O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de um 2012 radical

Amigas e Amigos, venho desejar-vos o melhor Ano de 2012, com tudo aquilo que de melhor desejam, para vós e para os vossos, mas sobretudo com tudo aquilo que quase nunca desejamos, que nem sequer imaginamos e que acima de tudo necessitamos: sermos rebeldes contra o ego, não o mimarmos mais e não lhe satisfazermos os caprichos; não nos queixarmos tanto dos outros e do que está mal, mas sobretudo da nossa preguiça, conformismo e indolência pacóvia, dos nossos compromissos com isso mesmo que criticamos no mundo e nos outros; não dormirmos na cama e na vida enquanto biliões de seres humanos e não-humanos, tal como o planeta, estão a ser explorados e destruídos para satisfazer os nossos hábitos burgueses de consumo e abundância; não continuarmos sempre à espera que alguém tome a iniciativa de fazer o que é justo, enquanto comodamente nos demitimos do potencial herói que somos; não amarmos apenas quem nos ama e acarinha, num comércio de afectos, mas abrirmos o coração a todos os seres, mesmo que a nossa ignorância os faça percepcionar como indiferentes, maus ou inimigos; não separarmos mais acção e contemplação, espiritualidade, ética, cultura e política, pois tudo são aspectos complementares do ser integral que somos; não sermos sempre iguais, mas termos a ousadia de ser outros, criativos, libertando o infinito e o universo que trazemos em nós. É isto e muitas mais coisas, nestas contidas, que vos desejo. Fundamentalmente que nos libertemos de tudo o que nos prende - antes de mais nós próprios - e que transmutemos deuses e demónios interiores em Golpe d'Asa de consciência amorosa, compassiva e desperta!

Desejo-vos o que me desejo, pois bem disso careço: Revolução interior, abolição da ficção do ego, explosão de amor e compaixão por tudo e por todos!

Só assim faremos a Diferença e seremos a Alternativa que este fim de ciclo de civilização pede de todos nós. Só assim seremos credíveis obreiros de um Outro Portugal, uma Outra Europa e um Outro Mundo, em nós erguidos das ruínas deste canto de cisne tecnocrático, economicista e financeiro, que esgota todos os balões de oxigénio da natureza e da Vida.

Conto encontrar-vos, com espírito não-violento, pacífico e positivo, na manifestação de 10 de Janeiro, às 18.30, no Rossio, em Lisboa, contra a venda da EDP, mas sobretudo a favor de ética na política. Uma manifestação que não é contra os chineses nem contra ninguém, mas acima de tudo contra a nossa apatia e a favor de uma nova sociedade e civilização, fundada na consciência, no amor e no respeito por todas as formas de vida.

Bem hajam!

votos para 2012


Feliz Ano Novo

sábado, 24 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

BOM NATAL a todos
mesmo ao multimilionário RICARDO DIMAS
e a todos os milionários do mundo
que conseguiram fortuna pelos seus métodos

BOM NATAL também ao José SÓCRATES
e ao deputado da atual Assembleia da República
que desejava felicidades a todos os emigrantes
à exceção
do que tinha emigrado para Paris
para estudar Filosofia

BOM NATAL aos norte-coreanos
que ainda agora hão de chorar
a morte do seu GRANDE CHEFE Kim Jong II
mais do que todos os cristãos
alguma vez choraram a crucificação de CRISTO

e acreditam na sua santidade
pela neve e trovoada que tombaram sobre Pyongyang
no decurso
das exéquias funerárias

e porque as águas de um Lago sagrado se cindiram
e porque uma montanha rochosa enorme
num minuto se tornou urbano montículo de lixo

BOM NATAL a todos os católicos
que acreditam que Jesus subiu aos Céus ressuscitado
libertando-se de um pesado inviolável túmulo de pedra

e aos muçulmanos todos
para quem Maomé também subiu aos Céus
chegado aí cavalgando a sua pura égua Kamsa

BOM NATAL aos Budistas todos - adoradores do gorducho e sempre sorridente Buda
aos hindus de Brahama
e de seu TRIO
aos crentes em todas as Tríades da História
:
- triunviratos
- trindades
- adoradores da própria TROIKA

BOM NATAL aos animistas todos
aos que adoram o Sol o Sado e os golfinhos
mas também as menos simpáticas taínhas
dos cais de Setúbal e de Troia

Bom Natal aos chineses que nos invadem o Comércio
e aos que não emigram e ficam por lá
a construir barragens e a semear os campos
e a ganhar dinheiro
para nos comprarem as nossas EDPs

aos que cultivam o ópio no Afeganistão
a coca na Colômbia no Chile no Perú
cannabis em Marrocos Argélia África por inteiro

até nos quintais de Albufeira
ou onde reste uma leira de terra das couves e dos nabos

BOM NATAL a todos os drogados
e a seus familiares a vida inteira de ressaca
sem alguma vez terem experimentado a droga

BOM NATAL também aos traficantes
e aos dealers
e aos barões que têm os filhos a estudar em Londres
e nas melhores Universidades da América
e têm apartamentos no Dubai em que todos os metais
para uniformizar são ouro

BOM NATAL aos que produzem toda a droga
arriscando a vida porque eles próprios são pobres que nem JOB

aos mineiros que escaparam no Chile do fundo de uma mina
e a todos os milhares de milhares de companheiros
que esgaravatam a terra com perícia de toupeiras

BOM NATAL a todos os que têm casa nos 5 continentes
mas também áqueles
para quem o cemitério será
sua não última mas primeira moradia

se me permitem - aos SEM e CEM abrigos

BOM NATAL a todos os com defeitos físicos
aos invisuais
porque não conseguem ver
mas também aos cegos
que não vêem porque não lhes agrada ver

aos acamados aos doentes terminais
às enfermeiras e aos médicos
aos que trabalham e aos que estão em greve

aos que acreditam
que houve Jesus Cristo filho de Deus e de Maria
que foi menino
e nasceu mesmo neste dia 25
ou teria sido 24?
há 2011 (ou serão 2012?) anos

mas sobretudo um BOM NATAL
aos que mesmo não acreditando em nada disto
são bons
e honestos
e justos
e solidários
e pacíficos
e simples

capazes de todos os milagres
como se fossem CRISTO

penhamata

no imo do cimo o magma da penhamata
emana, irmana o perfume de cedros e montanha
na pele as rosas e os musgos,
o fado a chama, a chamada
os melros, os cerros, e a montada
na lunação do véu uiva a aurora,
a sede, acende, ascende, nascente.

Mensagem de Natal

Caras Amigas, Amigos, Indiferentes, Desconhecidos, Adversários e Inimigos

Há cerca de três anos não conhecia sequer os blogues e o Facebook. Circunstâncias várias aqui me trouxeram e, sobretudo o meu envolvimento com o PAN, fez com que no Facebook rapidamente me visse a gerir várias páginas e com uma comunidade de muitos milhares de amigos e apoiantes. Nesta passagem das actividades mais espirituais e culturais a uma acção mais pública, em prol de causas que de todos são conhecidas - direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, universalismo cultural e diálogo inter-religioso - , tenho feito muitas amizades e diminuído ou perdido outras, o que tem sido raro. Tenho também encontrado adversários e até inimigos, como é natural. E muitos indiferentes, como também é natural.

Seja como for, nesta véspera de Natal, em que se comemora, consciente ou inconscientemente, a possibilidade de em nós nascer um Homem Novo, quero desejar a todos, e mesmo a todos - pensem, digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem e gostem ou não de mim e do que penso, digo e faço - , toda a Felicidade do mundo e agradecer-vos por vos conhecer e pelo privilégio de partilhar convosco a aventura desta existência. Digo isto sobretudo aos meus adversários e inimigos.
Quero também dizer-vos que vejo hoje confirmar-se o que desde criança pressentia: que iria assistir a grandes coisas e a grandes mutações na história do mundo e que iria ter parte activa nelas. Estamos na verdade num momento dramático, crucial e decisivo da história de Portugal, da Europa e do planeta, em que somos confrontados com grandes dificuldades, a maior das quais é a de enfrentar as consequências da devastação que a humanidade tem causado na Terra, nos animais e em si mesma, bem como o novo obscurantismo que sobre todos nós se abate, sob a forma da ditadura económico-financeira de um capitalismo selvagem sem quaisquer princípios éticos que visa reduzir a população mundial a um novo exército de escravos ao serviço da avidez e ganância das forças obscuras que se ocultam por detrás de governos e partidos do poder. Isso é mais imediatamente evidente em Portugal, um país e uma cultura milenar de gente boa que está a ser destruído por sucessivos governos, a ser ocupado pela banca mundial e a ser colonizado por potências obscuras como a China.

Cabe-nos a todos sermos Resistência e Alternativa, criar práticas culturais, sociais e económicas que sejam o embrião da sociedade futura, construir a ponte entre uma civilização que morre e outra que aflora à luz do dia. Para tal somos todos necessários: movimentos de cidadãos, forças políticas e culturais independentes do poder estabelecido e que não visem mais do mesmo, indivíduos conscientes. Temos de nos unir, organizar e agir. É necessário inverter o processo que tem afastado da política as pessoas boas e competentes, com princípios e valores, com sentido do bem comum, para a deixar nas mãos dos medíocres, corruptos e vendidos a quem mais lhes paga. Política haverá sempre: se não queremos ser vítimas dela, temos de a exercer em prol da justiça e arrancá-la ao domínio dos grupos económico-financeiros. Não nos espera tarefa nada fácil, dado o poder e a violência das forças da ignorância e da ganância que se abatem sobre humanos e não-humanos e devastam a Terra. Temos todos de nos superar, indo buscar energias que agora desconhecemos, mas que são desde sempre e já presentes no mais íntimo de quem somos. Muitas tentações surgirão, como a de desistirmos, nos acomodarmos e dividirmos. Vencê-las-emos se nos motivarmos pensando no socorro dos que mais sofrem e na importância de assegurarmos um futuro para a Terra, para os nossos filhos e netos, esquecendo fins e interesses pessoais, de modo a que possamos morrer com a consciência do dever cumprido. Só assim seremos a Diferença e brilharemos, sem orgulho, como um relâmpago eterno na mais escura noite. Só assim assumiremos as grandes responsabilidades que nos esperam, estrelas cravadas no firmamento das nossas vidas.

Beijo-vos e abraço-vos, uma a uma, um a um

Boas Festas!

Que nasça Hoje e Sempre em nós uma consciência ética universal, que nos leve apenas a pensar, dizer e fazer o que vise o Bem de tudo e de todos, humanos e não-humanos!

Paulo Borges

24.12.2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

PENSAMENTO ENROLADO
:
todos os advogados
de não humanos
são do Diabo

Deus - para quem existe -
não faz mal

não precisa por isso
de advogados

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Criatura



A criatura tem um sol, tem uma sombra
dentro de
 si.
                                                       





Bárbara Damas

EUFEMISMO

SITIADOS

Livres
- aos abraços
de braços
amarrados

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Entre a mesa e a janela, mora teimosa uma parede amarela. 
Procuro o ponto de fuga. 
Desenho o luar em cada noite escura. 
Despeço-me do sol. 
Na monotonia do amarelo, deito-me e sonho 
com o mar que caminha para a montanha,
até que a terra encontre o céu e o azul tome conta da cor.

Descubro no gesto o sentido.

Entre a mesa e a janela, da minha casa
Mora teimosa uma parede amarela
Cansada, debotada na cor,
Delicada, encosto meu corpo
Apoio no ombro a vontade de ser
Abro a janela, abraço a liberdade.

No horizonte - vida.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

NOÇÃO DE POEMA

mais do que Ciência
ou Filosofia
ou Religião
Poesia é síntese

no bom poema
de três linhas
devem caber a Origem das Espécies
a República
o Talmude
a Bíblia
o Alcorão

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

...

para um poema de Platero
OBRA-PRIMA

as volutas artísticas
labirínticas do ouvido
são a prova real

de que Deus se tenha divertido
na construção
do seu último animal

domingo, 27 de novembro de 2011

você
que há tanto tempo não me vê
que em mim não crê

que me deslê
que sei que não gostou
que eu fosse
à manifestação
da CGTP

você
que sempre teve e tem
por mim algum desdém

saiba porém
que aquilo em que muita gente crê

-com ou sem amor
seja ele o que for -

você
é o meu ponto
G

domingo, 13 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

banquete filosófico: do amor platónico (e de outras coisas que nos fazem suspirar)


2500 anos depois, regressa o Symposium
«Para alguns intérpretes, o conceito de amor em Platão em O Banquete é irracional e explicado pela natureza.»
e para si, o que é o amor?
 
venha partilhar connosco. garantimos boa disposição e um menu confeccionado pelas mãos do grande chef José Besteiro.
+ info: joebest@dacozinha.net

NÃO DUVIDO

sou bem mais visto
pelo que visto

do que pensado
pelo que penso

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O mundo é como a impressão deixada pelo contador de uma história. 
SONHO


como se morto
mas não morto
estendido sobre a cama
teu corpo

meio dobrado pela cintura
de borco
sobraçando em sonho
seu eterno
ursinho de peluche

velado até às ancas

lembra o fim do pesadelo
do GRITO
de Eduardo MUNCH

"When injustice is law, resistance is duty" Thomas Jefferson


Falta pouco até que todas as capitais se juntem numa só marcha

Pelo Respeito e pela Verdade! O nosso conhecimento jà é demais,

Vemos pelos satélites quanto custou o que voces deitam fora

Que nós poderiamos provar de bom grado, e saborear juntos, se

Nao tivéssemos de nos agarrar ao emprego de que nao gostamos!


Mas nao somos preguicosos nem nunca seremos mentirosos!

Podem ficar com vossos iates e vossos aquàrios em quarentena

Longe da presenca de pessoas normais cujas maos vos dao,

Indirectamente, de comer, enquanto là especulam nós festejamos

Com o emocionalmente necessàrio de que precisamos para ser felizes!


Jà vos demos décadas de chances para sairem desse buraco negro

Porque sabemos tudo que sempre se tem passado, mas parecem nao

Querer ouvir que estao errados e existe honestidade neste mundo

Que usa o coracao como arma para defender a imortal alma humana,

Em vez da vossa infantil ganancia presuncosa dum estatuto jà podre!


Nao existem ofertas à vista, sò promocoes para enganar ceguinhos

Que là se deixam escravizar esperando as proximas eleicões – Eles

Atè do lixo dos supermercados nos fecham à chave, com lixivia ou

Vidros espalhados como presente de Natal para enregelares sem

Telhado onde chorar as misérias que o despedimento te faz passar!


Foi jà à muito esquecido o que diziam que tinhas tanto jeito para fazer,

Tiveste de crescer, trabalhar para ajudar a familia, sacrificar talento

Pela elite que os economistas alimentam como se fosse direito feudal,

Trocar neo-liberalismo por ética pessoal e ver-se consumido pelo bicho

Acumulativo, dinheiro-dependente, mandando outro milhao para a veia!


Nós culpamos o sistema como se este nao fosse comandado por pessoas

Que se maltratam e se burlam pelas hipócritas costas mal querem e podem,

Cobaias dentro do mesmo obscuro jogo egoista por lucro e mais-valia,

Brincando com o escalpe das nacoes e as reformas dos nossos pais por

Algum orgulho obtuso de ser o perverso que quer sempre ficar por cima!


Fui e voltei das compras, està tudo mais caro e todos perguntam porque?

A lei dos politicos è devota aos bancos que definem a mesada dos paises!

Queria sonhar com bombas que matem só aqueles que nao sabem partilhar

Porque nunca precisaram, era o mordomo que ia às reunioes da escola,

Nunca conheceram a visao de uma migalha de pao servir de refeicao…


…mas conhecerao! Jà que nada faz sentido e o ouro foi trocado por papel,

Quero que roubem, que se manifestem, que recusem cada injustica diaria

Tal como a militarizacao da vossa liberdade imbuida na iliteracia da policia

Que em vez de proteger, persegue, e em vez de servir, manipula e decide!


O amor da maioria jà cintila por revolucao, independencia e bom senso!

Basta de gozarem e escarrarem nas esperancas dos que vos fazem ricos,

Ouco os passos mortiferos do cadafalso aproximarem-se silenciosamente

E imparàveis por serem protegidos pela Razao e guiados pela Vinganca!

Joao Meirinhos

Outubro 2011

Tallinn


domingo, 30 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011



E é o mar que traz o futuro momento
Em que a onda se desfaz onde outra enrola o vento
Chega ao eco contínuo do presente, esse som
bebido na babugem do instante.
Frente ao mar, dando às costas da areia
o pensamento infante, sopra o tempo.

O olhar é um ciclo bretão ou um cantar de amigo
Um líquido sussurro, uma doce maresia,
Sobe aos olhos a flor, essa forma do vento:
Espuma e sal, pele e astros a arder,
Tenra raiz do tempo.
Verde como o pinhal, alta como fogueira,
Erguida em chão, a terra fumegante de mar,
Enfim clareia.

por nenhumnome

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

PARABÉNS

ao serpentista fundador PAULO BORGES

pelos bons resultados obtidos na Madeira
pelo seu partido

vamos ter nele um novo XILÓFILO

em guerra contra um velho XILÓFAGO ?

Abraço

domingo, 9 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

VALE A PENA

boca humana
número 7 mil milhões
está prestes a berrar
que quer mamar

coisa linda senhores

tenhamos juízo e unamo-nos
-o momento é belo -
para que esta anunciada
boca humana
sempre encontre resposta
ao seu apelo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Do fundo sem fundo de Todo o Mundo vimos

Do fundo sem fundo de Todo o Mundo vimos
Ao puro Ninguém lestos tornamos
Corações ao almo Esplendor erguidos
Néctar abundo, taças sejamos!

Da ronda do existir desprendidos
Saudade só da Grande Imensidão
Amor reúna os divididos
Amor ressuscite da mortal ilusão!

Sol e Lua, Prata e Ouro fundidos
Núpcias eternas de sábia compaixão
Adamantina folia bailemos
De delícias Jardim o coração!

Fonte de eterna juventude lesta corra
Gaia ciência do Infinito Esplendor
Dela vazios e nus nos inebriemos
Do mais puro e ardente frescor!

Corações taças ao Alto
Flamejante néctar ofertamos
Por que todo o ser livre seja
Bebamos, Irmãos, bebamos!

- Paulo Borges, in Línguas de Fogo, p.185

BIO-LÓGICO

como animal em cio
mais natural
do que intelectual

não crio

-procrio

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Não tenho interesse pela literatura
não quero saber de poetas embriagados
com palavras de arsénico
Se jesus Cristo era um gajo porreiro, ou não.
Se maria madalena percebia de bricolage
se daqui a vinte anos irei somente escrever com os olhos
ou se a minha história será dada aos gatos para comer

Se a lua é um ovo estrelado, tanto me faz
como tanto me fez, saber que o meu destino rima com desatino
e o senhor da taberna não me fia mais nenhum copo de tinto

Não quero saber de tristes costureiras que passam horas
a cerzir o cu do tempo com fios de luz
é-me indiferente se a tristeza é a via rápida para o absinto
se na minha cama dormem leões, gambozinos, vermes;
se Nietzsche era um grande tocador de banjo
ou se os meus poemas terão sucesso dentro de uma gaveta

Estou-me literalmente nas tintas para as paredes e tectos
por mim, incendiava as bibliotecas todas para se escrever tudo de novo
e ver sofrer os romancistas e os poetas e os contadores de histórias picantes
e rir-me com a possibilidade de ser inteiramente feliz ao lado
de uma árvore que tem como fruto mulheres bonitas.

Ah, e escurecer de tanto imaginar!

Não quero saber se os ilusionistas tiram o céu da cartola
se a música anda metida com o silêncio
e em cada foda nasce um ateu.
Não me venham com horóscopos
nem previsões de temporais, nem sinais de esperança,
nem de invisuais a ler a terra com os dedos, 
que se dane a ética e os moralistas,
os saltimbancos e os fackirs.

Que se lixe o mês de Agosto
o champanhe francês, os decretos,
o papel higiénico, a mostarda, o esferovite, 
as palavras esdrúxulas, o fado, a couve galega, 
ou a cona da mãe Joana!

Se regressei à vida foi para escrever este poema
no peito iluminado de uma coruja.
foi para devolver a carne ao osso, foi
para amar todas as cartomantes com princípios de esgotamento.
Cansa-me a beleza dos santos, os anéis de jupiter
nos dedos dos escolásticos, dos escolióticos, das madressilvas, dos minotauros,
e dos que passam horas a pensar o mundo, a varrer o mundo
com infinitas asas.

Não quero saber do meu Eu, do teu Eu, do nosso EU,
das lembranças que fazem abrir regos na loucura,
do Despertar das galinhas, das feridas a fabricar pão.
Não me importa se depois deste poema irei ruir, se
na ponta de uma faca ergo um castelo, 
se Leonor vai descalça para a fonte ou de sapatilhas, se
o que digo faz temer as criancinhas.

Já amei uma maçã, um guarda-vestidos, um dióspiro descapotável,
um Deus todo petulante e vaidoso. Já masturbei árvores,
subi ao céu numa jangada e regressei a esta casa, 
a este quarto,  a esta cama, a este sono,
coberto de imaginações, e livros inesgotáveis. 

SISIFO

saio da cama
com o mesmo sem-vontade
com que saí
do ventre de minha mãe

encaro o mundo
com as dúvidas todas
de quem renasça
todas as manhãs

domingo, 2 de outubro de 2011

VÁ PARA OS BRAÇOS DE MORFEU





“A terra dos sonhos foi localizada em algum lugar no submundo, provavelmente perto do domínio da Noite e seus filhos. Poetas muitas vezes se referiam a dois portões principais do reino dos sonhos. Um portão tinha molde de marfim serrado, o outro de chifre polido. Sonhos falsos passavam pelo portão de marfim, enquanto verdadeiros sonhos proféticos asavam a sua saída pelo portão de chifre. Houve também quem disse haver um olmo murcho no domínio de Morfeu, sobre o qual os sonhos tratados pelo Onírico eram pendurados, com o semblante de asas-fantasma-forma saindo para a noite para se suicidarem, esgotados pelos desejos humanos.”

Um cansaço bíblico chega, qual mastodonte correndo pela planície durante meses a fio. E baloiça com seu momentum cansando homens e mulheres que tiram as roupas encharcadas de trabalho persistente

Acendem cigarros, enrolados por mãos tremebundas, cansados como retratos de gente cansada

Sacodem a roupa, acendem o último cigarro



Cansados como retratos de gente cansada cristalizando por arquétipos, esfaimados com raiva cega por absurdos. Atiram-se a suas enxergas, como os mastodontes desfalecendo no fim do caminho; e se encasulam para renascer na dobra de lençóis com piolhos
Sendo certo que por tais momentos, as paisagens se reconstroem placidamente... Açucaram-se em monumentalidades estupradas por gargalos de garrafas e enroladas nos últimos cigarros tremidos

Coros silenciosos colam na epiderme baça, choram um uivo, rezam um consolo despenteado nas dunas desses lençóis. Se abafam num sono de papel para comprovar a nação de maravilhas onde querem alternar

São os cansados que dormem num caixão de veludo masturbando a saudade em várias formas. Um pesadelo ou acontecimento faustoso não tem diferença para o ideal consumo do ópio em pratos invisíveis

Mas no seu sono ainda são sonâmbulos, pálidos restos desdobrados em ridículos teatros de mastodonte e lençol. Vasculham alegrias mirradas pela voragem dos dias nos caixotes de lixo das coisas imateriais...

Onde vão comprando caro as fantasias melifluas sob a lua amarelada, em sentido, falsa. Prosseguindo o estado repetido de asas de não-sei-quê a bater na cara.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Miguel Sousa Tavares ou A Queda de um Anjo




Confesso que resisti muito tempo a escrever alguma coisa sobre o ainda recente comentário de Miguel Sousa Tavares na SIC sobre a abolição das touradas na Catalunha. Resisti porque os argumentos de MST se refutam a si mesmos e, sobretudo, porque tenho pudor em acrescentar alguma coisa aos vários tiros que o comentador deu em público na sua própria imagem pública. E cada vez mais, agora, ao ver as reacções e insultos de que é objecto por parte de muitos cidadãos, justamente indignados com o que disse (embora não me reveja na violência de muitos ataques pessoais), sinto pena deste homem. Sinto pena de um homem que entrou na fase de estrela decadente, tanto mais baça e em queda acelerada quanto mais pretende brilhar à custa de atacar causas justas e de defender o indefensável. Sinto pena por mais esta “Queda de um Anjo”, para recordar o romance do grande Camilo Castelo Branco.

Não me quero alongar sobre o que disse MST, que já teve no Facebook várias respostas à altura, entre as quais a de Lucília São Lourenço, de Mário Amorim (CAPT) e do meu cunhado Richard Warrell. Noto apenas, com tristeza, a incapacidade, de MST e dos que apoiam as touradas (ou a caça e todas as formas de violência sobre animais), de se colocarem na perspectiva e no lugar do outro, que neste caso é o animal, violentamente sujeito ao sofrimento para diversão do homem. Não ser capaz de se colocar no lugar do outro, não ser capaz desta exigência indispensável de toda a ética, e não perceber que é esta a razão pela qual há tanta e cada vez mais gente que se opõe às touradas - e não uma simples questão subjectiva de gostar ou não gostar de um espectáculo - , é uma terrível limitação da sensibilidade e da inteligência. Mas MST e os que pensam como ele, como o autarca Moita Flores, sem perceberem que porventura se estão a ver ao espelho, têm ainda o desplante de afirmar que são os outros que têm “falta de cultura” e que seguem o “caminho da estupidez”… Isto é triste. Muito estúpido e triste.

Muito estúpido e triste também, mas grave, muito mais grave, é a comparação da violência nas touradas, imposta pelos homens aos animais indefesos, com os perigos voluntariamente assumidos pelos participantes nos combates de boxe e nas corridas de automóveis (ou ainda o considerar a parvoíce de um programa televisivo, que se pode desligar a qualquer momento, mais violenta do que as touradas). Este raciocínio, além de só mostrar desonestidade ou falta de rigor intelectual ou as duas coisas, o que tenta é branquear a violência dos mais fortes contra os mais fracos reduzindo-a a desporto. Isto é preocupante, pois nesta ordem de ideias o que nos impede de considerar desporto as violações, os assassínios e todo o tipo de atentados contra a integridade dos seres humanos? Se obviamente repugna a todos nós considerar que as mulheres, as crianças e as vítimas de violação e homicídio participam de um espectáculo desportivo, se não aceitamos ser saudável ou estar no pleno uso da sua razão quem assim pense, o que dizer dos argumentos de MST?...

Mas isto não acaba aqui, não acaba na existência de ideias como as de MST. A gravidade de tudo isto continua e aumenta na promoção das pessoas que defendem estas ideias a “opinion makers”, a pessoas influentes na opinião pública, transmitidas em directo no horário mais nobre de um noticiário televisivo para milhões de espectadores, sem uma voz que exerça a função do contraditório e perante a manifesta impotência ou desistência da jornalista Clara de Sousa quanto ao exercício dessa função. E depois vem MST acusar os opositores das touradas de atentarem contra a “liberdade” e a “democracia”, quando ele é o primeiro beneficiário destes atentados que privilegiam sistematicamente na comunicação social os aficionados e silenciam quase por completo as vozes opostas!...

É isto que hoje mais me preocupa e não tanto a existência de pessoas com as ideias de Miguel Sousa Tavares, Moita Flores e outros que, sem se renovarem interiormente, arriscam-se a ter atingido e ultrapassado o limite do prazo de validade, em termos de sensibilidade humana e probidade intelectual. Espero que assim não seja, mas temo que deles já não haja nada a esperar, a não ser uma deterioração cada vez mais acelerada. O que me preocupa é que, num país e num mundo onde cada vez mais ganha volume uma nova corrente e movimento de opinião, que exige um tratamento ético dos animais (humanos e não-humanos) e se insurge contra as violências a que são sujeitos – corrente e movimento que vejo como o embrião de uma nova cultura e de uma nova civilização - , os nossos órgãos de comunicação social continuem a dar voz apenas aos mesmos de sempre, com os graves preconceitos e ideias aqui expostos. São estas as figuras públicas que nos representam? É este o Portugal que queremos?

Termino pedindo aos leitores que não lancemos mais pedras a MST, Moita Flores e outros. Tenhamos por eles a mesma compaixão que pelos touros e por todos os seres sencientes, humanos e não-humanos. Quem pensa, fala e age em defesa da violência, ou a pratica, não pode estar bem. Peguemos antes nessas pedras e lancemo-las àquilo que em nós houver também de ignorância, preconceito e insensibilidade. E que seja por compaixão por todos – incluindo toureiros, aficionados e todos os que praticam ou apoiam a violência sobre outros seres - , e não movidos pelo ódio e pela raiva, que continuemos a manifestar a nossa justa indignação e a lutar por um mundo onde o direito de todos os seres sencientes à integridade e bem-estar físicos e psíquicos seja consagrado na lei e integralmente respeitado.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Antes de preencheres o vazio com palavras de universo
lê com cautela o que te vai no sangue.
Anda como se contasses os passos até ao dia de morrer
e dorme como se desejasses acordar com fome de vida,
do outro lado da vida, onde os teus sonhos são castelos concretos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

se há estrelas
casas com a lua
inventas promessas
branca e negra
é tua a saudade
serena é a noite
quando te encontras

quinta-feira, 22 de setembro de 2011


se a pomba está ao teu alcançe
abraça-a com ternura
como se a mim abraçasses
e se ela foge e recua
canta que ela regressa ao encanto
se for branca, a pomba-rola
coloca em seu bico, uma rosa vermelha
segreda-lhe a minha morada
e se eu tiver partido
com destino desconhecido
entrega a pomba-rola
a rosa vermelha ao mundo
um dia todos se encontram, abandonam os pontos cardeais.
A primavera, o verão, o outono e o inverno ousam o tempo e celebram matrinónio.

Da consciência do sol nascente

"Tudo o que vive, tudo o que é ser, seja uma estrela, uma planta, um animal ou um ser humano - ou até mesmo Deus Todo-Poderoso - possui uma orientação. Trata-se de uma ideia que tanto podemos traduzir em termos matemáticos, como físicos ou psicológicos. Ou, em última instância, religiosos. Ao longo da estrada por onde cada um de nós viaja, não há regresso. Temos de avançar ou que morrer, parando: morrer em vida. Este momento para diante, ou orientação, não é outra coisa senão a consciência. É um movimento ao longo de um trajecto que se nos revela sob a forma de oposições, ou, por outras palavras, em termos de dualidade. É apenas um, e contudo não é apenas um. São dois. O místico, cujo dualismo é maior do que o dos outros homens, soluciona momentaneamente o enigma, consderando alcançar um estado de êxtase em que é um só ser juntamente com o universo. Não vale a pena acrescentar que, em tais momentos, o místico não precisa de Deus, nem de nada para além de si próprio. Está para além de si próprio, por assim dizer, no sentido em que a sua consciência se expande de tal modo que inclui os dois pólos opostos do seu ser. A luta torna-se impensável. No seu estado como que de transe, o místico conhece o sentido do inefável. Tudo se torna claro e ele aceita tudo; ele próprio e o seu destino são um só. Nesses momentos, todo ele é orientação. Ou seja, conscência."

- Henry Miller, in Carta Aberta a Todos os Surrealistas do Mundo
O meu corpo novo, esse onde existo sem forma, é abrigo do poeta.
Embriagado de vida resiste ao tempo, e no tempo, dele se despede.

Descobre o vazio onde o texto encontra o silêncio.
Nele o abandono sublime do amor.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

no OUTONO da VIDA (?)


amplie para se certificar

EPIFANIA

o sol
atoalhando a mesa de vidro
onde está o rádio

uma rosa vermelha
em jarra de cerâmica

escuto um arranjo
sobre a Nona Sinfonia de Beethoven

acompanhado
pelo coaxar de rã
lá fora

- e é outono

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Setembro

"Setembro sente-se morno no seu manto de terra fogo aconchegado.
E segue ouvindo o cair das folhas, cantando o colher dos frutos.
E sopra o silêncio que afaga o tempo de gotas e o espaço de ar."

Sónia Gomes Costa

DO OUTONO

Cantam as árvores
despidas de vento;
nas asas das aves
voa
para longe
o
Estio.
As folhas
adormecem a terra.
Tíbio, o Sol
caduca o Verão.
Brando o calor,
no Outono tinto
colhido em cachos.
No vagaroso impregnar,
o áureo odor,
silencia.
No leito de Morpheu,
suspende a vida.
Ainda demora
que a Terra expire.
(Sentir e Ser - 2011)

A Dança de Ícaro / Cena II

“Apolo observa-o e ri. Ícaro era, ainda há breves momentos, o mais miserável dos homens e ei-lo agora a girar e rodopiar como uma serpente encantada! Apolo já conhecia, desde há muito, a condição humana. Sabia que os homens eram capazes das mais profundas contradições.
“Quantas tentativas fizeste para alcançar o sol? Qual o valor do teu esforço? Bem vejo como trocas facilmente o simples e o verdadeiro pelas loucuras dionisíacas! Eu sou o rosto da sabedoria e da justa medida. Todos me veneram porque sou o verdadeiro Deus e tu sempre foste, até hoje, o meu maior seguidor: Ícaro, o conquistador do sol!”
Imune aos pensamentos de Apolo, Ícaro prossegue com a sua dança. E com ela abraça o mundo! Ícaro sabe que a vida está cheia de altos e baixos, ora se cai, ora se levanta… Este momento é de ascensão! Ícaro eleva-se nos céus com Pégaso e as bacantes, acima dos campos e dos rios, e das âncoras dos homens… E à medida que sobe cada vez mais alto, observa as casas, com os seus jardins e cercas, as estradas e as pontes. E como nunca compreendeu o seu lugar nesse mundo, sorri por o ver tão pequeno e distante. Recorda o momento em que o sol sobre as asas de cera parecia ter ditado o seu fim. Frágil e exposto, caiu dos céus em rodopio de pena solta. Após o embate do corpo na terra seca, seguiu-se um longo período de silêncio que tocou a eternidade. Depois, o coro gritou em uníssono: “Ícaro, o irrealista!”; “Ícaro, o ambicioso!”; “Ícaro que queria chegar aos deuses!”; “Ícaro que caiu dos céus e se desfez em mil pedaços!”; “Ícaro!”… “Ícaro!”… “Ícaro!”…
Mas ao Ícaro que dança não pode ser atribuída nenhuma designação. Até porque não se sabe bem se ainda pertence a este mundo. O Ícaro que dança não segura nenhuma máscara e, por isso, perde o seu lugar na comunidade dos heróis trágicos!”
SIBILA

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

TERAPEUTICA

manhã de outono
enevoada
mal ainda o sol nasceu
escuto a minha música preferida
envolvido em tédio
a vida
para o dia todo
tomo-a
- tapando o nariz -
à colherada

domingo, 18 de setembro de 2011

Ainda Eurídice

Gluck deu a Orfeu e Eurídice um final feliz. Foi um dos primeiros happy ends da ficção artística. A partir desse momento deixamos de conseguir suportar a dor inerente à separação, exactamente porque negamos as separações. 

a dança de ícaro

dias de luz fria. ícaro cai no chão duro da realidade no preciso momento em que parecia aproximar-se do núcleo do sol. as suas asas de cera derreteram súbita e inesperadamente. nenhum anúncio prévio ou sinal premonitório e daí a impossibilidade de ter preparado um pouso suave e macio. ei-lo estendido no piso agreste de um lugar comum. quando por fim abriu os olhos tudo tinha mudado. o sol arrefecera e soprava um vento frio e cortante. fazia-se sentir um odor a fogo extinto e tudo parecia repousar numa nudez invernal. ainda assim, o espaço abria-se preciso e silencioso. quando se tentou erguer sentiu-se invadido de um desconfortável pesar e desalento. andou vários dias a arrastar-se pelo chão sem esperança. parecia não haver mais lugar onde chegar apesar de todas as portas parecerem abertas de par em par. mas foi quando este jovem de cabelos revoltosos com fios de ouro e um olhar de luz singular, começou a entrar destemidamente nas reentrâncias desse desconsolo, que quase num lapso descobre uma estranha capacidade para dançar e a qualidade volátil dos seus pés, assim como as infinitas potencialidades de um mundo cheio de aberturas por todos os lados, propenso a infinitas correntes de ar. foi assim que começou a correr ao lado do vento com incrível leveza e a trocar-se de invisibilidade com o “devir”. agora ícaro desenha o céu debaixo dos pés. por vezes, quando se vê dançar, fica-se com a nítida sensação que um mar em fúria se levanta, uma revoada de aves rasga os céus e a primavera desperta, mesmo que não se esteja na primavera.

“all changed, changed utterly:
a terrible beauty is born:” ( w.b. yeats)
Vou fazer muitos poemas e engatar muitas raparigas. 
e fazê-las pensar que sou daqueles que passo horas em frente ao mar, 
a estudar o voo ascendente dos peixes, a deitar gotas de
cio nas palavras para
que se sintam desejadas. 

vou fazer muitos poemas de amor, tantos
quantos possíveis para engravidar todas as raparigas solteiras do
mundo que me queiram ler. e ter filhos
que mais tarde vêm ter
à minha porta e ver que eles são aquilo que inventei para serem.
ter nos versos um certo desgosto para que tenham pena e me
atirem beijos do mar em que estão.
quando me sentar para  escrever
quero ser homem aos poucos,
ter a felicidade de uma rameira ao finalmente chegar a casa,
pôr o fogão no mínimo,
abeirar-se da cama e sonhar com o milagre das coisas boas.
vou fazer muitos poemas, tantos que a minha mãe me dirá
para parar se não quiser enlouquecer. mas eu digo-lhe, que
assim seja, que me afunde contra as palavras e o mundo seja
apenas um verso em que arrisco a vida.
as raparigas solteiras vão ficar palermas ao ler os meus poemas
que falam e soletram
aquilo que elas escondem debaixo das suas saias. vão querer
tatuar frases minhas no fundo das costas para que junto delas
reclame direitos de autor.
e vou rimar fogo e água no mesmo coração,
e vou tirar as botas às letras
maiúsculas, depois abrir a torneira aos dias claros e existir longamente.

as raparigas solteiras não vão querer ficar menstruadas no dia em
que fizer poemas, e o meu pai bater-me-á
se cometer uma qualquer discordância ortográfica, e nem me deixará mudar de linha enquanto a noite tiver escárnio na língua.
as casadas que me perdoem
mas vou fazer muitos poemas para as raparigas solteiras, tirar-lhes
as medidas letra a letra e acabar nos seios delas com uma
menção honrosa. quando escrever quero mijar no tempo
para não perder demora, fazer de conta que a vida me fascina
e ser a terra onde o cão esconde o osso.
inventarei um morto
e roubarei ao herberto hélder sangue e luz dos seus livros
para assim cantar como canta o fogo.
vou fazer muitos poemas, tantos que a caneta ejaculará a
sua tinta azul fluorescente por toda a página e as raparigas
solteiras pensarão que a proeza foi toda minha, e
perguntarão à minha mãe onde vou morrer esta noite,
onde guardo o nome dos remédios valiosos.
ah, vou escrever nos bilhetes de comboio,
nos manuais de instruções,
nos peitos das aves,
nos sinais de trânsito,
no coração da luz,
no cu do judas,
no céu do meu quarto.
vou ter grandes erecções
só de pensar que nenhum crítico me vai ler, que nas estantes
bibliotecárias só os poetas loucos me dirão, podes vir.
ah, vou fazer tantos poemas que os animais vão querer provar desse pasto,
a lua vai-se algemar e a solidão vai fugir com um italiano.
vou dar cabo das religiões,
entrar no fogo da simbologia,
abrir o túmulo do fernando pessoa e sacar-lhe inéditos. e as raparigas
solteiras vão-me admirar toda a eternidade!, vão querer casar com
todos os meus eus, os meus mins que andam de cá para lá algures
entre o crânio e os carpos. e eu, assombrado como um deus
a aprender o instinto, a ter amor em cada palavra
e matar
a anterior!
e as raparigas solteiras, que não sabiam que matar
era morrer, choram, ao perceberem que o poema, afinal, acaba mal!