O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

P´RA PULAR (não muito nova)


Ao conceituado sonetista JCN
:

quando o azar acomete
um homem não tem hipótese
até o frio do sorvete
lhe afecta os dentes da prótese

17 comentários:

Paulo Feitais disse...

Isto é que é poetar hiper-protésico! :)

platero disse...

Sem dúvida
:
refrão de pequeno hino ao infortúnio

João de Castro Nunes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João de Castro Nunes disse...

Do Bocage até parece
e só por isso merece
ser posta na prateleira
onde costumo arrumar
os poemas de algibeira
para os não menosprezar
e muito menos deitar
no fundo de uma lixeira!

Tudo tem o seu lugar
venha lá de onde vier
e vá para onde quiser
o autor da brincadeira!

JOÃO DE CASTRO NUNES

platero disse...

mestre do soneto já eu o sabia
campeão do humor
é que ignorava de todo
Guardo a lição

João de Castro Nunes disse...

Em demonstrações de humor
com minhas quadras vulgares
em versos de arte menor
não lhe chego aos calcanhares!

Guarde, pois, minha lição,
que eu guardare seu rifão!

JCN

João de Castro Nunes disse...

Que insípida é a vida... sem um laivo de salutar humor! Que insípida é a comida sem uma pitadinha de sal! Deus nos livre, caro Amigo Platero! JCN

platero disse...

presunção e água benta
devem tomar-se a preceito
se em excesso o homem rebenta
de tanto lhe inchar o peito

arte menor é a minha
maior a do meu amigo
nem sabe o azar que eu tinha
ter que passar a vidinha
a contemplar o umbigo

Rui Miguel Félix disse...

Bom, Platero, para que se perceba, há ou não há dente, o dente, o tal do dente, o tal do dente doente? :)

Gostei da dedicatória

Abraço amigo

João de Castro Nunes disse...

A mão dou à palmatória
ante a sua inspiração:
perante a sua vitória,
fiquei sem respiração!

Vou voltar para o soneto
onde estou mais à vontade
pois nas quadras é verdade
que pareço analfabeo!

JCN

platero disse...

JCN

às vezes tenho medo de magoar os amigos com estes exercícios académicos
quando lhe dediquei a minha quadra
"p´ra pular"foi mesmo com intenção de manifestar a minha admiração pela forma como trata matéria tão sensível, delicada, como o clássico soneto.
Logo de seguida me arrependi, suspeitando uma leitura enviesada
da minha honestíssima intenção.
Acertei. A confirmação não se fez esperar.
Caro JCN, desagrada-me que trate a quadra popular como arte poética menor. Conhece o Raboyat (?) de Kayam (?), tão próximo da nossa quadra popular. E o trabalho de Fernando Pessoa com esse material:
"nunca ninguém se enganou/tudo é verdade e caminho"
que me sugeriu, a mim, modesto praticante de arte menor, de que gosto mais do que pratico, o seguinte exemplar:

já vejo que está errado
o trilho por onde vou
ninguém vai a nenhum lado
nunca ninguém se encontrou

o meu amigo é sem dúvida um bom poeta. recuso é aceitar que, enquanto crítico, me considere praticante de uma arte menor

renovo, contudo, abraço de admiração

João de Castro Nunes disse...

Meu caro Amigo e bem sucedido Poeta: ao cabo e ao resto, parece que fizemos ambos "enviesada leitura" das nossas tomadas de posição, absolutamente honestas e, quando muito, eivadas de um certo fio de socrática "eironeia". Só que eu me desculpabilizo de imediato, dando à expressão "arte menor" o sentido que tradicionalmente lhe é atribuído com base, não na qualidade das respectivas composições, mas tão-só no seu aspecto formal e, de ordinário, em versos de sete sílabas. Foi, de resto, nesta modalidade que brilharam Poetas como Camões e Ruiz de Castelo Branco com seus "Perdigão perdeu a pena" e "Partem meus olhos tão tristes". Não se amofine, pois, meu caro Amigo Platero, e prossiga com as suas admiráveis quadras, de que não perco uma sílaba, mormente quando gentilissimamente me são dedicadas! Se alguma vez lhe atirar uma minúscula pedra, tome isso... como um elogio! Só não se apedreja ou se finge ignorar... o que em verdade nada vale. Olhe o que sucedeu com a Gioconda e com a Pietá! Pedras e marteladas para cima! Quando é demasiado... o sol cega-nos a vista, sobretudo quando somos míopes ou... medíocres. Estou justificado e acaso... perdoado?!... Espero bem que sim, sob o signo da Poesia, a que ambos prestamos culto, metaforicamente discorrendo. Fraternas saudações. JCN

platero disse...

RUI MIGUEL

o tal d(o)ente há muito foi à vida.
Eu jã não me lembro bem da estória.
Era um poema?
ou uma das minhas crónicas do Diário do Sul?
Abraço. continua inspirado, sff

Rui Miguel Félix disse...

Platero, há coincidências que não se esquecem, como hoje e a esta hora devidamente imprópria, 3 e 28da manhã... e uma releitura em saudade de um 'xeque ao dente' :)

Bom, se uma outra vez, virado estava como um lobo esganado, hoje, agora, repouso de sete outros eu, e uma longa viagem em direcção a outra longínqua paragem. Quem sabe até ao mar, quem sabe de volta à montanha... pois então, alcatrão :)

E... acabo por antever a resposta ao que te perguntei, o dente... já era! Já lá vai um ano!

Retribuo o mesmo abraço, e agradeço-te, Amigo.
Grande abraço!

platero disse...

JCN

estando, pelo lido, nos meus dominios
- a tal já por si sobeja e sabiamente reabilitada arte menor- sinto-me no direito de sugerir ao preclaro amigo
uma ligeira corrigenda à quadra em que "injustamente" se declara "derrotado".
O caso não era para tanto, até que a sua declaração de derrota não tem menos qualidade do que o que está na sua origem

vamos, contudo, à minha sugestão:
escreve o meu amigo:
..........
perante a sua vitória
fiquei sem respiração

se fosse eu, teria escrito, para enfatizar a minha condição:

a mão dou à palmatória
ante a sua inspiração:
perante a sua vitória
atiro a toalha ao chão

pretexto para um renovado abraço

João de Castro Nunes disse...

Vencido e convencido! Nada há como a graça... para encerrar uma boa conversa! JCN

João de Castro Nunes disse...

E porque não, aproveitando a sua deixa?

perante a sua vitória
caí redondo no chão.

JCN