numa profunda transformação da mente que percepciona o mundo. A grande revolução futura e já presente, em todo o planeta, é a união inseparável da meditação e de todas as esferas da actividade humana, incluindo a económica e a política. Quando digo meditação refiro-me ao simples treino da mente para ver as coisas como são, para além da dualidade, do apego e da aversão, para além do medo e da expectativa, para além do passado e do futuro, no aqui e agora presente. Nada de místico, esotérico ou exótico e que não vem do Oriente porque a mais profunda cultura ocidental, clássica ou cristã, sempre o conheceu. É a redescoberta disso, mais do que qualquer ideologia laica ou religiosa, a grande novidade que cresce hoje como bola de neve em todo o mundo.
Digo e publico isto, no momento em que se prepara uma refundação do MIL, porque tenho hoje fortes suspeitas de que muitos ou a maior parte dos que aderiram a este movimento e nele têm responsabilidades não tenham percebido toda a dimensão do que nele é proposto. A começar por mim próprio.
2. O conceito de identidade nasce, como o seu correlato, o de alteridade, de uma experiência ingénua e irreflectida, na qual, devido a hábitos inconscientes, o sujeito se crê distinto do objecto, o eu do não-eu, o mesmo do outro, o idêntico do diferente, ao mesmo tempo que esses termos da experiência se crêem reais e existentes em si e por si, com características e qualidades próprias, positivas, negativas ou neutras, que nunca são mais do que projecção da percepção inconscientemente condicionada. Este estado, que se pode chamar de ignorância dualista, origina três tendências da experiência mental-emocional na relação sujeito-objecto: 1 – o fascínio e o desejo-apego, caso o objecto seja percepcionado como atraente e positivo; 2 – o medo e a aversão, caso o objecto seja percepcionado como repulsivo e negativo; 3 – a indiferença, caso o objecto seja percepcionado como neutro. Qualquer destas experiências resulta em conflito e sofrimento, primeiro interno e depois externo, indissociável de uma extrema vulnerabilidade perante todas as vicissitudes da vida, pois a mente dominada pelo apego e pela aversão não pode assegurar de modo algum a posse do que deseja nem a exclusão do que rejeita, devido à lei da impermanência e metamorfose constantes de tudo, sujeitando-se assim constantemente à carência do que deseja ou ao medo de o perder, bem como à ameaça do que rejeita ou ao medo de o não evitar. Por outro lado, a indiferença é uma falsa alternativa, que apenas gera a experiência de solidão, de entorpecimento mental e de despotenciamento vital.
Da ignorância dualista e da combinação das três tendências referidas resultam as pulsões emocionais inerentes a todos os actos e omissões, mentais, verbais e físicos, que as tradições ético-espirituais, teístas ou não-teístas, religiosas ou laicas, designam como actos negativos, faltas, pecados ou toxinas mentais, como hoje alguns preferem: desejo possessivo, ódio e cólera, inveja e ciúme, orgulho e arrogância, avidez e avareza, torpor mental e tristeza, entre muitas outras. Em qualquer dos casos, antes de lesarem os outros, estas pulsões lesam a mente do próprio sujeito a partir do primeiro instante em que nela surgem, distorcendo a percepção da realidade, gerando ignorância, insensibilidade e tormento interior. Por isso são objectivamente negativas, independentemente de qualquer doutrina moral ou revelação religiosa.
3. Um olhar desapaixonado e realista sobre o processo e a história da civilização humana, desde os seus primórdios até hoje, não pode deixar de constatar que tudo – a organização social, a ciência, a técnica, a política, a economia, a cultura, a educação e a religião - tem sido predominantemente movido pela ignorância dualista, o apego, a aversão e a indiferença, bem como por todas as suas combinações possíveis, com o resultado evidente, em termos gerais, de a humanidade até hoje sempre ter obtido precisamente o que mais rejeita, o sofrimento, e sempre haver falhado o que mais deseja, a felicidade: prova evidente de que o desejo-apego e a aversão resultam precisamente no contrário do que buscam. As únicas excepções a esta monumental ilusão e fracasso colectivo, habitualmente camuflado com os nomes de “progresso”, “evolução”, etc., são os seres que despertam e se libertam da ignorância dualista e das suas consequências mentais e emocionais: aqueles que nas várias tradições se designam como sábios, santos, etc., e que se consideram mestres espirituais quando à libertação individual acrescentam o amor e a compaixão de continuarem a agir para disso libertarem os outros.
4. Aplicada à questão das sociedades, das culturas, das nações e das pátrias, esta visão constata que nenhuma delas existe em si e por si, com uma identidade e características irredutivelmente próprias. Todas, pelo contrário, apesar de apresentarem singularidades em devir, nascem, vivem e morrem ou metamorfoseiam-se de acordo com as leis fundamentais de interdependência e impermanência que abrangem todas as dimensões do real. Com efeito, quem pode, por exemplo, pensar o que é Portugal separando a sua história e cultura das de todos (ou quase) os povos europeus, africanos, sul-americanos e orientais ? O conceito de identidade nacional é pois, tal como o de identidade pessoal - e sobretudo se pensado de forma essencialista ou substancialista - , uma mera abstracção que em última instância apenas funciona na lógica da ignorância dualista que predomina na mente humana.
5. Tal como acontece quando se extrema a bipolarização eu-outro, o extremar da suposta identidade cultural ou nacional como uma essência única, permanente e independente das demais, leva ao nacionalismo ou patriotismo que potenciam essa ignorância dualista e esses complexos de apego ao que parece ser próprio e de indiferença ou aversão ao que parece ser alheio que já vimos serem as causas fundamentais de insensibilidade, sofrimento e conflito para quem por elas se deixa dominar e para os demais. O nacionalismo ou patriotismo, levando a amar a sua cultura, nação ou pátria acima das demais, é pois injustificável e condenável em termos sapienciais e éticos, sendo incompatível com qualquer projecto de emancipação da consciência e de serviço do bem comum a todos os homens e a todos os seres.
6. Há todavia a possibilidade de se conceber e praticar uma outra forma, não de nacionalismo, mas de patriotismo, o patriotismo trans-patriótico e universalista, que apenas preze, cultive e promova, numa determinada tradição cultural e numa determinada pátria, aquilo que nela houver de melhor, ou seja, de aspiração ao bem comum universal, não só dos homens, mas de todos os seres. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que em última instância aspira a orientar as energias de uma dada nação para que progressivamente se superem todas as fronteiras e barreiras, primeiro mentais e afectivas, e depois institucionais e territoriais, entre todos os povos e culturas, de modo a que a comunidade humana possa expressar o mais possível a estrutura e as leis fundamentais da própria realidade: ausência de id-entidades com características intrínsecas, interdependência, impermanência. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que aspira a romper o círculo vicioso e infernal em que tem decorrido e decorre a história da civilização humana e a devolver humanidade e mundo ao Paraíso que em si intimamente encobrem. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o único que está de acordo com a milenar tradição sapiencial da humanidade e com a ciência contemporânea, convergindo para a verdadeira evolução que é a da consciência e para o verdadeiro progresso que é o espiritual, entendendo por tal o despertar da dualidade que permita ver e sentir o outro como a si mesmo e assim visar a emancipação mental, cultural, social, política e económica de todos os homens e o respeito por todas as formas de vida.
7. Este patriotismo trans-patriótico e universalista é o que encontro no melhor da ideia de Portugal e da comunidade lusófona que – depurada do lastro de muitos condicionantes - interpreto em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para apenas referir os mais destacados. Foi ele, embora ainda informulado e sem a fundamentação aqui apresentada, que inspirou o Manifesto da Nova Águia e a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL – Movimento Internacional Lusófono - , cujos textos iniciais redigi e dos quais oitenta por cento ou mais permaneceu nas versões finais. É apenas à luz do patriotismo trans-patriótico e universalista, como projecto fundamentalmente ético-espiritual e só a partir daí cultural, cívico e social, que considero fazer sentido a existência do MIL. Por isso, aliás, propus e foi aceite que as reuniões da Comissão Coordenadora do MIL começassem com alguns minutos de silêncio meditativo, em que cada um se comprometesse consigo ou com o que considerasse mais sagrado a não ter outro objectivo senão o bem comum de todos os seres. Não acredito, aliás, noutra possibilidade de transformação do mundo – a nível cultural, social ou político - que não se enraíze primeiro numa profunda transformação da mente que percepciona o mundo. A grande revolução futura e já presente, em todo o planeta, é a união inseparável da meditação e de todas as esferas da actividade humana, incluindo a económica e a política. Quando digo meditação refiro-me ao simples treino da mente para ver as coisas como são, para além da dualidade, do apego e da aversão, para além do medo e da expectativa, para além do passado e do futuro, no aqui e agora presente. Nada de místico, esotérico ou exótico e que não vem do Oriente porque a mais profunda cultura ocidental, clássica ou cristã, sempre o conheceu. É a redescoberta disso, mais do que qualquer ideologia laica ou religiosa, a grande novidade que cresce hoje como bola de neve em todo o mundo.
Digo e publico isto, no momento em que se prepara uma refundação do MIL, porque tenho hoje fortes suspeitas de que muitos ou a maior parte dos que aderiram a este movimento e nele têm responsabilidades não tenham percebido toda a dimensão do que nele é proposto. A começar por mim próprio.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
«A» máscara
Etiquetas:
arte,
ascese,
desejo,
Fernando Pessoa,
fotografia,
máscara,
medievalizar,
meditação,
Óbidos
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Etiquetas:
Buda,
eu,
existir,
fotografia,
meditação,
sabedoria,
saber-sabor,
sabor,
santidade,
saudade,
sensibilidade,
vazio,
verdade,
vida
domingo, 6 de abril de 2008

No 7º Simpósio Aquém e Além do Cérebro, Stefan Schmidt apresentou um estudo cujo resultado indicava os benefícios de meditar.
Lemos na Revista Visão que «Duas horas e meia semanais de meditação em grupo e 45 minutos diários individuais conduziram a melhorias de 180 pacientes que sofriam de dor crónica.»
«Quando a consciência está centrada no movimento e se aceita o que vem, cria-se um padrão de coerência cerebral que regula as emoções», diz o investigador.
Fonte: Visão, nº 787, 3 de Abril de 2008
quarta-feira, 12 de março de 2008
«dizia-me» uma música hoje:
a minha alma caiu,
partiu-se...
como um vaso vazio...
Etiquetas:
aqui e agora,
eu,
meditação,
sabedoria,
saber viver,
sabor,
vivências
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
A experiência do belo e do sublime
"Os homens preferem erigir estruturas mentais, elevar edifícios idealistas frágeis, em lugar de meditarem na sua natureza profunda..."
in O Budismo Tibetano, Edições Europa-América, p. 160.
Eu não sou um barra em meditação, mas gosto de, secretamente, pensar que sou. Aliás, não sou um barra em nada, mas gosto de, secretamente, pensar que sou um barra em tudo. A verdade é que, ao longo da minha vida, tive poucas, umas duas ou três, experiências que se enquadrariam naquilo a que vulgarmente se chamaria de meditação, como quando fechamos os olhos (sim, eu sei que se medita com os olhos abertos...) e tentamos atingir um estado transcendente, diferente do nosso estado banal. Diria que só uma dessas experiências terminou em bom porto, que foi quando me desliguei dos sentidos.
Mas tenho tido, e isto interessa-me mais, experiências que catalogaria de meditativas, que são quando experiencio o belo ou o sublime - na natureza ou na arte - e, num instante, como que magicamente, atinjo a tão almejada transcendência. Nem sei se "transcendência" é o nome adequado e diria que nem sei se existe nome para o estado que atinjo. É apenas um estado de prazer e de felicidade absolutos. Na verdade, por mais reles e doloroso que alguém se sinta, o belo e o sublime têm o poder de trazer os fantásticos resíduos de alegria, júbilo e felicidade que, sempre, a pessoa tem guardados algures no fundo de si.
Fora as balelas, acho mesmo que a contemplação (tantas vezes inesperada - é a melhor!) do belo e do sublime é a mais bela e sublime experiência que podemos ter. Particularmente, essa experiência pode desdobrar-se em inúmeros conteúdos... por exemplo, agora que penso, talvez a mais bela e sublime experiência para quem tenha filhos seja a de ver os seus filhos nascer; mas eu não tenho filhos... as mais belas e sublimes - para gastar as palavras - experiências que tenho são mesmo as da contemplação - ver, ouvir, cheirar, tocar, saborear - da natureza ou da arte, ou mesmo a sua recordação, ou o lugar para onde elas me levem. Paz.
in O Budismo Tibetano, Edições Europa-América, p. 160.
Eu não sou um barra em meditação, mas gosto de, secretamente, pensar que sou. Aliás, não sou um barra em nada, mas gosto de, secretamente, pensar que sou um barra em tudo. A verdade é que, ao longo da minha vida, tive poucas, umas duas ou três, experiências que se enquadrariam naquilo a que vulgarmente se chamaria de meditação, como quando fechamos os olhos (sim, eu sei que se medita com os olhos abertos...) e tentamos atingir um estado transcendente, diferente do nosso estado banal. Diria que só uma dessas experiências terminou em bom porto, que foi quando me desliguei dos sentidos.
Mas tenho tido, e isto interessa-me mais, experiências que catalogaria de meditativas, que são quando experiencio o belo ou o sublime - na natureza ou na arte - e, num instante, como que magicamente, atinjo a tão almejada transcendência. Nem sei se "transcendência" é o nome adequado e diria que nem sei se existe nome para o estado que atinjo. É apenas um estado de prazer e de felicidade absolutos. Na verdade, por mais reles e doloroso que alguém se sinta, o belo e o sublime têm o poder de trazer os fantásticos resíduos de alegria, júbilo e felicidade que, sempre, a pessoa tem guardados algures no fundo de si.
Fora as balelas, acho mesmo que a contemplação (tantas vezes inesperada - é a melhor!) do belo e do sublime é a mais bela e sublime experiência que podemos ter. Particularmente, essa experiência pode desdobrar-se em inúmeros conteúdos... por exemplo, agora que penso, talvez a mais bela e sublime experiência para quem tenha filhos seja a de ver os seus filhos nascer; mas eu não tenho filhos... as mais belas e sublimes - para gastar as palavras - experiências que tenho são mesmo as da contemplação - ver, ouvir, cheirar, tocar, saborear - da natureza ou da arte, ou mesmo a sua recordação, ou o lugar para onde elas me levem. Paz.
Etiquetas:
belo,
consciência,
meditação,
sublime
Subscrever:
Mensagens (Atom)


