O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ESCRITO DE MEMÓRIA

1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.

2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).

3. A impressão de alguém olhando
-te atrás de ti.

4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti)

5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.

6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.

7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.

8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.

9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.

10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.

11. Esse país estrangeiro, o tempo.


Manuel António Pina (1943)
Poesia Reunida

8 comentários:

João de Castro Nunes disse...

"Porra, senhor abade!" Que coisa... tão sem jeito! JCN

Damien disse...

Bom dia, Eminência!

Vejo que vindes, agora mesmo, de fazer vosso desanuviante e costumeiro gargarejo desentupidor e desensufocante de vossos prelatícios berloques e atavios.

Bendizei!
Vernaculai!
Episcoporrai, Senhor Bispo!

João de Castro Nunes disse...

Para "Eminência"... falta-me o chapéu de cardeal: por enqunto... apenas e tão-só "Excelência Reverendíssima"! Não ponha o carro... à frente dos bois! JCN

Paulo Feitais disse...

Sereia, é bom colher aqui as romãs maduras da tua sensibilidade... Mais um poema daqueles que nos dizem o Profundo com palavras nuas e descomplexadas. O tempo... torna-nos estrangeiros a relação a nós próprios. O próprio de nós não existe sob a forma da propriedade... quase que parece impróprio dizê-lo.
Mas é assim que as coisas são.
Um afago de luz (retirada deste texto-clarão!).
:)

Sereia* disse...

Obrigada, Paulo.
Infelizmente, uma das coisas que luto todos os dias para melhorar é a memória. A minha, a que tenho, não me chega, falha, falta, ausenta-se com alguma facilidade... e quando encontrei este "Escrito de Memória" com estas palavras que quero a tanto custo guardar... achei bonito colocar aqui e no meu blog*

:)

Paulo Feitais disse...

É... a memória também me dá alguns tropeções, mas decidi deixá-la em paz. E acho que a coisa resulta. ;)
E venham fotos!
:)

João de Castro Nunes disse...

Talvez eu consiga... dar um jeito! JCN

Paulo Borges disse...

Belo e profundo texto. Saudações, Sereia!