O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Festival de Dioniso


Imagem - Google Imagens
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O festival começava ao pôr do Sol num pequeno templo de Dioniso nos pauis fora da cidade. Toda a população da Ática, incluindo escravos, mulheres e crianças, iam em conjunto assistir à abertura da cerimónia, momento em que era derramada uma libação de vinho como oferenda ao deus. Mas, no dia seguinte, todos os templos eram encerrados e as portas das casas esborratadas com breu. Todos ficavam em casa e cada membro da família tinha de beber pelo menos dois litros de vinho. Era uma competição sombria e mortífera. Não havia contentamento, não se cantava e não se conversava - uma total inversão de uma ocasião social normal em Atenas. Cada bebedor sentava-se sozinho à sua própria mesa e bebia de um jarro só seu num silêncio sepulcral. (...) De repente, o silêncio fantasmagórico era interrompido por uma mascarada grotesca. Actores mascarados que representavam as Queres, os espíritos da morte ctónicos, irrompiam pelas ruas, montados em carroças carregadas de jarros de vinho, exigindo agressivamente hospitalidade, em gargalhadas roufenhas, berrando insultos e fazendo ameaças ferozes. Mas, à noite, a ordem era restaurada. Toda a população, embriagada, cambaleava até ao pequeno templo nos pauis, cantando e rindo e transportando os jarros vazios. Uma sacerdotiza era apresentada a Dioniso como sua noiva, o deus era aplacado e os mascarados, enviados da morte, eram expulsos.

O terceiro dia inaugurava outro ano e um recomeço. A atmosfera era mais leve e mais buliçosa. Para marcar a nova era, todos comiam um prato dos cereais que - como se dizia - os primeiros agricultores haviam ingerido em tempos primordiais, antes da invenção do moinho e da cozedura. Havia concursos, incluindo um concurso especial de ritmos para raparigas, que lembrava o corpo oscilante da pobre Erígone. Nunca se podia esquecer a tragédia inerente à vida. Todo o ritual grego terminava em katharsis («purificação»). (...) Os participantes haviam passado por um ekstasis, «uma saída de si». Durante três dias, haviam sido capazes de se distanciarem da sua existência normal, de confrontarem os seus medos enterrados e de passarem através deles até uma vida renovada.
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Karen Armstrong, Grandes Tradições Religiosas, Temas e Debates, 2009, pp.69-70

7 comentários:

Kunzang Dorje disse...

Rareando os momentos em que o homem podia voltar à experiência da comunhão cósmica, como na festa das colheitas, e sobretudo na das vindimas, em que a renovada abundância assegurava transitoriamente o triunfo da exaltação e do esquecimento dionisíacos sobre o labor e a racionalidade apolíneos, para logo e mais duramente lhes voltar a ceder a prerrogativa, torna-se cada vez mais sensível o "conflito perpétuo entre a força do instinto e a da inteligência previsora", que onosso autor [Agostinho da Silva] remonta originariamente à tensão "entre fusão completa com a natureza e (...) distinção entre um sujeito que pensa e um objecto que é pensado", notando desde logo (...) "que só haverá paz para a consciência humana quando não existir distinção alguma entre o eu e o outro".

Paulo Borges, Tempos de Ser Deus, Âncora editora, 2006, p.115

Kunzang Dorje disse...

O calor do vinho libertar-te-á das neves do passado e das brumas do futuro: ao deslumbrar-te de luz, quebrará as obscuras grilhetas de galeote.

Omar Khayyam

Kunzang Dorje disse...

In vino veritas

Kunzang Dorje disse...

http://www.youtube.com/watch?v=wiaTrO3wAVY

A.Vivaldi - Outono

Kunzang Dorje disse...

"Costumávamos falar muito sobre arte. Fui educada na tradição ocidental, onde a arte é uma actividade que pode ser adquirida num dado momento e colocada de parte novamente. Porém, Gedun Chopel disse que a coisa mais importante é a concentração. O espírito deve estar totalmente absorvido pelo tema. Um dia, por brincadeira, ele disse que mostrar-me-ia o que queria dizer. Foi ao mercado, comprou uma garrafa de arak [bebida alcoólica] e começou a beber. Bebeu sem parar, perguntando constantemente se a sua cara já estava vermelha. Quando finalmente bebeu a última gota, já estava bastante inebriado. Despiu-se, ficando completamente nu, sentou-se e começou a desenhar; desenhou uma figura perfeita de um homem, começando pela ponta de um dedo, delineando-a numa só linha contínua, até chegar novamente à ponta do dedo.

Fany Mukerjee in Gedun Chopel, Tratado da Paixão, Prefácio, p.33

Paulo Borges disse...

Chögyam Trungpa refere um Mahasiddha que atingiu o Despertar ao 25º litro de aguardente... Isso é beber álcool. A maioria de nós é bebida por ele.

Gostei desta evocação de Dioniso, neste dia em que o Outono se inicia, nesta época das colheitas. Confesso o meu forte pendor dionisíaco.

João de Castro Nunes disse...

Dominado e fascinado pela cultura helénica, quase helenificado, nunca mentalmente faltei, com Willamowitz-Mollendorf debaixo do braço e as tragédias literárias na cabeça, perfeitamente memorizadas nos respectivos originais, nunca faltei, repito, às festas em honra de Dioniso nas pradarias de Tempe à luz das tochas rituais dos mistagogos! Que reconforto, senhor KUNZANG! JCN