O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 21 de setembro de 2009


De ao pé dos loureiros tudo está em repousada quietude, só os caniços entoam pela brisa uma canção. O sol é de setembro, na vinha é brasa e bronze, é uma espiga amadurecida que se volta para a terra, que se quer colhida e guardada para em celeiro voltar a semente.

As figueiras - e na horta os tomateiros, pepineiros, pimenteiros - as figueiras, as videiras, as figueiras e videiras, o cheiro é de colheita e recolhimento, o cheiro é de abundância no clamor por nudez e por doce embriaguez. Os castanheiros, as nogueiras, os pessegueiros, as macieiras, as oliveiras aguardam a sua vez de dar voz no fruto em calores mais frescos que se seguirão.

As abóboras penduradas nos socalcos são brincos garridos, poderão soltar-se e rebolar pelos campos fora. A criança conta cinco, depois dez, cinquenta, cem, leves, soltas, rebolando, a criança rindo e cantando.

Tudo está em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.

6 comentários:

saudadesdofuturo disse...

Luiza,

"Só o caniçal dança. E a criança."
Eu gostei de estar ao pé dos loureiros a rebolar, como uma criança, sabendo que a terra guarda as sementes, que os frutos da época fazem o gosto deste setembro... e Luiza, volta, na minha memória, a visitar os lugares, os mesmos lugares onde a luz muda e se renova em cada estação.

Rindo e cantando gostava eu sempre de estar, como agora estou. Aqui, ao pé das árvores dos frutos que se comem secos: as nozes, as castanhas... o aconchego da terra, a infância...
Tudo está em pausa no sol do equinócio! Também me parece, Luiza!

Um beijo, gostei de visitar este texto, de o cheirar e de o ouvir... nas mãos sinto a rugosa e leve casca da noz... sinto saudades... da infância, de ser pequenina e dançar no caniçal...

Luiza Dunas disse...

O cuco não está, Saudades, mas eu ouço-o cantar.

Um abraço, e boa noite...

platero disse...

bela prosa,Luiza

bela amostra de Horta, com abóboras soberbas brincando na falésia.
feliz do hortelão que vê assim d-escritos os frutos que produz

Paulo Borges disse...

O regresso ao Paraíso, querida Luiza! Que saudades!...

Damien disse...

Luiza, em dunas de palavra iluminada, em plena lavoura de si.

Gratíssimo.
(Lapdrey, lá de onde está, manda saudades!)

Paulo Feitais disse...

Um mergulho na eterna infância da terra... A matriz de que somos feitos e da qual nunca nos separamos se nos mantivermso crianças.
:)