O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 18 de outubro de 2009

saiba que


A minha primeira impressão da Vénus de Milo
não teve não senhor
nada a ver com o binómio de Newton

bem pelo contrário
pensei eu simplesmente
:
coitada - sem braços
tão linda

que pena ser deficiente

13 comentários:

Damien disse...

Ninguém é perfeito, só as obras de arte. Mas as obras de arte são (de) "ninguém"...
Por isso - ainda imperfeitamente como as vemos - são tão perfeitas.

O olhar é que vê (ou não vê) a arte nas coisas, em tudo: umas coisas, mais esplenderosamente do que outras.

Deficientes? Deficientes somos nós.

platero disse...

grato, Damien

leva-me a ver as coisas (artísticas em particular)de outra maneira

abraço

João de Castro Nunes disse...

Fale por si; não generalize! JCN

João de Castro Nunes disse...

As obras de arte... são de quem as produziu. Ineludivelmete. Mesmo que não se conheça o autor. JCN

Rui Miguel Félix disse...

Concordo Damien, em pleno.

Por vezes, pela primeira pessoa, se cria o que outros verão como perfeito, mesmo que seja imperfeita a voz na imagem que em palco o reafirma.

É muito complicado esse distanciamento, e não há espelhos que o provem do contrário.

Teatro, é arte?

Belíssimo pensar Platero, grato.

Abraço a ambos.

João de Castro Nunes disse...

Caro Amigo PLATERO, deixo para si a conclusão do soneto:

Apesar de não ter braços
a grega Vénus de Milo,
a verdade é que, em seus traços,
nada há mais belo que aquilo!

Chamar-lhe deficiente
não é termo apropriado,
o que ela tem simplesmente
é cada braço... cortado.

Deixo para o seu engenho e arte a chave da abóbada! JCN

João de Castro Nunes disse...

Na apreciação de uma obra de arte... nada há mais detestável que a vulgaridade do lugar-comum. Quem nada tem para dizer... melhor é permanecer calado! JCN

platero disse...

JCN
aí vai então a minha proposta de

conclusão do seu soneto, a despeito da baralhação da rima das suas duas quadras, tá?
:
não entende o meu leitor
nem que eu lhe abra a cabeça
que o meu sentido de humor

embora não transpareça
acaba meu bom senhor
onde o seu rigor começa

depois não venha publicamente apresentar-se como vítima, como derrotado, como não sei quê

Não fique deprimido, receba um bom abraço

Paulo Feitais disse...

Acho-a mais bela que a Vitória da Samotrácia e ambas são muito mais que o automóvel do tempo do Marinetti, ou qualquer outro artefacto nascido da concupiscência fabril do homem contemporâneo.
Mas acho que se tivesse braços ficava meio canastrona.
E vai um abraço, com os braços da alma (que dizem que também não existem, o que quer dizer que por dentro podemos ser uma Vénus de Milo).
:)

platero disse...

Paulo
grande confusão vai por aqui nos comentários ao meu poeminha - brincadeira sobre a Vénus de Milo
Que é feito partindo do pressuposto
de que toda a gente que o lê sabe
1 - que a comparação, em termos de beleza artística, entre a Vénus de Milo e o binómio de Newton, é um achado poético de dimensão universal
do nosso -não sei qual o heterónimo - inigualável mestre Fernando Pessoa
2 - que seria ridículo que alguém fosse insensível ao ponto de lamentar a falta de braços de uma peça escultórica - conhecida em todo o mundo muito por esse acidente providencial.
Quase como lamentar que o facho da Liberdade de Nova York se tenha apagado com o vento

Paulo Feitais disse...

:)
Toda a gente sabe que se apagou com um traque do Bush (não me lembro se era o filho se o pai, mas entre um e outro venha o diabo e escolha).
Já os pés do nosso Cristo Rei parece que se enterraram na lama (só há pouco tempo soube que não lhe fizeram os pés).
Isto num soneto até ia de lambretta!
E mais um abraço almado (desarmado, ou seja, desbraçado)!
:)

João de Castro Nunes disse...

Meu caro Amigo e excelente Poeta PLATERO: nada tenho a apontar à sua belíssima proposta para remtar as minhas duas quadras alusivas à Vénus de Milo. Primam pela perfeição formal e subtil humorismo. Só que se afastam da minha ideia primordial. Por isso, resolvi refazer todo o poema e dar-lhe a seguinye redacção, que espero seja do seu agrado... sem grande constrangimento:

Apesar de não ter braços
a pagã Vénus de Milo,
nada há mais belo que aquilo
dada a forma dos seus traços.

Chamar-lhe deficiente
não é termo adequado,
pois mesmo assim mutilado
o seu corpo ofusca a gente.

No que respeita à mulher,
pense alguém como quiser
em questões de perfeição,

eu sem reservas diria
que na minha teoria
ela é mesmo o seu padrão!

JOÃO DE CASTRO NUNES

platero disse...

JCN

nada a acrescentar ao que já disse
da mestria com que o meu amigo trabalha o soneto

Abraço, votos de continuação de boa inspiração