O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 17 de outubro de 2009

alma

Não vivo

Apenas sonho e vivo

O sonho é uma goteira que pinga

Ou um bailado de poalhas de luz dourada

Aspergido das fendas do telhado da casa dos meus avós

Era eu menino

Uma casa marítima cravada sobre um penedo

No interior perdido da Beira Alta

São aterradoras as tardes de trovoada

No Setembro em que

Menino

Estou suspenso entre memórias e o esquecimento do que nunca fui

É também ali a casa da morte

Povoada de desistências e de noites rasgadas do uivo dos lobos

Com paredes negras porque ardeu muito antes de eu ter nascido

Sempre a conheci assim reconstruída de forma precária com o que sobrou

E depois de ruir ergue-se nas tardes em que um sentido alado me visita

O anjo da continuação

Que vive nas margens do ocaso

É plena a vida por isso a cortam as lâminas do tempo

A eternidade não se quer permanente

Está nas maçãs do sr. João

Que morreu há pouco tempo num lar da terceira idade

Como as suas maçãs alumiam a minha infância!

Uma vida que se reza é um salto daqui a nada

Não vivo então

Há nos pinheiros uma inteireza de dentro

Brotada do chão capaz de aprumar as lembranças

Num mastro de velas aladas até ao fim

E sobretudo há que não cortar as ervas que crescem ao acaso

Dão frescura às lembranças e trazem por momentos o aroma do princípio

Aos dias gastos por dentro se a vida for cinzenta e com medida

Como as solas dos sapatos os dias gastam-se

Usados tornam-se confortáveis e perdem a rigidez do que é novo

E dentro deles habituamo-nos ao que julgamos ser

Vivemos apenas

3 comentários:

platero disse...

Paulo

ao ler vocês, um dia destes arrumo mesmo a esferográfica.
grande abraço

João de Castro Nunes disse...

Acho que a melhor solução... seria mudar de marca ou renovar a carga! JCN

Rui Miguel Félix disse...

Muita muita! :)

... especialmente desta voz, alma de olhar menino, que em adulto vive e de si se exala em canto.

...e música aí dentro, sente-se, respirada.

...'e de ar' simples, vivido.

Permite-me o elogio,
minimamente descabido... muitíssimo belo! :)

Abraço verdadeiro!

Saudações a todos.