O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Corpos mortos, por Isabel Rosete

A morte assoma
Sem aviso,
Sem nada!
Apenas dói!
E como dói até os interstícios da Alma,
Abandonada,
Lançada aos grilhões do corpo
Violada pelas suas ardilosas artimanhas,
Em labirinto,
Sem saída possível…

Mais vale a morte!
Que a Morte venha,
Sem escrúpulos,
Mesmo que à Morte não se perdoe!

Tirando-nos a Vida
Lança-nos nos redutos
Do pó e da miséria
A que, afinal, nos reduzimos!

Vida para além da Morte?
Não sei! Não sei mesmo!
Não insistam mais!
Já disse: NÃO SEI!

E Vós, sabeis?
Claro que não!
Ainda ninguém foi e veio
Do reino dos mortos para no reino dos vivos
Para tais pressuposições tecer...

Nem mesmo Orfeu
Que avista, ao longe,
A tênue e esfumada sombra
Da sua amada,
Para sempre perdia,
Por um simples olhar para trás!

As fronteiras da Vida e da Morte
Não se distinguem mais!
Não se iludam!

Isabel Rosete

14 comentários:

João de Castro Nunes disse...

Se vossemecê o diz... assim será! Viva Orfeu e a sua amada Eurídice! E viva Dante que, de mão dada com Beatriz, percorreu inferno e ceus! E viva Eneias que que, de ramo de ouro na mão, foi autorizada a avistar-se com seu pai Anquises na morada dos mortos! Quem duvida... se os Poetas o disseram?! Quem não sabe... não fala, nem mesmo em poesia de oficina. JCN

Harkshis disse...

nem o sol olho fixamente, depois, morrer não é nada, é terminar de nascer nas mandíbulas da morte, pouco se dá conta que coincide com o fim de um universo

João de Castro Nunes disse...

Vossemecê, ó Harkshis, tem cada prosa... que é de a gente se "botar" a fugir, porra! JCN

Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
baal disse...

o que é a morte? a morte não é nada. só a estupidez vacila perante a vida e caminha para a morte.

jcn e fausta: não estão a caminhar para a morte?

Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Harkshis disse...

ser muito grande, muito superior, eis o destino para o qual nasci, para que eu possa permanecer escravo do meu corpo, a vagina da minha alma unificada que dá flor aos cinco sentidos. nesta sala estreitada, de livros empoeirada esqueço o meu corpo, quando indistintos atingem a mesma perfeição.

Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Julio Teixeira disse...

"Sim, o prazer de ler. Livros empoeirados, quanto mais velhos e a cheirar a mofo, melhor. Capas grossas cinzeladas pela letra manuscrita, bem desenhada e folhas fininhas e amarelecidas pelo tempo. Como árvores de Outono a contar histórias antigas sobre nós. Lareira acesa e o pensamento para lá do destino. Indistintamente."

Desculpe recostar,mas é muito bonito.

QuasiCentelha disse...

... e viva a Morte, viva, pim!!

Que miséria!...
A vida tem destas "surpresas", a morte... voo directo ao fim! Um estilo encantador. Ou não... Aí começa a dificuldade, se a tanto nos for permitido chegar. Uma sombra mal(ben)dita de um ser que largou no armário do além túmulo a sua alma... Ausência, no momento em que se chega ao termino da Prova.

Ah!

P.S. Um bilião de pessoas morrem todos os anos à fome.

Harkshis disse...

corpos contra feitos

a ruína o pedestal
em silêncio duas vezes

A. João Soares disse...

Isabel,
Depois se variados comentários, fico preso às palavras de Pessoa que me parecem uma definição dos políticos da actualidade que avançam de »sucesso» em «sucesso» sem de nada se aperceberem a não ser dos faores de cúmplices e coniventes, que devem retribuir, até passarem além de Deus, isto é, reformam-se com escandalosas pensões e subvenções vitalícias que, por terem vergonha de confessar, decretaram que não podem ser publicitadas...

Não será por acaso que a serpente é odiada +pelo comum dos mortais.