O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cecília Meireles: Tu tens um medo

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


domingo, 1 de março de 2009

MÓBILE


reprodução

Móbile (1941), de Alexander Calder


MÓBILE


Marcilio Medeiros

areias seguem calcanhares
nômades anônimos
ampulheta fraturada

pela direção dos ventos
levados refazendo-se

é dia pela claridade
grãos que caminham
retirando os passos

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

MITO

wikimedia commons
Prometeu acorrentado, de Nicolas-Sébastien Adam

MITO

eras o meio-dia
o magma em vigília
ardência de frutas ácidas
que desata a saliva

tu o oriente
a anterioridade
a delgada labareda que atingia
com o choque de tua crina

do afago uma águia
do fogo castigo
nas entranhas de prometeu
o resto de todo mito

Marcilio Medeiros

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Que este amor só me veja de partida

"Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida"

- Hilda Hilst, Cantares do Sem Nome e de Partidas, I, in Cantares, São Paulo, Globo, 2005, 3ª edição.