O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


BOA NOTÍCIA

a nossa TAP
conseguiu este ano transportar mais de
10 MILHÕES de passageiros

garantia
de que
o país pode ser abandonado
- de avião -

em menos de
UM ANO

já devemos ser
menos de 10 MILHÕES

ELIXYR

a marca de tabaco de enrolar que compro
após CINCO ANOS SEM FUMAR

AVISO EM LETRAS BEM VISÍVEIS
:
"FUMAR PREJUDICA GRAVEMENTE A SUA SAÚDE
E A DOS QUE O RODEIAM"

noutro ponto da embalagem
:
"os MENORES não devem FUMAR
(repare-se na delícia de marketing)

TABACO DE ENROLAR"

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


CONSTATAÇÃO

não é com lágrimas
nem flores
nem com poemas

nem com coisas
tão pequenas

que se conquistam
AMORES

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Portugal. Natal 2012

No Natal
Dorme na rua
desagalhado
Pede a Deus
Uma noite de calor


Na minha infância o Natal era tropical, feito de chuva e calor. Em casa, um bonsai replicava um pinheiro ancião. Mil passarinhos feitos de papel manteiga, vestiam-no de branco, inventando o inverno. Naquele pedaço de mundo, a neve era tão quente como o nosso coração.
Só muitos anos depois é que eu soube que o bonsai é planta que cresce presa. Cria raízes no sofrimento. Modificada, ganha a dimensão da natureza numa bandeja.  Mil passarinhos vestiam o nosso pinheirinho desejando longa vida. Como o nosso bonsai, os tsurus viviam para além dos dias. Memória dos nossos corações de criança.

Um sorriso
simula um abraço
a quem na rua
tem o seu abrigo.

Quando me contaram que o Pai Natal não passava de um conto de fadas, entendi o meu desconforto. Tantos anos a entrar pelas chaminés, com renas e neve, sempre no mesmo dia, em todos os lugares do mundo, beneficiando uns e esquecendo outros. Pedi então, que Deus existisse, mesmo que eu não soubesse como, porque nos dias difíceis só ele poderia me valer.

uma mãe deu à luz
uma criança sem casa
Não houve Reis Magos
a proteger a cria

Em cada esquina encontro uma luz que se apaga, dando conta do tempo que vivo. Mais um amigo sem emprego, mais uma criança com fome. Em cada cada esquina, padeço de tristeza, porque o Natal hoje, em Portugal, é tão mentiroso como o Pai Natal.

Possa o meu coração ser suficiente para aquecer a criança que acaba de nascer.

domingo, 2 de dezembro de 2012


MANHÃ LINDA
de DOMINGO

cara lavada
perfumada
depois de madrugada fria
de geada

horizontes largos
até ao Castelo de Évoramonte
- límpida como esta
quinta Sinfonia

manhã linda
de DOMINGO

cedo saída à rua
- soquetes cor-de-rosa
lacinho azul na cabeça

para a gente
lhe tirar
a fotografia

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A new moon's rising

I have seen you countless times before, 
Yet tonight I sit in my veranda, 
Waiting for but a glimpse of you, 
Never this excited for the moon, 
Never acknowledged, 
Yet every night you light my night, 
Quietly silently you pray, 
For me to look at you, 
Each night I never did, 
But tonight I sit for you in wait, 
Then you show me your majestic beauty, 
Your aura reflecting a thousand colours, 
Colours I have never seen, 
 I sit looking at you in awe, 
Within seconds you disappear, 
Playing an eternal game of hide and seek, 
I kept searching the night sky for you, 
You no longer displayed your beauty, 
 Now you will return when I watch the sky no more, 
Making me realise that the moon 
I had never seen before. 

Qudsia Pervez

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

do CORREIO DA MANHÃ(ao amigo PAULO BORGES - visceralmente anti-tourada)

(cavaleiro tauromáquico de Benavente apanhado pela Polícia por ter passado nota falsa)

:
TENDO A ESTRADA POR ARENA
NUMA FAENA MODERNA
SAIU-LHE A SORTE PEQUENA
- ESPETOU A FARPA NA PERNA

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


CREPÚSCULO NA RUA  II

tarde escura de outono
a cidade está cheia de gente

toda ela de escuro

a luz ainda apagada

esta tarde de outono
é um muro

de azinhaga

domingo, 11 de novembro de 2012


AHORA

solidão não é estar-se só
é só estar-se

estar por estar

e tantas vezes isso acontece
com quem se julga
estar
acompanhado

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

LENGA-LONGA (para ensinar aos meninos)

ganga----->canga------> tanga

eis a que nos leva 
levou

esta tronga
TROIKA
fandanga

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Children of the sun



We are ancients 
As ancient as the sun 
We came from the ocean 
Once our ancestral home 
So that one day 
We could all return 
To our birthright 
The great celestial dome 
 We are the children of the sun 
Our journey's just begun 
Sunflowers in our hair 
We are the children of the sun 
There is room for everyone 
Sunflowers in our hair 
Throughout the ages 
Of iron, bronze, and stone 
We marvelled at the night sky 
And what may lie beyond 
We burned offerings 
To the elemental ones 
Made sacrifices 
For beauty, peace and love 
We are the children of the sun 
Our kingdom will come 
Sunflowers in our hair 
We are the children of the sun 
Our carnival's begun 
Our songs will fill the air 
And you know it's time 
To look for reasons why 
Just reach up and touch the sky 
To the heavens we'll ascend 
We are the children of the sun 
Our journey has begun 
All the older children 
Come out at night 
Anaemic, soulless 
Great hunger in their eyes
Unaware of the beauty 
That sleeps tonight 
And all the queen's horses 
And all the king's men 
Will never put these children back 
Together again 
Faith, hope, our charities 
Greed, sloth, our enemies 
We are the children of the sun 
We are the children of the sun 

in Anastasis, por Dead Can Dance

A 24 de Outubro de 2012, os Dead Can Dance, fizeram a sua aparição, pela primeira vez em Portugal, na cidade do Porto, para uma apresentação musical que para sempre perdurará na memória dos que estiveram presentes. Como diz Ariana Ferreira, ''Se a música não gozasse de um estatuto de eternidade tão maior ou tão poderoso quanto o do cinema ou da literatura, no epitáfio dos Dead Can Dance, datado de 1998, ler-se-ia: ''Aqui jaz um dos mais inventivos projectos de culto da actualidade, que se distinguiu pela fusão entre a música de época, cânticos de influência gaélica e médio-orientais, e a música electrónica, sem nunca descurar uma estética visual muito particular e cuidada.'' Apontamento de reportagem, Aqui.


Minha cara não é feia
Minha mão não tem peçonha
Se eu não me casar
Não é uma pouca vergonha?

Sempre achei que esta era a estrofe seguinte ao poema da batatinha. Depois do jantar, meus pais sentavam-se no sofá da sala de estar e esperavam que eu recitasse. De frente para eles, enquanto declamava passava minhas mãos pela cara, abria os braços e perguntava convicta:
-       Se eu não me casar não é uma pouca vergonha?
Então, meus pais batiam palmas e eu tinha a certeza que eles gostavam de mim.
Podia dormir descansada, porque em todos meus sonhos, os príncipes existiam como nos contos de fadas.
O Visconde de Sabugosa, a Emília, o Pedrinho e a Narizinho eram meus fieis companheiros. De dia ou de noite, bastava cheirar o pó de pirlimpimpim, que ganhávamos asas para outras viagens. As madrastas feias eram derrotadas e o mundo podia voltar a sorrir.
Quando aprendi a ler, a minha professora deu-me um livro francês, que contava a história de uma baleia azul. Escreveu uma dedicatória dizendo que um dia eu também poderia contar histórias. Durante muitos anos, folheei o livro, adivinhando a história através das imagens.
Ficou a vontade secreta de que um dia eu escreveria numa língua em que todas as crianças do mundo reconheceriam. Uma língua que não precisaria de tradução, porque os sons seriam amigos. Abraçariam o coração, fariam cócegas no corpo , ririam e chorariam na cadência das histórias bonitas.
O livro da baleia azul ainda mora comigo.  Sei de cor a sua história. Corre pelo meu corpo, agora,  a caminho de outra infância.

Batatinha quando nasce
Espalha a rama pelo chão
A menina quando dorme
Põe a mão no coração
     ...
Se eu não me casar
Não é uma pouca vergonha?

No final da primária, senti uma dor aguda chamada despedida. Eu iria morar longe e nenhum dos meus amigos, nem daqueles por quem eu estava apaixonada seguiriam comigo.  O pó de faz de conta, não acalmou a dor.
Na varanda, deitada na rede, ouvindo o mar eu cantava baixinho:

Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor
Por isso eu não quero lembrar quando partiu meu grande amor
Ai, ai, ai ai, ai ai ai,está chegando a hora
O dia já vem raiando, meu bem, eu tenho que ir embora

O meu amor eram tantos que juntos eram só um, e era tão intenso o que eu sentia que meu pai ensinou-me que esse vazio tão cheio se chamava saudade.

Disse ainda que umas vezes dói, outras acalma por dentro e nos faz sorrir.

Foi assim acolhendo o dia que aprendi a gostar do tempo que nasce e morre em cada manhã, como se fosse o poema que um dia prometi escrever numa língua em que todas as crianças entendem. Não tem gramática, nem acordos. Conjuga todos os verbos no presente sempre na primeira pessoa do plural, porque nela nos reconhecemos todos.

Enquanto minha mãe toca piano, meu pai ensina-me outro poema.
Este, que mora no intervalo de cada palavra esquecida.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012


CHUVA

ela aí está

primeiro suave
macia
leve como se fosse neve
suspiro de pássaro

andar subtil de gato

no telhado

logo engrossa
e ganha o ritmo
e o som
de trote
de galope
de cavalo

sem cavaleiro
que consiga
dominá-lo

chove
a galope

terça-feira, 23 de outubro de 2012


IMPÉRIO DOS SENTIDOS


trago os sentidos despidos
como vieram  ao mundo
são por isso mais sentidos
mais sensíveis quase a tudo

ao velho Sol se aparece
por detrás do nevoeiro
aos prados quando ele aquece
ao olfato  aos sons aos cheiros

despidos como mendigos
coitados sem agasalhos
felizes se andam comigo
por veredas e atalhos

sem roupa trago-os na pele
com eles às vezes brinco
chamando cada um deles
sendo eles bem mais que cinco

há o sentido da esperança
já velho sem ter idade
um morno - da temperança
que embirra c´oa liberdade

o sentido da Justiça
tão maltratado por vezes
traja a rigor e cobiça
a esperança dos portugueses

há muitos destes sentidos
mais que olfato e paladar
tato visão e ouvidos
que é preciso despertar

sábado, 20 de outubro de 2012

À MEMORIA DE MANUEL ANTÓNIO PINA

olha que fazer agora?
nada

deixas órfãos
os teus amigos gatos
e algumas - muitas - folhas de papel A4
viúvas
da tua esferográfica

e agora Manuel já deves estar
na casa do destino

trata de puxá-lo
pela aba do casaco
e admoestá-lo
:
já viste o que fizeste
meu menino?
na morte de Manuel António Pina
:
não chegar
não implica
nunca se ter partido

bem como expirar
não é o mesmo
que não se ter nascido

( sujeito a revisão - reação a quente à notícia do eterno frio)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012


PROFESSOR - EU?

não sou mas tenho pena
:
ensinar-te caminhos
veredas e atalhos

mostrar-te flores e fontes
e o céu quando o sol se esconde

e o arco-iris quando ameaça chuva
e o segredo
como se fosses criança

de onde ele toca o horizonte

domingo, 16 de setembro de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012


PALAVRAS

FALA cria
solta as asas
das palavras

escrita
prende-as

voltam a soltar-se

com energia redobrada

quando alguém
as lê

DECO (R) TE

teu decote
na blusa
no vestido

mostra o recorte
do rego
dos teus seios

em Y
inverttido

domingo, 9 de setembro de 2012

B I C I C L E T A

alegria secreta
contida em duas rodas
dois pedais
uma corrente

um volante

quando se pedala
caramba
a bicicleta sente
que a força que a embala

mais do que
de gente
é de gigante

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


como os tempos vão

mais vale
péssima transcrição

do que belíssimo original
exemplar
de criação

Pêlo sim

pêlo não........

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O maior medo que cada um de nós consigo transporta é o medo de si mesmo

O maior medo que cada um de nós consigo transporta é o medo de si mesmo, o medo dessa região tenebrosa ou sombria dissimulada atrás de cada um dos nossos instintos, emoções, pensamentos e sentimentos, o medo desse pouco confessável ou ignoto território que, por falta de coragem para o afrontarmos face a face, nos condiciona numa contínua fuga para diante de onde resulta toda a avidez e violência, mas também todas as aparências de virtude e santidade, todos os disfarces de amor e compaixão, todos os projectos de salvação universal, com que impregnamos e iludimos o mundo, a começar por nós mesmos. É nessa treva ou sombra que se oculta o infinito luminoso que somos, o fundo comum e os confins sem fim de todos os seres e coisas. Ter a coragem de atravessar e iluminar essa floresta escura, com mais monstros do que todas as mitologias planetárias, numa jornada solitária e nua, sem armas, escudo ou armadura, com o propósito de libertar o universo da nossa ignorância e um dia regressar para incitar os outros à mesma empresa, é a maior realização a que podemos aspirar. Comparada com ela, a história das civilizações, as conquistas tecnológicas e as viagens espaciais são meros e fúteis jogos de crianças adultas.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

a casca da laranja
que toda a gente tira

será que para alguns
é
laranjerie?

o quê
você 
não ri?
PARA CHRISTIANA NÓVOA
(ler/ouvir em " NOVOA EM FOLHA")

este seu poemar
está dentro 
do meu estilo

uma espécie
de (en)cantar

quando o poeta veste
asa-
de-
gilo

sábado, 18 de agosto de 2012


SEMIÓTICA

camiseta de verão
sem o jacaré
não é que seja menos bela

mas é
como automóvel MERCEDES
sem a estrela

barco à vela
sem a vela
cão sem a coleira
ou sem a trela

camiseta de verão
sem o jacaré

não é

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Relincha quando a raiva, toma conta da palavra. 
Coisas da vida que nenhuma escola ensina. 
Na estrada, um eucalipto, desfaz o asfalto. 
Na vila, uma escola vai ser encerrada. 
Tempos ausentes, perdidos no tempo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


SUICÍDIO

sacanas de mosquitos

embebedam-se de mim
saem pelos ares aos tombos
envenenados
a voar

aflitos

terça-feira, 7 de agosto de 2012


FÁBRICAS


não damos por isso
:
somos imparáveis produtores
de outputs
:
fezes e urina
esperma
suor lágrimas
cabelos unhas

LIXO
a Via(gem)
 
em toda a partida se reúne e realiza
a verdade primeira e última do Início
na fundura das impossíveis vagas se cura
a ferida do eterno retorno.

HIERARQUIA  DO CONHECIMENTO
:

- empírico

- científico

- filosófico

- poético (de revelação)

domingo, 5 de agosto de 2012

Águia Cobreira

 

Nas noites quentes de verão, Robin desenha a lua no pátio. Em silêncio conta as estrelas. 

- Vou pedir à 'águia cobreira' que me leve até ao céu. Quando chegar no limite das nuvens, salto entre as estrelas cadentes até conseguir encontrar uma que me abrace. De longe verei o mundo pequenino. Os homens que hoje me assustam serão tão minúsculos que não me perturbarão mais. Vou canta
r alto de braços abertos e dançar como se o céu fosse parte de mim. Entre as nuvens serei mais uma que se dilui na chuva, até ser nuvem de novo. Nas noites frias escondo-me do outro lado do mundo onde o sol vive todo ano. Se a saudade apertar meu peito, desenho um poema até que a dor seja apenas a lembrança do sofrimento.
De vez em quando, peço à 'águia cobreira' que me leve ao oceano e fique comigo até que eu canse meu corpo e queira regressar ao céu antes do sol raiar.

- Este ano a águia não apareceu. Tens de esperar que o mato seja aparado e as cobras fiquem a descoberto. A águia precisa de as ver à distância. Voar com destreza até que as cace inteiras. Umas são vermelhas e pretas, outras tão verdes que nem a cobra as distingue. Quando a terra estiver castanha elas mudam de cor. Temos de cortar o mato, descobrir as cobras, antes que elas nos mordam as pernas e nos envenenem por dentro.

- A águia vai aparecer. Faz parte da vida dela, esteja o mato aparado ou não. Por isso é a águia cobreira. Depois quando o perigo não for senão o perigo, voarei com ela…

- Anda agora, que a noite é quase manhã e a águia foi-se deitar. Amanhã aparo o mato, dou-te um abraço apertado, escuto teu coração e te beijo com amor, para que possas voar em liberdade…

Nas noites de lua cheia choro a saudade que tenho dele. Não sei se foi a águia que o levou, se foi o mar que o abraçou.

Nota: A expressão 'águia cobreira' foi inventada por um amigo pequenino de 6 anos, que me explicou que ser uma águia que caça cobras.

domingo, 29 de julho de 2012

sábado, 28 de julho de 2012


Quando a árvore descansa
Da tempestade.
Meu homem sai para o mar
Salga seu corpo
floresce  em mim


Na vila onde nasci, os pescadores cantavam enquanto puxavam a rede.
No equinócio de Março, o mar dançava todos os dias. As sereias descansavam e os homens ficavam a salvo. As esposas agradecidas, bordavam as ondas até o sol cansar e deixar a noite tomar seu lugar.
Nas noites quentes os filhos eram semeados com amor. Do mar vinha o peixe, do campo, o arroz a decorar o prato. Da vizinha do lado, o sorriso e um bom dia a dar conta da vida.
Na vila onde nasci, os olhos viam na noite escura. Abrigavam no corpo todos os corpos. Abraçavam até que o coração encontrasse o de todos e desenhasse um sorriso no rosto.
Na vila onde nasci, um dia,  um homem  perdido de dor, incendiou-nos o corpo.
Nada restou, do lugar, onde vivi, senão a canção que a eternizou.

Venho de longe, de um mar que desconheço
Onde o homem mata tudo que nasce
Os beijos são veneno
E os abraços faca afiada

Que febre é a tua, amor
Que não te reconheço

Venho de uma terra perdida
Morta de morte matada
Seca, sem água
Vermelha de sangue

Que febre é atua , amor
Que te perco

Os meninos vivem na rua
Abandonados,
Os homens
Sozinhos, sem casa
Morrem de frio e fome
O sangue desenha o chão
Do animal assassinado.
Venho de uma terra perdida
Que me envenenou a vida

Na vila onde nasci,
um homem perdido de dor,
 incendiou a vida.


Na cidade onde vivo,
há listas negras
de pobres endividados.
Ninguém vê na noite escura.
Nem semeia o amor suado.
Nesta cidade de luto,
os homens do povo
Vagueiam perdidos na rua.
De dia e noite, reza o  verbo
Do débito e do crédito
E por mais que se pague
Continuamos devendo.

De onde vens amor
Que te perco!

Quando a tempestade
Seguir caminho
E a árvore puder descansar
Vou deixar que o homem
Salgue meu corpo
Até que ele seja de novo semente