O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Lohengrin


Imagem - Google Imagens
Richard Wagner (1813/1883)
Lohengrin - Prelude I



3 comentários:

Kunzang Dorje disse...

Esta música evoca a descida do céu de um avatara que veio salvar o mundo. Diz um mestre que os violinos nos registos agudos do início da peça lhe fazem recordar os sons que escuta durante o acto da meditação, sons esses acompanhados por uma clara luz que tudo envolve. A descida do céu pode ser a passagem do estado dharmakaya para o estado de nirmanakaya, sendo o sambhogakaya toda esta melodia infinita; diz esse mestre que esta obra pode servir de base para meditação: primeiro há que focar a mente na natureza primordial (visão), depois o praticante concentra-se na audição da peça (meditação), a qual aumenta a percepção da visão, preparando o praticante para a prática da virtude (acção) nos seus pensamentos, palavras e acções. Diz o mestre que virtude tem origem na palavra virya - viril, e que Wagner melhor que ninguém conseguiu transmitir esta ideia de virilidade associada à virtude nos clímaxes das suas aberturas e prelúdios, como se verifica nesta gravação no minuto 5:50. Quando se pratica a virtude, a energia flui livremente pelos nossos canais de energia. A prática das seis paramitas é isso mesmo: um conjunto de meios hábeis que para além de visar o bem-estar do outro, visa também o bem-estar do praticante ao eliminar possíveis bloqueios de energia nos canais subtis do sujeito, causa da percepção dualística dos fenómenos. Diz o mestre que a descida do anjo à terra evocada pelo prelúdio wagneriano é a descida dos elementos vitais situados no cimo do crânio até ao centro genital, onde as essências masculina (bodhicitta branco) e feminina (bodhicitta vermelho) se reúnem experimentando o yogi/ouvinte beatitude não-conceptual. A seguir ao clímax (5:50), a música regressa aos registos agudos, evocando a prática do yogi que faz subir as essências reunidas ao centro no cimo do crânio, dissolvendo com a ilusão do desejo sexual o próprio desejo sexual: eliminar o veneno com o próprio veneno.
O sexo permite a junção da essência branca com a essência vermelha... Para sentir a beatitude não-conceptual não se pode cair no erro de ejacular pois a energia resultante da junção das duas essências dissipa todos os véus separadores... O vinho, julgo eu, também permite essa união.
Julgo, então, que a descida de um avatara à terra, como buda Maytreia descerá um dia do céu Tushita ou como um messias surgirá no futuro encarnando Deus é um processo interior de transformação espiritual que visa a dissipação de fronteiras entre o homem e a natureza, processo esse que pode ser experimentado por todos nós.

Paulo Borges disse...

Caro Kunzang Dorje, levanta questões fundas e imensas... Vou ter de viajar e lamento não poder comentar...

Kunzang Dorje disse...

Um grande abraço:)