O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

homo vitruviano

São Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977

O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.

Miguel Torga, in Diário XII
São Leonardo de Galafura, 11 de Dezembro de 2009

5 comentários:

João de Castro Nunes disse...

Foi o que ficou do Torga: o telurismo. JCN

QuasiCentelha disse...

Location: 'Any' Earth

( The essence in the quality of nature is the unbridled force of its energy and power.)


When I was little I had a secret hiding place in the woods near nowhere. When I could I would escape to it... In that hidden landscape I felt very safe, safe from all the complexities of my life at home and the everyday problems of growing up. In that natural enviroment I felt whole and unthreatened. There were trees and sall animals, plants and good natural smells, snakes and birds, and... It was a holistic universe wich I could inhabit, were I could fantasize. Perhaps most importantly it felt nonjudgemental. I did not feel I had to adapt to anyone`s ideas or demands or dictates. I could be myself. I could dream. I could play games. I could make up stories and fantasies.
That place in the woods has remained with me all my life. I suppose what I have been doing as an adult is trying to find the basic meaning of my relationship to that natural place. Through that search I have hoped to discover tha elements of people`s inherent connections to the landscape wich serves as a guide to design principles.


... belo desenho de uma fantasia esta sua 'reveladora' foto!!


«Silêncio! Cuidado! Terra do eco!»
James Joyce

saudadesdofuturo disse...

A Beleza absoluta é sempre desmedida,imensa, súbita. "Um prodígio"; uma escalada ao cimo. Um "silêncio pasmado(...) a reflectir o seu próprio assombro".
"Galafura" o conto de Torga é esse mesmo prodígio de uma linguagem talhada na pedra. As mãos cheias de terra. O "Sólido" Torga.

Pouco o tenho visto por aqui,a esse "gigante" rude, de face talhada em madeira (parece uma escultura, a sua face)!
O que é mostrado nesta Galafura, o Rui o trouxe, à nossa presença.Leia quem lê o que lê.

Abraço, Saudades

João de Castro Nunes disse...

Nem de propósito, "saudadesdofuturo":

TORGA... EM TOSCO

Transmontano de gema, a cem por cento,
autêntico, vernáculo, frontal,
hostil de rosto e de temperamento,
eras de corpo e alma vertical.

Se eu te quisesse erguer um monumento,
não to faria nunca de metal,
mas de granito ou xisto pardacento
como era o teu aspecto pessoal.

Não ficaria menos verdadeiro
se fosse de rugoso castanheiro
de S. Martinho d'Anta ou região.

Olhar cavado, a golpes de martelo,
havia, Torga, de mandar fazê-lo
ao mais castiço e rústico artesão!

JOÃO DE CASTRO NUNES

saudadesdofuturo disse...

Agora reparo, Rui. O que é a lentidão dos dias de Inverno!:)

"11 de Dezembro de 2009"!

Grata, meu Amigo, por lembrar que do alto se vê Galafura... vou reler o conto! Ai vou!

Um abraço de mão na mão!