Os jardins parecem abandonados. A infância também. No palácio, as estátuas reflectem, como espelhos, algo que não deixam partir. Prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. As salas estão arrefecidas e nada é real. O belo não existe, como bem sabia Kant. Inexiste. As salas e os jardins do palácio são belos. Mas quando ela se pergunta se o arrefecimento vem do clima, logo percebe que vem do que parece que finda.
A Ideia é ainda, para o humano, o que vem do que está fora do tempo, mas o visita. A Ideia não vem até ela, é ela que vai ao palácio, e o palácio, pensa, é uma obra que a invade de melancolia. A Ideia, no palácio, petrifica-a. Para ela, o palácio continua, como na infância, um lugar velho, um antiquíssimo lugar de reconhecimento. Continua velho, como na infância, continua com ela um continuum de mútuo envelhecimento. Agora ela sabe que a obra de arte não pode ser conhecida porque é um ethos de recolhimento e acolhimento. Na obra de arte, a Ideia é uma visão de reconhecimento e, na ruína da obra, a Ideia resgata-a para a Origem. É por isso que as ruínas brilham mesmo quando arrefecidas. A Ideia paira sobre elas como uma poeira de luz, como um vulto ou manto oculto vagando por entre as portas, no entreaberto, na altura dos tectos, nas sombras ou nas cores consumidas, nas colunas, nas volutas carcomidas. Sente-a em permanente vertigem pelo tempo. Pensa na Capela Sistina e experimenta a mesma sensação, Deus recua nos interiores da pintura de Miguel Ângelo, como recua em silêncio no Antigo Testamento, na obra de arte a Ideia recua. A Ideia de Beleza recua até à ruína…
É esse recuo que gera, no contemplativo, a obediência. É preciso ficar onde uma Ideia não parte mesmo quando se afasta. Assim é com ela, ela prefere obedecer à beleza que a transcende do que à lógica que domina. Assim, presa à Beleza, sente, o belo é belo. Fala para B. mas não consegue partilhar esse sentimento invasivo do Belo. Pensa ainda, antes do coro entrar, que sabe ela do sono? Sabe que o sono é sono. E se lhe sorri, a B., é porque passa à sua frente, como um vulto ou um manto que se quer oculto para sempre, a Ideia. Dela recebe uma bênção. E essa sabe-a, ou melhor consegue dizê-la, a bênção que vem da Beleza é a tristeza. Percebe, antes da música, por que razão consegue o melancólico a visão da Beleza. Há nele e nela um júbilo que talvez venha, Paulo e Lapdrey, da divina mania, talvez o divino ou a Ideia só se ofereça como um dom, porque, lembra-se de ter ouvido ou lido, não sabe a quem nem quando, Deus dá aos que estão em sono profundo e não tanto aos que estão em vigilância permanente. A Beleza abre ao que está vivo e com sono uma morada no sonho, promete um movimento interior ao olhar para o lugar onde dança a imagem pairante, como a pureza promete ao arrependido um lugar à direita do Pai. O melancólico adormece e envelhece, por isso, escutando e vendo a dança segundo a música do tempo. Acompanha com o olhar os coros que cantam, os coros que a dançam. O melancólico é como Janus, o dos dois rostos, é com o olhar elanguescido e adormecido pela música do tempo, o que está voltado para os que vivendo, na roda da vida, conhecem o prazer, a riqueza, a pobreza e a vitória e é, com o olhar rejuvenescido, o que olha para trás, para a Origem. Os homens melancólicos são como as estátuas, reflectem como os espelhos algo que não deixam partir, prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. Os homens melancólicos não perdem dentro de si a infância. Ela é, dentro deles, o Diónisos que o tempo sacrifica, mas o seu outro rosto voltado para trás, glorifica.
Escutando musicalmente Diónisos, o coro, os melancólicos esperam a apresentação da Ideia. Apolo visita-os nessa escuta adormecida. Só a escuta prepara a visão, como só o discurso não escrito treina a memória – como sabia Platão – para o reconhecimento da Ideia. E assim, sonham, que os humanos se reconhecerão filhos dos deuses: escutando a música dos coros que, transformando a dor em alegria, nos mostram a vida como festa da agonia. Os melancólicos esperam o trágico. Porque na música, a Ideia, ressurgindo num movimento do corcel dominado pela Ordem e pelo Ritmo – por Apolo – recua para dentro do homem. No corpo arrefecido, no corpo adormecido e no corpo ferido de mortalidade, a dança segundo a música do tempo, prende com a atenção o que da Ideia perpassa e de nós se afasta. O homem sonha esse outro que dentro de si, velho, é para sempre criança, a recriança. É na ruína que a Origem se anuncia e recria. É na infância que a voz é una com o todo.
Este breve apontamento sobre melancolia, Beleza e música nasceu por causa do poema de Platero que musicalmente escutei no palácio, o lugar onde a minha alma em criança se deu conta da sua melancolia e no domingo, recriando os movimentos do tempo, foi recriança. Grande e grande é a Beleza do poema e da oliveira. Puro o óleo que nos unge de inocência e lembrança.