O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 15 de maio de 2009

A Renúncia

Por isso eu digo: quando o homem renuncia a si mesmo e a todas as coisas criadas - quanto mais amplamente o fizer, tanto mais amplamente será unido e abençoado na centelha da alma, que é intangível tanto pelo tempo como pelo espaço. Esta centelha contradiz todas as criaturas e nada mais quer senão Deus, desvelado, como Ele é em si mesmo.

- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p. 260

9 comentários:

Nunca Mais disse...

Deus em si é sem si, sem Deus. A-Deus.

filha pró diga disse...

O Homem não se renuncia a si mesmo. Se o faz, das duas uma: ou acredita no paraíso do lado de lá da existência e é oportunista; ou acredita no lado de cá da existência sem paraíso e é oportunista.Se escolher morrer em vida, morra onde morrer, é pela única causa em que acredita ou desacredita - ele próprio.
Deus? Apenas o ponto de interrogação que prende o céu à Terra. Um pau de sebo por onde caem anjos e não sobem demónios... Com o Homem no pano de fundo a servir de es trela.

Anónimo disse...

Não sabes o que é a renúncia, a libertação, inclusive de ser homem...

Ignorante disse...

Libertação: Posso imaginar-"me" tudo, porque não sou nada. (Fernando Pessoa)

Renúncia: Posso imaginar tudo, porque não sou nada.

Homem: "me"

Kunzang Dorje disse...

Cara filha pró diga,
julgo que para Mestre Eckhart, quando o homem se renuncia a si mesmo e a todas as coisas criadas, fá-lo também em relação a crenças ou não-crenças que aprisionam a sua existência. Julgo que a crença em paraísos é somente mais um véu (como a crença no Deus «velado» ou mesmo a crença do ego) que encobre a centelha da alma. Julgo que a renúncia aqui abordada, sabiamente por Mestre Eckhart, se refere à dissipação dos véus mentais (conceptuais e emocionais) que nos tornam ignorantes, uma vez que nos fazem ignorar a essência sem essência, o fundo sem fundo, a luz sem luz, o nada que é tudo, o Deus sem Deus que há em todos nós.

Caro Anónimo, grato pelo seu comentário animador. Vou investigar melhor acerca do que é ser homem, do que é a renúncia e a libertação... Provavelmente a libertação dá-se quando deixar de saber o que ela é. Certamente se dará quando tiver a coragem de renunciar tudo o que me amarra à existência: aí saberei finalmente ser homem não sendo.

luz sem luz disse...

"Coragem de renunciar tudo o que me amarra à existência:"

Não é o "tudo" que me amarra à existência. É a existência que se amarra a tudo ao mesmo tempo que nos renuncia com a coragem de um cobarde.

Anónimo disse...

Kunzang, não me referia a ti, mas à filha

Anónimo disse...

Kunzang, renuncia-te. Depois falamos. As tuas palavras são ocas como tu. Sê homem e renuncia-te.

Nunca Mais disse...

Quem não é oco? Não é a realidade oca?