O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A palavra são os ossos do ofício de morrer

4 comentários:

João de Castro Nunes disse...

Que estranhíssima... metáfora! A tanto... não chegou Neruda. JCN

Luiza Dunas disse...

Profundíssimo, Antiquíssima.


"POETRY

And it was at that age...Poetry arrived in search of me. I don't know, I don't know where it came from, from winter or a river.
I don't know how or when,
no, they were not voices, they were not words, nor silence,
but from a street I was summoned,
from the branches of night,
abruptly from the others,
among violent fires
or returning alone,
there I was without a face
and it touched me.
I did not know what to say, my mouth had no way with names
my eyes were blind,
and something started in my soul,
fever or forgotten wings,
and I made my own way,
deciphering
that fire
and I wrote the first faint line,
faint, without substance, pure
nonsense,
pure wisdom
of someone who knows nothing,
and suddenly I saw the heavens
unfastened and open,
planets,
palpitating planations,
shadow perforated,
riddled with arrows, fire and flowers,
the winding night, the universe.
And I, infinitesimal being,
drunk with the great starry void,
likeness, image of mystery,
I felt myself a pure part
of the abyss,
I wheeled with the stars,
my heart broke free on the open sky."- P.Neruda

João de Castro Nunes disse...

Como é que, de facto, não havia de chegar... se ele é a metáfora em pessoa! Insuperável! JCN

Paulo Borges disse...

Os últimos versos são-me tão íntimos que cortam a respiração, Luiza...