O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Agostinho da Cruz (1540-1619)

Vivia na corte. Decide renunciar a tudo e entra para a Ordem Monástica do Convento dos Capuchos, em Sintra. Viveu ermitariamente no Convento da Serra da Arrábida, os últimos 15 anos de vida(1604-1619).

Renúncia ao mundo. Busca dos lugares ermos, dos lugares saudosos. Isolando-se do convívio humano acede-se com mais facilidade aos desígnios divinos. Saudade vertical.

Harmonizada a dualidade entre os contrários pela quietação, o pensamento é anulado: a morte em vida, a união com Deus, conforme a mística cristã.

Para Agostinho da Cruz, só morrendo para o mundo dos homens é possível a libertação:
"Assi com cousas mudas conversando
Com mais quietação dellas aprendo
Que outras que ha, ensinar querem fallando".
(Agostinho da Cruz, Segredos e Elegias, Ed. Hiena).

5 comentários:

Paulo Borges disse...

Aprendamos pois com as coisas mudas!

João de Castro Nunes disse...

Boa, muito boa! JCN

luis santos disse...

Se os Mestres o dizem eu, na medida do possível, tentarei não defraudar.

João de Castro Nunes disse...

Pela parte que me toca... faço votos! JCN

João de Castro Nunes disse...

FALAR... CALADO

Como Agostinho da Cruz
também por vezes me afasto
deste mundo tão nefasto
onde nada me seduz.

Com mudas coisas converso
como se acaso falasse
frente a frente, face a face,
com Deus em forma de verso.

Só que, de modo distinto
ao do frade capuchinho
em seu convento, sozinho,

não preciso de deixar
a minha casa, o meu lar,
onde com Deus eu me sinto!

JOÃO DE CASTRO NUNES