O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cecília Meireles: Tu tens um medo

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


2 comentários:

Damien disse...

"és sempre outro.
(...)és sempre o mesmo."

"(...)tens um medo:
Acabar."

O medo é-o sempre de alguma perda: de si, de outrem, ou de algo.

Quando, no laminar imo de nós (que nos está também na flor da pele), compreendemos - num sentir que é um ver que é um saber - que nada há a perder senão o que nos perde - então, o medo fica-se-nos com medo de ter medo e deixa de ter medo até do ter medo de ter medo.

Aí, creio, a eternidade entra por nós adentro.

(Obrigado, Laura, pela sempre enorme Cecília)

soantes disse...

Aí está a mesma ascese do poema do Ramos Rosa, mais acima. Muito bem lembrada, esta grande poetisa que era também uma grande mística, para além de uma grande mulher.