O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Da consciência do sol nascente

"Tudo o que vive, tudo o que é ser, seja uma estrela, uma planta, um animal ou um ser humano - ou até mesmo Deus Todo-Poderoso - possui uma orientação. Trata-se de uma ideia que tanto podemos traduzir em termos matemáticos, como físicos ou psicológicos. Ou, em última instância, religiosos. Ao longo da estrada por onde cada um de nós viaja, não há regresso. Temos de avançar ou que morrer, parando: morrer em vida. Este momento para diante, ou orientação, não é outra coisa senão a consciência. É um movimento ao longo de um trajecto que se nos revela sob a forma de oposições, ou, por outras palavras, em termos de dualidade. É apenas um, e contudo não é apenas um. São dois. O místico, cujo dualismo é maior do que o dos outros homens, soluciona momentaneamente o enigma, consderando alcançar um estado de êxtase em que é um só ser juntamente com o universo. Não vale a pena acrescentar que, em tais momentos, o místico não precisa de Deus, nem de nada para além de si próprio. Está para além de si próprio, por assim dizer, no sentido em que a sua consciência se expande de tal modo que inclui os dois pólos opostos do seu ser. A luta torna-se impensável. No seu estado como que de transe, o místico conhece o sentido do inefável. Tudo se torna claro e ele aceita tudo; ele próprio e o seu destino são um só. Nesses momentos, todo ele é orientação. Ou seja, conscência."

- Henry Miller, in Carta Aberta a Todos os Surrealistas do Mundo

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sobre as saudades

"(...)
Pergunta-me o que são as saudades? As saudades são as intermitências da consciência. São a voz do coração nos invólucros da alma. E manifestam-se nos diamantes do tempo.
Por isso, as lágrimas são cometas no universo. Não há fogo de luz mais genuíno.
Ainda bem que temos saudades.
Apesar de toda a minha estrutura lógica, cedo aprendi que há coisas que não se explicam. Sentem-se! Assim, deixo-me ir na fluência das águas. Tenho a esperança que elas me devolvam à felicidade. Outra e outra vez! Tal como continuamente o fizeram. Às águas entrego-me. (...)"

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Consciência e Ilusão

"Tudo é ilusão.
A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade.
Tudo é criação, e toda a criação é ilusão.
Criar é mentir.
[...]
A própria ilusão é uma ilusão.
[...]
Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica - a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar nem como sendo, nem como não-sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões, mas ter consciência não é uma ilusão.
[...]
Temos todos a noção de que há qualquer coisa: isso é falso. Não há; não há nem não há. A própria consciência não existe, mas é a única verdade"
- Fernando Pessoa, "O Desconhecido", in Textos e Ensaios Filosóficos, I, estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho, Lisboa, Ática, 1993, pp.44-46.

domingo, 6 de abril de 2008



Ontem fui ao cinema. Este filme, que em português se chama «Nunca é Tarde Demais», captou a minha atenção quando vi o «trailer». E os actores eram promessa de qualidade.

O sentido da vida. Gostarias de saber antecipadamente do momento da tua morte? Quando podemos dizer: VIVI VERDADEIRAMENTE ?!?

The Bucket List é a lista de coisas que queremos fazer, antes de bater a bota. Foi um trabalho de casa que o professor de Filosofia deu à personagem interpretada por Morgan Freeman.

Não sei se este filme vai mudar a vida de alguém, mas julgo que a todos nos convoca para uma reflexão interior sobre «o que raio ando eu aqui a fazer!»

«Lembre-se que nada é constante,
só a mudança é constante»

Principe Siddhârta Gautama ou Shâkyamuni, dito Buda.

sábado, 15 de março de 2008


A causa da derrota não se encontra no obstáculo ou no rigor das circunstâncias; está no retrocesso na determinação e na desistência da própria pessoa.

Se falasse em dificuldades, tudo realmente era difícil.

Se falasse em impossibilidades, tudo realmente era impossível.

Quando o ser humano regride em sua decisão os problemas que se erguem em sua frente acabam parecendo maiores e confundem-no como uma realidade imutável.

A derrota encontra-se exatamente nisso.

(Daisaku Ikeda)

terça-feira, 11 de março de 2008

Um argumento a favor do eu ser consciência

Ser eu é ser para si.
Só a consciência pode ser para si.
Ser eu é ser consciência.

Este é um argumento válido, é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa; é consistente, é possível que ambas as premissas sejam verdadeiras; mas será sólido (válido com premissas verdadeiras)? A questão é: serão as premissas verdadeiras? Se forem, seremos levados a aceitar a conclusão. A segunda premissa parece-me bastante óbvia, quase baseada numa evidência; por isso, se quisermos atacar o argumento, teremos de atacar a primeira premissa (a menos que achemos que a segunda é mais fraca).

As duas principais propriedades da consciência

Ser sobre algo. Ser para alguém.

Ser eu é ser para si

Há dois posts atrás, dissemos, na nota póstuma, que o eu é a consciência de si. Pode-se pensar que estamos errados, argumentando-se que o eu não é a consciência de si, mas o si. Destrinçámos isso, no post anterior, dizendo que ser eu é ser para si. Agora, penso: qual é a única coisa que é para si? A consciência. E isto leva-me a crer, ainda mais, que o eu é consciência pura - auto-reflexão da consciência.

PS: desculpem o entupimento de posts, mas hoje estou de folga do trabalho e, portanto, prevejo um dia repleto de posts, a menos que me deprima algures a meio do dia...

Ainda sobre o eu

De acordo com o texto anterior, o eu não é o que está para lá da consciência, mas uma criação da mesma, na medida em que é eu porquanto o é para si (ser eu é ser para si) - auto-reflexão da consciência.

Depois, há aquilo que mundanamente somos, que, penso, é um conjunto de propriedades físicas e mentais, subdivísiveis e reportáveis a causas.

Por momentos penso que se fôssemos dizer tudo aquilo que somos teríamos de dizer o Universo inteiro; e isto implica que cada coisa é uma parte de nós, ou que tudo é parte de um todo, constituído por tudo. Isto não parece ser falso.

Assim, o eu já não seria aquilo a que quotidianamente chamamos "eu", dado que existiria uma única coisa mas com partes, mas essa mesma coisa. No entanto, seria necessário que essa coisa fosse coisa para si, porque a consciência é uma condição necessária para que exista eu.

O eu total, se tal coisa existe, parece ser o conjunto de tudo aquilo que é para si em dado momento: para mim, para ti, para eles, e assim por diante, tal como a areia de uma praia é o conjunto formado por cada grão de areia. Mas os grãos não deixam de ser areia, tal como eu não deixo de ser eu apenas por ser, suponhamos, uma parte de um eu universal que nem sabemos se existe.

As questões "quem sou eu?" e "o que sou eu?" não pedem a resposta por um eu universal mas, antes, reportam-se - repito algo que já disse no texto anterior - ao mais íntimo de cada um. Por isso são respostas que cada um terá de dar a si mesmo.

Um texto sobre o eu

Quando estamos a dormir, ou sonhamos ou estamos em sono profundo ou pouco profundo. Estamos, de qualquer dos modos, adormecidos para uma certa realidade, a que vulgarmente chamamos "mundo". Mas parece que, mesmo aí, não temos consciência de nós mesmos.

Quando estamos acordados, estamos acordados para o mundo e adormecidos para o mundo dos sonhos que, provavelmente, nesse momento nem existe. Temos consciência de nós enquanto corpos e seres pensantes mas, ainda assim, colocamos as questões: quem sou eu? O que sou eu?

Em ambos os casos, não temos plena consciência de nós ou, então, a consciência de si não pode ser plenamente dita mas, apenas, talvez, sentida, consciencializada. Ainda assim, sou céptico e creio que é provável que nunca tenhamos plena consciência de nós (talvez por sermos abismo, infinito?), ou não colocaríamos as questões.

Não sei se existo desde sempre nem para sempre, e creio que, pelo menos neste corpo, isso é um facto. A pergunta pelo eu é uma pergunta em que se intenta ir além do fenoménico e encontrar alguma transcendência, algum sinal de vida para lá deste mundo.

É, também, uma pergunta perfeitamente natural, já que indagamos sobretudo e, assim sendo, por que não indagarmo-nos sobre nós mesmos, a nossa natureza? Penso que, quando se pergunta pelo eu, pergunta-se sobre a nossa natureza última e íntima, com a qual nos queremos identificar, o que ainda não acontece - como podemos identificar-nos com algo que desconhecemos?

Não sei se o eu existe ou não existe, creio que existe, porque existo e penso que sou um eu; pelo menos sou eu para mim. Repetindo-me e acrescentando alguma coisa, o eu é aquilo que pensamos ser mais intimamente, mais verdadeiramente, mais imutavelmente, para lá deste mundo corpóreo. Assim, pensamos que não é uma substância, se sequer é uma substância, corporal, mas incorpórea e que, de algum modo, está fortemente ligada ao corpo que também somos.

No fundo, pensamos que o eu é aquilo que somos necessaria e essencialmente, enquanto que o corpo é aquilo que somos contingentemente. E é verdade que o corpo é um objecto contingente, na medida em que, a não crer no determinismo, poderia não ter vindo a existir.

Penso que a grande questão é: a que se refere a palavra "eu"? A que me refiro quando digo "eu"? E, fora de ilusões, no quotidiano, quando o dizemos, referimo-nos a este conjunto de mente e corpo que cada um de nós aparentemente é. Mas o eu, reflectindo, não parece tanto ser esse conjunto mas, antes, aquilo ao qual se reportam todas as consciências, e que está para lá delas, na medida em que estas são consciências para mim.

A consciência de si parece ser consciência pura, na medida em que o si é si porquanto é si para si. Parece tratar-se de uma operação da consciência que, aparentemente, se reflecte sobre si mesma, dizendo: eu existo.

[Nota póstuma: ficamos com a clara impressão de que o eu é nada mais do que a consciência de si. Mas, ao termos deslindado o significado da palavra "eu", fica por deslindar o significado da palavra "si". Ou seja, não adiantámos muito, apenas no aspecto em que a consciência é uma condição necessária, mas talvez não suficiente, para que existam eus.]

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O que somos nós?

Sem consciência, não haveria coisa alguma para nós, incluíndo nós. Não existimos sem consciência; porque somos pessoas e estas são principalmente consciência. Quando se opera um doente anestesiado não se está a pensar na dor que o deonte está a sentir: porque ele está inconsciente da dor que lhe está a ser incutida. Mas será que as realidades da dor e do prazer são realidades para além do ser para si? Aparentemente, não - uma dor só existe na medida em que é sentida. Assim, há todo um mundo que para existir depende da consciência, embora não saibamos quantas partes do mundo assim sejam. Algumas? Todo?

Será que o eu é algo mais do que consciência de se ser consciente?

O eu é, essencialmente, ser para si, e tudo e nada mais do que isso é eu. Penso que a coisa mais interessante, o fenómeno, nesta vida é o ser para si, na medida em que se é ele mesmo para si ou outra coisa para si. O eu tem consciência de ser eu e não de ser outro. "Eu" quer dizer que eu sou igual a mim mesmo, juntando ao que já foi dito. Posso existir ainda que esteja inconsciente; isto se me identificar com um fenómeno que é exterior à minha consciência de mim. Mas o eu é indissociável da consciência de si; é o que é mais. Quando não há consciência de si não há eu? Não há eu para nós, e eu é sempre eu para nós, não havendo, portanto eu. Resta saber se, ao longo de uma vida, há momentos em que eu não existo. Parecem haver (talvez no sono profundo) e o interessante é verificar que é sempre o mesmo eu que reaparece: eu sou sempre eu e não outro. Falta também saber se, na verdade, estamos inconscientes de nós mesmos em estados de sono profundo ou mesmo em estados de concentração em fenómenos outros, o que parece ser verdade - a consciência de si parece aparecer e desaparecer em vários momentos. Mas deixamos de ser nós próprios nesses momentos?

Será que somos sempre nós próprios? A que se refere a palavra "nós" na pergunta? O que somos nós?

Consciência da consciência, consciência pura

Os fenómenos são manifestações. De quê? Não sabemos. Só há duas vias possíveis de conhecimento: a dos fenómenos e a das suas causas que é, em última instância, de uma suposta causa única ou da coisa que são todas as coisas. Mas, para nós, todas as coisas são fenómenos; tudo nos aparece como fenómeno, incluídos nós mesmos, na medida em que "fenómeno" significa "ser para uma consciência". Dizemos, então, que nos aparecem como fenómenos, mas que podem não o ser, na medida em que podem ser algo mais, quer dizer, objectos independentes da consciência. E nós, que tipo de objecto somos? Dependente da consciência, porque o eu é uma construção mental mas, também, um eu para mim; porque eu sou o eu e isto implica consciência. É por isso legítimo perguntar-se se sempre tivemos ou teremos consciência, o que é o mesmo que existir ou se, por outro lado, existimos apenas entre os nossos nascimento e morte. São perguntas que provêm de uma mente mas, principalmente, de um eu, porque sem consciência não existiriam perguntas. A mente tem inúmeras funções, centenas. É muito fácil, evidente e simplista agrupá-las apenas em seis ou sete, porque cada uma dessas contém centenas de outras. Se pararmos para pensar sobre isso, tomando atenção sobre o que a mente está a ou o que pode fazer, descobrimos centenas de pequenas funções que vão ocorrendo. Por isso, a mente é capaz de inúmeras coisas, incluíndo pensar que poderia existir sem consciência. Mente sem eu. Talvez seja o caso dos computadores e dos robots: pensamentos sem consciência? Há algo mais importante do que isso, para nós, que é o sermos para nós, o eu; e se somos desde e para sempre nós ou se somos entre nascimentos e mortes. A própria lógica de sermos entre nascimentos e mortes, implica que somos um mesmo, mas não se sabe se há mais do que um nascimento e uma morte para cada eu. Mas o eu resume-se bem na ideia de que é o ser que é ser para si. Como tal, é consciência, mas de ser uma série de coisas, incluíndo, principalmente, um corpo e uma mente. Cada uma destas palavras contém em si inúmeras outras, que escolhemos agrupar sobre os títulos de "corpo" e "mente". E esses algos são independentes da consciência, excepto no serem para algo que tem consciência que o são. Somos tudo o que somos, conscientes ou inconscientes disso, excepto no eu que é, principalmente e quem sabe se exclusivamente, ser para si. Ser um eu é ser um ser que é para si, que tem consciência de si; é, primeiro, ter consciência de si enquanto ser consciente. Consciência da consciência, consciência pura.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A experiência do belo e do sublime

"Os homens preferem erigir estruturas mentais, elevar edifícios idealistas frágeis, em lugar de meditarem na sua natureza profunda..."

in O Budismo Tibetano, Edições Europa-América, p. 160.

Eu não sou um barra em meditação, mas gosto de, secretamente, pensar que sou. Aliás, não sou um barra em nada, mas gosto de, secretamente, pensar que sou um barra em tudo. A verdade é que, ao longo da minha vida, tive poucas, umas duas ou três, experiências que se enquadrariam naquilo a que vulgarmente se chamaria de meditação, como quando fechamos os olhos (sim, eu sei que se medita com os olhos abertos...) e tentamos atingir um estado transcendente, diferente do nosso estado banal. Diria que só uma dessas experiências terminou em bom porto, que foi quando me desliguei dos sentidos.

Mas tenho tido, e isto interessa-me mais, experiências que catalogaria de meditativas, que são quando experiencio o belo ou o sublime - na natureza ou na arte - e, num instante, como que magicamente, atinjo a tão almejada transcendência. Nem sei se "transcendência" é o nome adequado e diria que nem sei se existe nome para o estado que atinjo. É apenas um estado de prazer e de felicidade absolutos. Na verdade, por mais reles e doloroso que alguém se sinta, o belo e o sublime têm o poder de trazer os fantásticos resíduos de alegria, júbilo e felicidade que, sempre, a pessoa tem guardados algures no fundo de si.

Fora as balelas, acho mesmo que a contemplação (tantas vezes inesperada - é a melhor!) do belo e do sublime é a mais bela e sublime experiência que podemos ter. Particularmente, essa experiência pode desdobrar-se em inúmeros conteúdos... por exemplo, agora que penso, talvez a mais bela e sublime experiência para quem tenha filhos seja a de ver os seus filhos nascer; mas eu não tenho filhos... as mais belas e sublimes - para gastar as palavras - experiências que tenho são mesmo as da contemplação - ver, ouvir, cheirar, tocar, saborear - da natureza ou da arte, ou mesmo a sua recordação, ou o lugar para onde elas me levem. Paz.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Apaixonei-me imediatamente

Gostaria de ser um espírito iluminado, não sei porquê. Se soubesse, seria um espírito iluminado. Ao escrever estas linhas, apercebo-me de que tenho um certo grau de iluminação que, subitamente, se conjuga com um certo grau de farisaísmo, desaparecendo então. Na verdade, tive, no passado, algumas iluminações, mas não posso dizer que seja um espírito iluminado, mas obscurecido. Obscurecido por memórias, desejos, percepções, estados de alma. É verdade que, na minha actividade neste blogue, tenho por várias vezes copiado textos de grandes tradições, especialmente do Hinduísmo, que me agrada particularmente. Mas isso - e para mim o digo - não faz de mim um iluminado mas, apenas, um bom copista. Tenho tido dificuldade em meditar, e a verdade é que as iluminações que no passado tive não foram fruto de muito esticar a corda da cítara mas, talvez, sorte de principiante ou uma certa dose de drogas. Sim, é verdade, já atingi estados que diria "transcendentes" usando drogas. Também já tive estados semelhantes - um - por não usar drogas. O cerne da questão é que não sou um espírito iluminado, mas isso todos sabemos. Também, este sou eu sem a máscara. As iluminações que tenho, actualmente, são iluminações da percepção, e só por uma vez (que me lembre) consegui entrar no mundo do espírito, desligando-me dos sentidos. Em parte, o meu fascínio pelo Hinduísmo vem dessa iluminação. Conto quatro ou cinco experiências de estranha transcendência, por meditação ou "iluminação" súbita, e muitas experiências de paixão pelo que se esconde por detrás do mundo sensível, ou pelo mundo sensível propriamente dito, sendo, estas, normalmente experiências relacionadas com o belo ou com o sublime. Deixo-vos com um texto, breve e que não é nem pretende ser nada de especial mas, apenas, uma memória que, por semelhança, poderá despertar memórias semelhantes no leitor, que escrevi anteontem, ao contemplar inesperadamente a beleza e sublimidade deste mundo. Paz:

Hoje vi um dos pôres-do-Sol mais belos de toda a minha vida.
Não vi o Sol, mas a sua luz por entre as nuvens e batendo na igreja.
Era uma luminosidade realmente espectacular, algo divino.
Apaixonei-me imediatamente.