O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

FORA DE QUESTÃO

O binómio de Newton, apesar
de pouca gente disso se dar conta,
há quem o queira, à força, comparar
com a Vénus de Milo... sem afronta.

Foi Fernando Pessoa quem primeiro
essa equiparação pôs a correr,
razão talvez por que morreu solteiro
por de beldades... nada perceber.

Por muito científico que seja
e justa causa de fascinação,
não é legítima a comparação

entre o binómio que a escola ensina
e a mutilada estátua feminina
que a todas as mulheres causa inveja!

JOÃO DE CASTRO NUNES

Coimbra, 19 de Outubro de 2009.

7 comentários:

Damien disse...

Fora de questão!!
(E esta?)

João de Castro Nunes disse...

Deixo o título... à sua ponderação. JCN

Damien disse...

Quis deixá-lo (maldade minha) em dúvida quanto a se o meu "Fora de questão!" se refira a anuência por via do título, se a liminar discordância do teor.

Creio que fico a meio caminho, sincero.
Na meã virtude.

Boa noite.

platero disse...

Além da Vénus de Milo - que toda a gente conhece - não será mau que se dê também uma vista de olhos pelo binómio
Pessoa responde com o selo do seu génio a uma questão intemporal: qual a diferença entre Ciência e Arte

Essa aproximação do Mestre - também é bom referir - diz que "há é pouca gente que saiba dar por isso"

pessoalmente, gosto mais do binómio.
ou sobretudo da explosiva fórmula de Einstein:

e= mc2

João de Castro Nunes disse...

Eu percebi perfeitamente, senhor Damien, eu percebi; por isso lhe mandei uma seta... sesgada para o levar a descoser.se... sem ambiguidades. Parece que acertei.
Certamente que o binómio tem a sua inquestionável Beleza, como aliás a tem tudo quanto é bom, nobre e verdadeiro. Não será a Verdade... a suprema Beleza?!...
Só que nem todos estamos em condições de usufruir... da música dos astros. Andamos cá muito por baixo, rasteiros ao solo. Mas todos temos olhos para, diante da Vénus, soltarmos um "carago" de admiração. Como foi possível tirar de um calhau de mármore uma assombrosa mulher daquelas?!... Por mim... tanto sou sensível às maravilhas das congeminações científicas como das manifestações de índpole artística, seja em que domínio for- Tanto me deslumbra a formula físico-matemática como uma ode horaciana. Só que não as ponho em confronto. Cada macaco no seu galho. Carne é carne e peixe é peixe. Não tolero... a carne pescada!
Quanto à comparação feita por Pessoa, à responsabilidade de Álvaro de Campos (erá que ele teve pejo em assumi-la?), devo dizer-lhe que só o facto de ter a sua chancela... para eu ficar de pé atrás. Ele, assumidamente, trocava de opinião... de hora a hora, como demonstração de "inteligência". Por isso... deixemo-nos de conversas. Para além disso, há que ter em conta aquele dito popular relativo aos efeitos do belo néctar: "Era o vinho, meu amor, era o vinho!". E quem diz o vinho... diz os seus deruvados e sucedâneos, como a velha aguardente ou aguardante velha tão do agrado do Poeta. Entre duas goladas... manifestava-se o génio! E quem tem arcaboiço intelectual para entender o génio?!... Camoneando, eu diria a respeito, que "a tanto a mente humana não se estende". Mas deixemos o imortalíssimo vate, não sem antes perguntar: entre o binómio, a Vénus e o "alma minha gentil"... alguém, com a sensibilidade à flor da pele, hesitaria na escolha?... Consequentemente, não nos coloquem ante becos sem saída e aceitemos que gostos são gostos e cada qual tem o direito de comer do que gosta. Foi o que fiz: sem pôr em causa o meu assombro pela indesmentível equação newtoniqana, deixei falar o meu fraco pela helenística estátua levada para o Louvre por Salomon Reinach, que não deixou de lhe pôr os seus defeitos, ou não fosse ele um puritaníssimo judeu. Nesse aspecto, o binómio leva vantagem, pois não peca por defeito algum.
E tudo o mais, senhor Damien, é pura poesia! e, a (des)propósito, não quer mesmo dar-me uma sugestão para o título, abandopnando a sua "meã virtude"? JCN

P-S. - Escusado será dizer que, para não gastar mais latim, estas desataviadas considerações, ao deslizar da pena, "currente calamo", se aplicam ao judicioso comentário do nosso comum Amigo e bom Poeta PLATERO, o imbatível artífice das quadras... de arte menor, mas de qualidade maior. JCN

platero disse...

um dos casos particulares do
BINÓMIO DE NEWTON - tb toda a gente sabe:

(X + Y)2 = X2 + 2XY + Y2

aí está parte do mistério
abraço

luis santos disse...

Namastê.