O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 15 de novembro de 2009

Da ausência

Falta-nos alguém... aquela pessoa que nós somos realmente...
Por isso, o homem passa a vida a procurar-se...
- Onde vais tu?
- Vou atrás de mim!...
E o desgraçado corre e não descansa! De noite continua a correr... É um lobisomem...
- Repousa, pobre doido!
- Não posso! Morro de saudades por mim!
O que nos aflige e consome é esta ausência em que vivemos de nós próprios, esta distância incomensurável que nos separa do nosso espectro!
É esta saudade que nos mata!
Há quem se embriague para a esquecer. César foi César por causa dela.
E Jesus foi o Messias...

Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Lisboa, Assírio e Alvim, 1987, p.44

6 comentários:

Paulo Borges disse...

Abissal Pascoaes. Lê-se sempre como se fora a primeira vez. Quem não o conhece não sabe o que (se) perde!

Infelizmente ainda é demasiado reduzido à "Arte de Ser Português", um livro menor.

saudadesdofuturo disse...

"- Não posso! Morro de saudades por mim!"... E nada mais digo. Sigo "O Bailado"... a ver se me apanho!

Por causa da Saudade é que a Ausência é Presença!

Grata pelo texto, Kunzang.

João de Castro Nunes disse...

A tanto, "saudadesdofuturo", não chegou... Pascoaes! Imerso nas névoas do Marão, faltou-lhe a luminosidade... transtagana! JCN

João de Castro Nunes disse...

César... foi César, porque era César; pura e simplesmente. O resto... são cantigas de "arroz pardo". Não consta... que se embriagasse. O Pascoaes, com essa obsessão das saudades desi mesmo, tinha às vezes cada idéia! JCN

Paulo Borges disse...

Como não morreria o eu de saudades de si, do si?...

João de Castro Nunes disse...

Sabe-se lá!... JCN