O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 3 de outubro de 2009

"Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo"

"Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
[...] Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
[...] Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência"

- Sophia de Mello Breyner Andresen, "Posfácio", in Livro Sexto, Lisboa, Caminho, 2006, pp.73-74.

2 comentários:

Damien disse...

Impossível escolher que passo seja o mais importante nestas espantosas e ciciantes palavras de Sophia.
Quando ela escreve: "sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência", parece-me isso uma das mais sublimes expressões da "esférica" beleza de ser consciente.

Nelas ecoam-me essoutras, de sua obra “Coral”:

"Ouve:
Como tudo é tranquilo e dorme liso;
(...)
Fecha os olhos e dorme no mais fundo
De tudo quanto nunca floresceu.

Não toques nada, não olhes, não te lembres.
Qualquer passo
Faz estalar as mobílias aquecidas
Por tantos dias de sol inúteis e compridos.

Não te lembres, nem esperes.
Não estás no interior dum fruto:
Aqui o tempo e o sol nada amadurecem."

(in "Coral", Portugália Editora, Lisboa, s/d, pág 40)


Deixei, propositadamente, para o final (só Sophia, para quebrar o silêncio de Sophia!) os três versos que estão omissos na citação acima.

Eis-los, como se fora um haiku:

"Claras as paredes, o chão brilha,
E pintados no vidro da janela,
O céu, um campo verde, duas árvores."

Está-se pronto a partir, tão-só se "leia" isto...

Paulo Borges disse...

Já partimos.

Abraço