O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Não sabes quem és, o que fazes aqui, de onde vens e para onde vais?

Não sabes quem és, que fazes aqui, de onde vens e para onde vais? Tens medo do escuro, sobretudo do que há em ti? Sentes-te ignorante, só e desamparado? Não tens coragem para o reconheceres e assumires? Não tens confiança nem força para o superar? Então adere a ou cria um movimento, uma religião ou um partido.

Se aderires, não escolhas os raríssimos que te confrontam com isso mesmo de que foges, a tua ignorância, cobardia e egoísmo. Procura sobretudo o que melhor te permita escondê-lo de ti e dos outros. Cria ou recria um mito e esquece que o fazes, tomando-o como verdade e valor inquestionáveis. Invoca nomes respeitáveis e famosos e apresenta-os como teus precursores ou pares, evitando cuidadosamente seguir-lhes o exemplo. Elege e idolatra os teus santos e heróis e excomunga e combate todos os que se te oponham ou questionem. Assume ideais e causas comuns, nobres e transcendentes, que levem os outros ao sacrifício que não fazes. Algo de verdadeiramente grandioso que possa encobrir toda a tua pequenez.

Podes também tornar-te indiferente a tudo, criar uma família, ter um emprego e esperar pela morte.

O resultado é o mesmo: já morreste.

11 comentários:

Damien disse...

Com que bela gargalhada me ri agora de mim mesmo, meu caro Paulo.

Tomara que ela me incomode quanto baste. Tomara, sobretudo, que chegue o ponto em que já nem me incomode.

Então, o incómodo será talvez ainda o que outros imaginarão que eu não sou, quando é isso mesmo que eu sou: uma gargalhada a silenciar-se, e um nada risível a levar-se à cena num palco inexistente.

Anaedera disse...

Ser pequenino é ser grande!

João de Castro Nunes disse...

E se... invertessemos os termos!... JCN

João de Castro Nunes disse...

Convém não confundir... pequenino com mesquinho! JCN

Paulo Borges disse...

Digo o mesmo, de mim mesmo, caro Damien. Muito de mim ri a ver e escrever isto, embora não deixe de haver cometido a falta de também rir de outros...

João de Castro Nunes disse...

Quem, na comédia da vida, se encontra isento dessa falta?!... JCN

João de Castro Nunes disse...

O mal é nem sequer haver motivo... para se rirem de nós ou à custa nossa!... JCN

Paulo Borges disse...

Rir também é ter medo, acho que o disse Nietzsche...

luis santos disse...

Santa provocação. Sempre em doce sossego, semore desassossegado. Como todos nós, ao espelho, rindo-nos da própria cara que é simultaneamente a dos outros.

Grande Abraço.

João de Castro Nunes disse...

CONFRONTAÇÃO

Ser contestado é bom; ser posto à prva
é salutar; faz bem de quando em quando
saber-se que nem toda a gente aprova
as nossas veleidades de comando.

Estamos muitas vezes saturados
de uma total respeitabilidade
que nos endeusa e torna equivocados
pelo que toca à nossa identidade.

Na Roma antiga era hábito chamar
aos generais nos triunfais cortejos
todos os nomes para lhes lembrar

que não passavam de homens como nós
devendo refrear os seus desejos
porque o poder... é efémero e veloz!

JOÃO DE CASTRO NUNES

João de Castro Nunes disse...

RIR À SOCAPA

Que um senador romano não se risse
por ser contrário à sua gravidade,
piamente credito, ainda que ouvisse
um dito da maior... alacridade.

Mas que Jesus nunca se houvesse rido
em toda a sua vida humanizada,
essa, a meu ver, não faz nenhum sentido
nem me merece crédito... por nada.

Quem é que não havia de se rir
entre as crianças que, para o ouvir,
à sua volta, às vezes, se juntavam?

Estou a vê-lo rir-se intimamente
dos fariseus que lhe faziam frente
e, confundidos, dele se afastavam!

JOÃO DE CASTRO NUNES