O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

desatenção


(Nazaré, Agosto de 2008)

Melancolia dourada cintilação do que há de dentro brota

O favo da espera translúcida aparência do que vem

Ao lume da vida na inquietação do reverso da escuta

Toda a música é silente na suspensão da aurora

A audição das coisas deixa-as em cinza calcinadas de antecipação e saciedade

A ossatura do desejo são duas asas de bruma uma fuga a semear-se na treva do depois

Um susto contido pedra a pedra da anestesia de ser na habituação às coisas

Viver em suspensão a boca cerrada para as palavras de fogo

As mãos pescadas à linha para serem só instrumentos de repetição

Criaturas de fundura trazidas para o aquário das tardes fechadas por fora

O que vier assim afogado nas águas paradas da mesmidade

Não poderá furtar-se à contra-luz da surpresa

Essa fome de novidade que esconde o facto de tudo ser novo

A cada instante

5 comentários:

platero disse...

Gostei, Paulo

abraço

João de Castro Nunes disse...

O velho, quando é verdadeiramente belo, nunca deixa, por isso, de ser itirativamente novo! JCN

Joana Serrado disse...

Ola paulo. Ainda há dias estava a discutir com um "aguiano" se amor poderia ser definido como atenção selvagem. Haverá alguma desatenção selvagem?

João de Castro Nunes disse...

Corrijo a gralha "itirativamente" por "iterativamente", ou seja, repetitivamente. JCN

Rui Miguel Félix disse...

Na poesia, a fotografia, dimana, ilimita pelo fundo sabor da deriva, o espaço interior da inspiração.

"Alguém, índigo, perpassa a tela. Sua sombra indefinível."

Assim, desatento, imagino o ponto-de-fuga.

Forte abraço :)