O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 20 de novembro de 2009

QUE ESTRANHO

Se não falares é estranho. Se fores lá fora é estranho. Se fores para outra mesa é estranho. Se olhares ao redor é estranho. Se quiseres estar mais fresco e fizeres algo por isso, sem avisar, é estranho. Se não estiveres encolhido é estranho. Se te desviares da luz que te encandeia és estranho e não te desvias. Se te mexeres é estranho. És estranho, queres qualquer coisa, preparas alguma, pensam eles. Se escreveres és pensativo, tens mágoas, és estranho. Se os teus olhos tentam ver tudo, não conseguindo não obstante, és estranho. Se estás em silêncio alguma coisa se passa, estás estranho. Se não tiveres uma echarpe em clima quente és estranho. Se queres respirar és estranho. Se estiveres bem com o fumo és normal. Se cada um estiver na sua = com os seus - é normal. Se seja o que for, se tudo, te disser nada tens um problema, e isto é verdade? Se te mexeres duma certa forma és estranho também. Se fizeres isto tudo queres ser estranho, e isso é pior.

7 comentários:

João de Castro Nunes disse...

E... daí?!... JCN

Damien disse...

A manada fica sempre meia desassossegada, quase nervosa, com a passagem, pelo meio dela, de alguém que não seja o pastor.

Desaparecesse este, por qualquer inesperada razão, e ficaria a carneirada toda a olhar entre si: entre o nem saber que se está desconfiado e o estar à espera nem se sabe de quê...

Carneirices!
(Tão humana coisa, infelizmente.)

Com uma diferença: os bovinos nascem para isso - serem manada.

Os humanos, nem por isso. Mas, sim, para serem ilhas dum vasto arquipélago. De preferência, pastores de si, mas não a si pastoreando-se.

(Texto acutilante e, hoje, bem oportuno.)

João de Castro Nunes disse...

Boa... dedução! JCN

Paulo Borges disse...

É tudo tão estranho, sobretudo nada se estranhar.

Este comentário é à margem da fina e aguda ironia do texto.

baal disse...

se tudo é estranho, somos estranhoa à vida. quer dizer que não existimos?

Paulo Borges disse...

Existiremos, porventura (por ventura?), mas isso é tão estranho!...

baal disse...

é verdade só existimos por ventura. chama-se 'uma fézada'.