O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

PASSEIO SOCRÁTICO Por Frei Betto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc.

A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano – e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte.

Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós."

O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela… Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder.

Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade. Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.

Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" – diz Jean Baudrillard – "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/11/403577.shtml

8 comentários:

platero disse...

LUME

Companheiro
Irmão
Amigo

Sem o teu calor
Sem a tua luz

Sem o teu fulgor
Sem o teu fumo

Sabe lume:
Ardo
contigo

gostava de ter escrito a belíssima prosa de Frei Betto. alinhavei esta espécie de poema, que me parece inserido no contexto

Lapdrey disse...

Três rápidas constatações, em tom de "cirrose":

1ª constatação:
Não seria preciso ser frei para escrever tal prosa, que basicamente apenas alinha, por palavras justas e relativamente bem escritas, algo que todos já relativamente sabemos porque sentimos na pele, mais uns do que outros:
Com mais ou menos geladeira, mais ou menos frio, mais ou menos papelão por cobertor.

2ª constatação:
Para um frei, se bem que mostrando a doença, dir-se-ia que algo haveria a mostrar quanto a remédio. Mas não. Nada. O "compromisso social" dá nisto: fica-se no detalhe que é o pé importante, mas perde-se um tanto o tento e a cabeça, que convém sempre não perder.
Outra desnecessidade de ser frei, na circunstância.
Para isto bastava um vulgar jornalista.

3ª constatação:
Sócrates, feliz ou infelizmente, pelos motivos que bem sabemos, não pôde observar na totalidade "quanta coisa [existia] de que não [precisava] para ser feliz".
O pobre, das duas, uma:
ou foi finalmente feliz, o que é bem provável, por se ter libertado de tal incumbência tão pouco filosófica, e nem sequer tão-pouco sofística;
ou então, assim chegou à rápida conclusão de que verificado certo padrão, desnecessário se torna conferir todas as suas ocorrências.
Perdeu-se um filósofo, é certo, que se ganhou porventura em Platão.
Um passeante se perdeu em Atenas, qual hoje também os perdemos aos molhos nos passeios comerciais hodiernos, tendo-se ganho um derradeiro consumidor de sicuta:
a morte, dum só trago, pela nobreza dum princípio.
Deve ser o equivalente ao que agora se chama "acto único".

Obrigado na mesma, Ana.

Ana Margarida Esteves disse...

Que remedio e que propoe, Lapdrey?

Lapdrey disse...

Que pena, Ana!
Lamento mas não sou médico - nem das "ialmas" nem dos corpos, se bem que...

Não se enxofre, nem alcaxofre, Ana Margarida! Então?

O que eu quis dizer é que não interessa andar-se a trocar os papelinhos que escolhemos na vida. Se o freis quiseram ser freis: que sejam freis, então! Ainda que sejam tudo o que forem: até jornalistas. Mas falando como freis, não como estes. Certo?

E deixem-se os freis também de "sociologias da salvação", que só vão parir uma grandíssima (prefere "grandessíssima") "népia", como é costume na Cúria ou na favela.

Mais vale andarem todos aos saltinhos paramentados e darem o show em Alvaláxia!
Todos vemos assim melhor o ridículo da coisa e a coisa ridícula que são.

E deixemos também a tal coisa da sociologia para os sociólogos!
Eles que continuem a analisar a feridas (disso de "sociedade", que ninguém já sabe o que seja) juntamente com a própria
pus, esperando assim chegar a alguma conclusão.
Hum,não me cheira!...
Aliás, cheira ao raio da pus infecta...!!

(Ó Ana, hoje a amiga está muito mais "perguntadeira" do que no outro dia, lá com a questão da China e não China e bla bla bla... A coisa ali deu um bocado mau resultadinho!... Coisas! Eu, se fosse a si... ía analisar feridas... ou sei lá... freis...)

Ana Margarida Esteves disse...

Qual e o seu papel nesta vida, Lapdrey?

Ana Margarida Esteves disse...

Assim se evitam debates entre ideias e se faz a "seleccao natural" de quem fala e quem nao fala, e do que se fala: Ja nao com garrotes, mas sim com ironia.

Lapdrey disse...

Não me diga que a Ana é do SIS? Ou da "Judite".
(Acho que a Ana está ainda "a medo" comigo... a ver em que é que a "coisa" dá... e para que lado é que isto pende. Boa táctica. Perguntas curtas e secas, sem margem para... Muito "sociológico"!)

Sejamos, amiga, tão coerentes que isso nos leve ao limite da própria in-coerência. Falo por mim.
Assim eu quero. Para não ser engolido pela circulação quadrada do intelecto.
(Não sei se isto é o inverso da quadratura do círculo, mas...tanto importa...)

Não nos levemos tão a peito, para podermos levar a vida realmente mais "a sério" no que ela tem de caricato, e mais a "brincar" (como uma criança) no que ela tem de espantoso.

Assim, mantemo-nos infantes e, citando Platero (com a sua licença, amigo Platero) mantemo-nos

"Companheiro(s)
Irmão(os)
Amigo(s)"

(Não interessa defender os pobres "contra" os ricos: isso não é digno dum cristão. Ele não o fez.
Não interessa fazer nada "contra" nada... Devemos, sim, fazer tudo por tudo)

Quanto ao meu "papel"...? (Big question!)

Se o meu for o de um homem que tenha chegado algum dia a ser realmente criança, dou-me por "real-izado", isto é, "aí" tornei-me porventura "real".

Abraço serpentino, Ana.
(A pluma, não me fica lá muito bem. Fico meio "coiso e tal".)

Lapdrey disse...

Como quase sempre, pelos vistos, "morre pela boca", Ana Margarida...