O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 9 de julho de 2011

Quadras "platerianas" repentistas e tudo...



Dedicadas a Platero:)

Meia-lua, meia lua!

Meia-lua dos teus olhos

No cento da meia-lua

Cresceu hortelã aos molhos.


No meio desse rosal

Fez um anjo o seu desenho

Se o que fazes levo a mal

É pelo bem que te tenho.


Olhando a minha janela

Vejo dentro a alma tua

Se queres que eu entre por ela...

Meia-lua, ó meia lua!


Maria Sarmento

quinta-feira, 7 de julho de 2011

o pião


...gira pião...
...gira, gira...
...gira sempre, sem parar...
...nunca pares de girar, pião...
...que para sempre gires
na palma da minha mão...

ao Platero, ao poeta

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Paraíso Perdido

Canto IV 356-375

Quer onde o Sol, em todo o giro diurno,
De luz e de calor os campos enche, -
Quer onde a sombra de contiguas ramas
Lindos passeios ao mei’dia tolda.
Este sitio feliz todo era encantos;
De perspectivas mil se matizava:
Aqui, formando deleitosas ruas,
Sempre florentes arvores destilam
Preciosas gommas, balsamos cheirosos;
Brilham de outras alli pendentes fructos
De casca de oiro, de sabor insigne,
Realizando-se alli, alli somente,
Quanto as Hesperias fabulas divulgam.
Eis se interpõe um valle, uma planície
Onde alva mansa grei pasce a verdura;
Ou crespo oiteiro de suberbas palmas;
Ou regadia várzea em que amplas moitas
Das todas a ufania ostentam,
Entre as quaes sem espinhos se ergue a Rosa.                
  
Milton. 1884. Paraíso Perdido. David Corrazzi – Editor. Lisboa. pp 123-124

 à Poetiza dos Jardins 
e ao seu canto de Saudade

terça-feira, 6 de abril de 2010

Serpente emplumada

I

A serpente emplumada
vive na caverna
e, no ar plúmbeo,
pulveriza com um silvo
a pulseira de silêncio

E compõe a jarra
num arranjo:
destaca uma pluma de
pavão no conjunto floral

II

Em plena noite cerrada
semi-cerrados os olhos
de serra em serra na sombra

Em plena montanha pétala
passo a passo até aos píncaros
perfeitamente perdida

Em plena nuvem ebúrnea
enrolada subterrânea
sombra a sombra entre címbalos

Em pleno, implementada
na planta dos pés fincados
n’água da cascata cúbica

III

Pertenço a uma espécie rastejante
mas o solo que raso é o mais limpo:
as asas recolhidas no meu dorso
marfilíneo, a marginar um ovo mágico

Pertenço a uma espécie delirante
com lírios nos cabelos de corsário
e livros de leitura muito bíblica
e laivos de lisérgica pesquisa

Pertenço a uma espécie de poeta
emplumada d’impulsos e de pedra

IV

Plumas de papel
escrito dos dois lados
com profundas rasuras
que atravessam os poros

Plumas que semeiam
um jardim de pombos
a florir planctôn
na flotilha dos teus ombros

Plumas perpétuas:
buganvílias
em antigas telefonias
a ecoar bigornas

Plumas, palácios
de causas de carvão
calculadas nos mínimos
pormenores de som

V

Pedra polida na
superfície branca
pela aresta viva
de faca almofadada

Pedra perfeita na
cavidade negra
completamente em
brasa estereofónica

Pedra de pranto, pedra
de precipício cristalino
aonde se amarinha
em caso d‘erro próprio

Ritual análogo / António Barahona; extratextos de Catarina Baleiras.
1.ª edição. Lisboa: Rolim, 1986. pp. 34-38

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

De um poeta inglês, anónimo...

A João de Castro Nunes

Depois deste local de choro e ira
nada mais há, só o horror da sombra...
Mas a ameaça dos anos, todavia,
há de encontrar-me sempre destemido!

Não importa quão estreito é o portão
quantos castigos são no pergaminho.
Sou senhor do meu próprio destino,
sou eu, o capitão da minha alma!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

homo vitruviano

São Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977

O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.

Miguel Torga, in Diário XII
São Leonardo de Galafura, 11 de Dezembro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

mel e cinzas


frondosas florestas cobrem a encosta
e sobre o que de verde se aproxima
sacadas, caminhos que se estendem
num abraço acalmado a par e passo
levemente, a cada coluna, cada braço
cada passeio das espessas avenidas
onde se escondem das sombras
todos os significados poemáticos
na cinza matiz à dor do informe,
do pensamento, desta arte pintada
pela idade fotográfica do verde
bosque, do verde o mar, da árvore
ponte enigmática, do jardim,
estreitos, que mal se desenrolam
na clara distância mosqueada
pela divina caixa que brilha
na amorosa paisagem citadina
escorrida quando o clima é primeiro
benigno suave vento que o conduz
a um azul inteiro a salpicar de nuvens
as cúpulas e arcadas, os raios do sol,
todos os rugidos de mel cambiante,
efeitos que a luz adida produz
da beleza arrebatada ao infinito
à nascente de imagens original

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aos Serpentinos Passados, aos Serpentinos Presentes, aos Serpentinos Futuros




NAS NÚVENS Júpiter teve o seu inumano nascimento.
Mãe nenhuma o amamentou, nenhuma doce terra deu
Movimentos magnânimos à sua mente mítica
Movimentou-se entre nós, como um rei rabujento,
Magnífico, se movimentaria entre as suas corsas,
Até que o nosso sangue, misturando-se, virginal,
Com o céu, trouxe tal satisfação ao desejo
Que as próprias corças o discerniam, numa estrela.



O nosso sangue falhará? Ou virá a ser
O sangue do paraíso? E será que a terra
Aparenta tudo o que do paraíso conheceremos?
O céu será então muito mais afável do que agora,
Uma parte de trabalho e uma parte de dor,
E em glória a seguir ao amor constante,
Não este azul divisório e indiferente.



WALLANCE STEVENS
Ficção Suprema
*fotos de Sereia*


Juntei alguns nomes (sem ordem nenhuma que lhe valha de mais ou menos), correndo o risco de não me lembrar de todos os que mais gosto... Aqui deixo abraços a:
Anita Silva, João Moita, Ana Margarida Esteves, Adama, Tamborim, Rita, Joana, Liliana Jasmim, Ana Moreira, Platero, Luiza Dunas, Saudades, Isabel Santiago, Paulo Feitais, Paulo Borges, Soantes, Vergílio Torres, Anaedra, Rui Miguel Felix,João Read Beato, Fragmentus, Vicente Ferreira da Silva e muitos outros que me ensinaram a ler e me mostraram sempre mais do que eu viria um dia a ver por mim mesma :)
A TODOS, OBRIGADA*