O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Elogio da Estupidez


A casa está a arder, que tal espalhar o fogo pelo mundo inteiro? Quer dizer… primeiro há que fazê-lo por paragens onde se possam entender as seguintes vocalizações: “Ó da Guarda! Socorro! Ó da Guarda!!!”

Mas como ser guarda não é ser bombeiro, o sucesso da coisa está garantido.

Vamos, então, propagar a nossa inconsequência mental pelo ‘mundo lusófono’.

Primeiro passo (talvez o mais estúpido – por isso, caro leitor, bata as palmas): anular a independência das ex-colónias, começando por aquele país que soube implementar políticas inteligentes em prol do seu desenvolvimento: Cabo Verde! Sim! Cabo Verde! Como S. Tomé está ali ao pé, também vai. E como?

Através dum referendo!

Pois! Pergunta-se às gentes: «Ó gentes! Querem deixar de ser independentes?» e as gentes: «Ai povo luso, povo luso! Este mundo é uma Babilónia! Descendentes góticos de Viriato! Com oitocentos anos de História! Queremos, para vossa glória, voltar a ser uma colónia!”. E pronto! Foguetório, lançamento de livros para adormecer os lentes, bombos e campinos a dançar ao som dos Radio Werewolf. Está consumado o reviralho, o mundo não tardará a ser nosso.

E com o Brasil? Como os brasileiros são ávidos leitores de blogues, a estupidez depressa ganhará direito de cidade nas terras de Vera Cruz (estão a ver?!). Bem… se não estiverem não faz mal porque temos entre mãos as chaves do futuro. E têm pernas!

E temos autores de nomeada que podemos citar sempre que der jeito. Qual pensar, qual quê!

E dizem que já se sente uma aragem cá em Portugal. Como? Não é verdade que limparam o Trancão aquando da Expo 98? Ou é a quase sebástica assombração do Gato das Botas (era um mulherengo, afinal!) que de Santa Comba torna?

Como o mais lógico era repensar Portugal em si próprio, o mais acertado, tratando-se da expansão da coisa que titula este escrito, é pensá-lo no horizonte da Lusofonia, ou seja, da Luso-Folia. Para a coisa funcionar, e dar vazão ao título deste escrito, só repensando, de forma nunca pensada, Portugal, fora de Portugal, dentro da Lusofonia! Aturdido, caro leitor? Depois da espongiforme enfermidade globalizada, a escassez de mioleira protege os seus portadores por haver menos pasto para o Prião.

Mas tudo isto demora muito tempo a obrar. Por isso é preciso ter calma, não dar… quer dizer, este gajo é comuna! Embora desse jeito andar tudo com óculos escuros para afastar os efeitos da ‘Claridade’. O melhor é declamar o seguinte poema do Pessoa ao som dos My Dying Bride:

O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.


Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer


Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!


Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Ai! Já estou a ver as gentes lusófonas, se bem que muito primitivas e sem saberem nada de Filosofia de ir ali e voltar, à janela, dengosas, a ouvirem estes versos numa serenata estupidificante! “Fica sem alma e sem fala, fica, só, inteiramente!” – Orgulhosamente sós, vruuummmm-vruuuuummmmm-vrummmmmm (isto é o baixo do baixista dos Artic Monqueys a tentar dar nas vistas, o lambão, aqui só um dá nas vistas, os outros enfeitam e ajeitam) – na esteira dos nossos avós que já foram grandes! Dá até para sonhar… “Quem quer dizer o que sente, não sabe o que há-de dizer.” – Nem mais! E a malta sente, ai como a malta sente, um frio no espinhaço sempre que fala na Lusofonia… E não andamos sempre a dar horas, é só quando nos der jeito.

Primeira medida Imperial (de 33cl): deixem em paz o buraco do Ozónio!

26 comentários:

saudadesdofuturo disse...

Que real maravilha!
Ó Paulo, onde foste tu, lusófolio ser buscar essa tua, nossa, jorrante matéria incandescida e encanecida pátria, sempre renovada, mesmo sem cabeça. Com ela no chão continuamos a pensar a estupidez da melhor maneira.

Um abraço para saudar a lucidez luso-fólica que aqui se está a arranjar!
Ai, babilónias em São Tomé, amores derramadas em "canoentas" águas...
com o Poeta a arder naqueles versos "estupidamente belos" com que vens arrancar-me os cabelos da cabeça, deiando-me semelhante à "mulher careca"...

Adorei!
Mas não posso rir... só posso fazer a minha cara de estúpida que não é minha... é emprestada. Quero ver se a devolvo e troco por outra.
Beijo!

saudadesdofuturo disse...

Deve ler-se "deixando-me" no lugar de "deiando", que também não ficaria mal, deixando deus no meio disto, retirando-lhe um "x"... enfim... que não é cromossoma, mas podia ser...

Paulo Borges disse...

Muito bem apanhado(s)! Para rir e despertar!

João de Castro Nunes disse...

Olhe que essa... dos oitocentos anos... já passou! Agora... são novecentos, a caminho do milénio. Vão ser festas... de arroma! Sonhando com o V Império do senhor Pessoa, o etilizado autor do poema a cheirar a aguardente rasca... dos lados de Arganil. Para o que lhe havia de dar! JCN

Paulo Borges disse...

A lusofolia que nada tem de libertadora é querer fazer da Lusofonia a nova África, Índia, Brasil ou Europa de um povo e de mentes que tudo desejam menos descobrir-se a si mesmos, no convívio com o fundo comum de si, de todo o planeta e de todo o universo.

saudadesdofuturo disse...

Paulo,

Para rir (ainda dentro da onda bem humorada da lusófolia- achado surpreendente do Paulo Feitais), rir... e chorar por mais.

PS."Vocemessê", JCN, está sempre a contar os anos e as idades de Pessoa (ou do bagaço que o "pessoas" consumia. O homem era pobre.

Cá me parece que em Góis, camoneando, se vão os rios dar a uma babilónia menos "lusófólica"
e mais "neandertalesa"...(palavra estanhíssima!)Nem existe!

Atire pedras, JCN! mas devagarinho, que acabei de nascer! ainda estou muito frágil.

Um sorriso de "despertar" tardio!
O despertar dos sem-cabeça!(risos)
e ainda por cima... careca!
Não me parta a cabeça perfeita, JCN! Mas pode oferecer-me uma flor em forma de V Império, "soneteando" por esse rio acima!

Damien disse...

Um texto, sem dúvida, caído direitinho da laminar jaez dum autêntico Erasmo lusoesfoliante. Gostei.
"Está gostado", Paulo Feitais!

O humor faz espirrar as teias de toda a aranhice que insista em pegar-se-nos à canela, nalgum vira ou reviralho criptopatrioteiro da lusosquestra pífia de certos e muito incertos moçoilos estultos, perdão, ex-cultos do neo-"levados,-levados-somos"-às- -miríades-de-aguilares-lançamentos-revisteiros-e-obnóxios-lusodesafinados.

Por aqui, onde quer que isso (de "aqui") seja, lá vamos: levados, levados, não.
Por aqui, lá (onde quer que isso de "lá" também seja) "lá vamos, cantando e rindo".

Rindo muito.
De nós, primeiro; de nós, em segundo; e de nós, por fim.

A cada um o rir-se de si, para melhor e mais justamente sorrir de outrem.
Sem esgares e sem tiques... ou (a)taques.

João de Castro Nunes disse...

Soberbo! Os "neandertais"... não diriam tanto nem melhor! Dará... para um soneto... dedicado *à deusa... do riso inteligente e saudável"?!... Vou afinar o violino. JCN

João de Castro Nunes disse...

Que chatice... descobrir-se a si mesmo! E verificar que, no fundo, é tudo... a mesma lama, a sonhar com as estrelas. "Porra, senhor abade!" JCN

João de Castro Nunes disse...

O "pessoas" ("era o vinho, meu amor, era o vinho") era realmente um pobretana, mas para a aguardentezinha, comprada fiado, sempre ia dando! JCN

saudadesdofuturo disse...

Ora, ora, JCN!

Se era comprada fiado... fiava-se assim sem pagar...ou pagando mais tarde a Álvaro de C ou mesmo a A.C. que teria que vender uns borregos do "Guardador das pedras"!

Não!!! Era O guardador do rebanho de que nos falava o Paulo Feitais :) a "nossa" (de quem for) estupidez!

Ó JCN!
Não te engasgues no soneto, ou preferis experimentar a ode virgiliana, versão moderna, de um R.R. em Crepúsculo e Opúsculo da reinante e elogiada "estupidez", porventura de uma "pátria" sonhada, mais a meu jeito... JCN!
:)

saudadesdofuturo disse...

E...:( JCN! O verso é assim: "Era o vinho, meu bem, não meu amor ...)
Onde já se viu?! Um conhecedor da prosa aquiliana, camoneana (pouca prosa) e... Vergiliana (até foram colegas...) não sabe da popular cantiga... "Era a coisa que eu mais adorava..."

Certo, JCN!

Deixe-se ir que... por esse andar, não chega ao pilar da "estatuária criatura maneta"...

Um sorriso, JCN!

saudadesdofuturo disse...

...E... JCN! Não me elogie a "estupidez" que anda muito sensível...

baal disse...

preocupante são os nossos filhos (mais do que a revolução. os professores chateiam-se porque uns serão 'mais' do que outros.
o estado não quer greves. nas escolas aprende-se a andar a salto para delas (as escolas) podermos fugir. e ainda falamos em lusofonia.
o mais correcto é falarmos em implodir portugal.
à bomba

saudadesdofuturo disse...

É. Finalmente, baal... é um país a pedir para ser "dinamitado".

Um dia dou em "guerrilheira"!
Depois da revolução deverá vir não a "extrema unção", mas a... "decapitação", metafórica...

A "estupidez" andante e votante, precisa de despertar!
Se até a inteletual-idade se corrompe a si mesma e se quer "morder"... o que esperar de menos esclarecidas mentes?

Haja honestidade, elevação e nobreza na "elite" (vontade de...)que nos desgoverna.

Os filhos nossos, mesmo com o ensino que lhes deixamos, talvez não cheguem a ter que assistir a tão "degradante" espectáculo de si mesmos! Pode ser que os agora "de-formados" não tenham emprego... e assim... ficam mal empregados...

Será difícil superar este momento de "implosão". Mesmo sem bomba, baal! Quando se chega ao fundo a tendência é parar de descer, e, aí... vem a Aurora.
Mas tem de ser à luta, sim!

Quem a pudera abraçar! Mesmo sendo Poeta, ou por isso...

João de Castro Nunes disse...

Fechou com chave de ouro, "saudadesdofuturo": "por isso"! JCN

João de Castro Nunes disse...

Senhor Feitais: na sua terra, ao sul do Tejo, ao que suponho, assim será: na minha, para cá do mesmo, ou seja, transtagano para si (beirão... para mim), é como eu disse e repito" "era o vinho, meu amor, era o vinho"! Quem tem razão: os alentejanos de cá ou os de lá? Vamos a votos!... JCN

Paulo Feitais disse...

Eu também sou beirão, do lado paterno.
O bom vinho do Dão e o de Pias são insuperáveis.
:)

João de Castro Nunes disse...

Estamos empatados: moeda ao ar! JCN

Paulo Feitais disse...

Moeda?! Rolha ao ar... que está a empatar!
:)

João de Castro Nunes disse...

Por mim... pode vossemecê ir ao ar... quando e como quiser, seja rolha ou não! JCN

Paulo Feitais disse...

ao ar vai-se sempre, o pior é ser-se garrafa vazia... e sem vasilhame...
:)

João de Castro Nunes disse...

Se vossemecê se assume como tal... o problema contibua a ser exclusivamente seu ! JCN

Paulo Feitais disse...

problema não é. Sempre se pode assoprar no gargalo a ver se sai um soneto...
Mas como é que uma garrafa sopraria no seu próprio gargalo?
Problema!

João de Castro Nunes disse...

Problema resolvido:

Quando um empate se dá
em questões de opinião
e outra maneira não há
de pôr termo à discussão,

lança-se ao ar uma rolha
ou moeda de metal
dependendo a sua escolha
das tradições do local.

Enquanto o Paulo Feitais
vai pela rolha, sem mais,
de cortiça alentejana,

eu, beirão de cinco estrelas,
antes prefiro as rodelas
porque assim ninguém me engana!

JCN

João de Castro Nunes disse...

Este soneto, de arte menor, não saiu pelo gargalo, soprando, mas pelo fundo... da garrafa! JCN