O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A evidência enganosa


Imagem: Escher, "Charco", 1952


O que eu sei, já o não sei, pois encontrar é voltar a perder; mas o que não sei já, isso aprendo-o bruscamente, na condição de com isso não contar, e de em mim preservar esse estado de "graça" cujo nome verdadeiro é inocência.
O instante é a nossa decepção continuada, mas a intuição é o protesto contínuo da enganosa evidência.

Vladimir Jankélévitch,
Philosophie Première”, P.U.F., Paris, 1954, pág. 160

4 comentários:

Paulo Borges disse...

Certeiro. Jankélévitch é dos raros pensadores que consegue escrever muito sem perder a profundidade.

Belíssima imagem, cheia de sugestões. Lamento não haver o tempo de as explorar...

Rasputine disse...

Há evidência que o não seja? Ver é morrer.

Damien disse...

Depende, quanto a mim.
Depende de ler-se evidência ou e-vidência.

Acabo de morrer, ao ver tal evidência.
Se bem que ignore se não teria morrido na mesma, de não vê-la.

"Decepção continuada"? Ou mero "protesto contínuo da enganosa evidência"?

Para me curar da doença duma tal dor que me não dói, hei-de querer "em mim preservar esse estado de 'graça' cujo nome verdadeiro é inocência."

Um preservar que é, a bem dizer, um re-achar: como quem encontra algo que sabe que tem, mas não sabia onde.

Sem perda e sem ganho. Sem saber o que seja saber ou não saber tais coisas.

João de Castro Nunes disse...

Tretas!... Evidentemente! Quem vai... no engano?!... JCN