O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 28 de maio de 2009

Soneto inútil

O drama do ser é único em toda alma,
na beira-mar sinto o vento me levar
e esta substancia insubstancial é calma,
nesta vida estou morrendo de vagar.

E vago levo o corpo além de tudo
e quando ando, o universo fica mudo,
não somente as coisas também os seres,
amados, conhecidos e tudo que queres.

E todos, na verdade, esperam o declínio,
a minha morte medíocre e prematura
e eu ajudo bastante com o vinho,
que nasce da bondade na sagrada natura.

Ninguém beijo e ninguém pode me beijar,
sou o eterno estrangeiro na beira do mar.

Madragoa 26.05.09

7 comentários:

maltez disse...

Bonito.

Paulo Borges disse...

Belíssimo, Dirk.

Também me sinto "o eterno estrangeiro na beira do mar"...

Abraço

Cinda disse...

Um beijo, Dirk! E um brinde a todos os emplumados com "vinho, que nasce da bondade na sagrada natura." Sorriso ...

dh disse...

obrigado...

Lapdrey disse...

Caro Dirk,

Muito grato pelo soneto, ao tão esquecido modo de três quadras e um adágio final em dueto, como Shakespeare tão sublimemente o cultivou.

"Quando ando, o universo fica mudo"...

Há quem ande (andarei eu, quiçá também...) e nem dê conta de que há universo que emudece, tal e tanto é o tão pouco humano, desumano ruído em nós "estridindo" (essas, sim) inutilidades ...

baal disse...

todos morremos de vagar, seja nas vagas do mar, seja no maior de todos os lugares vagos, a nossa alma.

saudadesdofuturo disse...

Que belo o seu "soneto" mesmo que seja, porventura "o eterno estrangeiro na beira do mar". Não o sompos todos?A

A bondade da "sagrada natura" é o vinho que a mim me ensandece e me leva no "drama de ser {que] é único em toda a alma."

Gostei, Dirk, um sorriso:)