O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 25 de janeiro de 2009

Avesso do Contraluz



Nascente
Como o campo se afasta
ao encontro do crepúsculo, vago, longe
Montanhas! Além do frio do tempo
A flor: raríssima asa de ontem.


Dentro dos rios,
Agora,
O ceu estreita tão próximo
o braço canta
Na luz do plátano avoengo
A memória dos vivos engole a erva.


O coração do pássaro é uma pedra
Que voa na boca da asa do vento
Subindo nos perfumes
luzes que se recolhem na erva
Rasto do tempo na lentidão da hora


Mas
a mim mesma me suspendo
Nas pupilas menina dos olhos
luz e lábio, movente gesto
de nada agarrar
nem deixar flutuar
no rio a chuva que não há
a flor do tempo, fixa à raiz
de um pássaro calado
coladas asas
mudo, contra a surpefície
móvel da luz desfeita.

4 comentários:

Luiz Pires dos Reys disse...

Há aqui um respiro em modo haiku de saudir, Saudades...

Vem da nascente.. até ao desfazer da luz..

Contraluze-se, em o avesso, direito de si mesmo:
"A flor: raríssima asa de ontem" ...



pupila do lábio
luz flutua o gesto
chuva canta o agora


lenta, hora se flutua
abraçam-se perfumes
asa e fazer da luz

rio que se afasta
coração da pedra na boca:
o plátano é o céu


crepúsculo de ontem
rasto do vago em flor
fixa à raiz a hora


Grato, Saudades, por tais respiros ...

Paulo Borges disse...

E eu grato, pela grande poesia que escrevem, em portuguesa língua.

rmf disse...

Poeimagem singulares que em si elevam a plenitude da fotografia.

Um abraço, destes braços.

Anónimo disse...

Lapdrey,

Fico contente que tenha gostado.

Obrigada.


Paulo Borges,

Grata eu, pela inspiração (poema de Bobrowski).

Um abraço

Vergílio,

Venha então esse abraço de seus braços...