O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

mulher






"Tu és pura e imaculada,
Cheia de graça e beleza
Tu és a flor minha amada,
És a gentil camponesa.

És tu que não tens maldade,
És tu que tudo mereces,
És, sim, porque desconheces
As podridões da cidade.
Vives aí nessa herdade,
Onde tu foste criada,
Aí vives desviada
Deste viver de ilusão
És como a rosa em botão,
Tu és pura e imaculada.

És tu que ao romper da aurora
Ouves o cantor alado...
Vestes-te, tratas do gado
Que há-de ir tirar água à nora,
Depois, pelos campos fora,
É grande a tua pureza,
Cantando com singeleza,
O que ainda mais te realça,
Exposta ao sol e descalça,
Cheia de graça e beleza.

Teus lábios nunca pintaste,
És linda sem tal veneno,
Toda tu cheiras a feno
Do campo onde trabalhaste,
És verdadeiro contraste
Com a tal flor delicada
Que só por muito pintada
Nos poderá parecer bela,
Mas tu brilhas mais do que ela,
Tu és a flor minha amada.

Pois se te tenho na mão,
Inda assim acho tão pouco,
Que sinto um desejo louco:
Guardar-te no coração!
As coisas mais belas são
Como as cria a Natureza,
E tu tens toda a grandeza
Dessa beleza que almejo,
Tens tudo quanto desejo,
És a gentil camponesa"

António Aleixo

13 comentários:

João de Castro Nunes disse...

Tirando as quadras... valha-o Deus! JCN

Rui Miguel Félix disse...

Anaedera, uma ressalva às "Etiquetas"... Homem e Mulher, porque não?

Imagino o poeta, definhado p'la estrevécula.

Sem dúvida, UM GRANDE POETA!
Se não fosse o seu médico - o seu grande amigo - a acalentar-lhe o espírito e a força para escrever mais, o que seria de algumas das suas grandes quadras... irremediavelmente perdidas (esquecidas) para todo o sempre.

Há uma delas, de cabeça, que aqui gostaria de evocar, a ver como me saio com a estaleca... Na terra acho, na terra deixo...

Sei que umas quadras são conselhos
que vos dou de boa fé
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é.

Vou ver se não me enganei...

Um abraço Anaedera

João de Castro Nunes disse...

Aproveite para si, cro amigo, o conselho... do espelho! Caso não tenha, empresto. Espelhos e cadeiras... é coisa que em minha casa não falta. JCN

Rui Miguel Félix disse...

Ora deixa cá ver... espelhos, espelhos, hum... pois, não tenho.

Mas o João diz que tem, e muitos, juntamente com cadeiras, de estar, espero. Que bela mobília!

Ora bem... aceito!

Marquemos a hora para entrega, de acordo? Mas... empresta? Porque não mos vende? Afinal de contas, sempre era uma oportunidade de negócio... não há problema, sei também que não mos quer dar, assim sendo, um empréstimo, pode resolver sobremaneira os meus problemas de décor. Aceito! - reafirmo.

Já agora, o mobiliário... estilo antigo? Medieval, Gótico, ou Bauhaus? Bauhaus é que era... Pós-moderno, futurista, ante-apocalíptico, um espectáculo... como diz o pequenote.

Os espelhos João, os espelhos... quem há muito descobriu a forma de serenar o oscilado revérbero da lâmina álacre de um rio devia ter dado um valente torcegão enquanto contemplava, pois foi nesse preciso momento que um espelho-de-falha de pirite foi utilizado para voltar a olhar nos olhos a imagem cambiante do ser fundido na paisagem. Aí, meteu o espelho ao bolso... a perfeição e o rigor dos contornos devolviam-se-lhe na forma, agora uma imagem plena de toda a sua imperfeição. Por fim, nunca mais voltou a olhar um rio.

E uma quadra? D'arremate?

Ora aí vai...
Esta é minha, assino-a e tudo:

Ver na arte o que se me espelha,
Seja em prática, seja a máscara...
franzo a testa, a sobrancelha,
….

Não quer terminar? - falta-me a rima, e o engenho…

Bom,
à frente!
Para quando a entrega?

Um abraço, muito agradecido.

pos pré-scriptum

Este poema do Aleixo é lindíssimo, lindíssimo... nele o verde, onde se enquadra a esperança, e uma mulher. Não o conhecia. Grato.

Abraço, Anaedera.

Anaedera disse...

Para Além das quadras, em pouca mais beleza se resumirá a imagem de meu espelho, para que eu convosco a possa partilhar.
O que mais ter Além da vida que vejo encarnada e das flores que nela vão sendo bordadas em rodas como de saia que me vestiram de mulher?!

Abraço aos dois

João de Castro Nunes disse...

Muita prosa para tão ligeiro assunto! Muita gaiola para tão pequeno pássro! Vamos ao cerne da questão.
Tenho muita pena de não lhe dar ou vender a mobília, porque se trata de uma relíquia de família que remonta à era dos neandertalóides, em perfeito estado de conservação. Nada de românicos, góticos, barrocos e quejanos. Tudo pedra lascada ou, como agora se vem dizendo, pedra escalavrada. Fiquemos... pelo empréstimo!
Então vossemecê ainda vê no verde a cor da esperança?!... Parece-me que vossemecê ainda é anterior aos meus remtos antepassados. Leia os trabalhos de Pastoureau acerca da significação das cores e depois... fale-me dessa. Que resta ao desesperado... senão a esperança? Detesto o verde, que é cor da cruz da botica onde compro os meus remédios, a cor do dólar, a cor do pano das mesas e jogo, nos casinos, a cor das esmeraldas... que vejo por um canudo. Azul, meu caro amigo, fale-me de azul que é a cor preferida da "saudadesdofuturo": azul que é cor do sangue da nobreza! E com esta me vou, que já os pássaros se vão recolhendo aos ninhos. JCN

João de Castro Nunes disse...

Não é "mesas e jogo", mas "mesas de jogo". Faz falta ao blogue um revisor de provas. JCN

Rui Miguel Félix disse...

Amor... Anaedera,
Amor :) - estou a brincar, perdoe-me... não, não estou a brincar...

A sua pergunta, longe é de resposta fácil.

Grato e um abraço minha boa amiga.
Um sorriso :)


Safiras, meu caro João, safiras, só superadas... pelo diamante! Ambos alocromáticos florescem-lhes matizes cedidas pelas impurezas; amarelos, rosas, púrpura, cinzas... no mais vasto espectro do visível, assumem-se como espécimes cambiantes no que à cor diz respeito. A cor, esse factor "estrangeiro" ao corpo que marca e individualiza a matéria sujeita a apreciação. Até verdes podem ser, como a dita pedra - salvo seja - com que Deus honrou o Berzebu antes de lhe dar um pontapé no salvo seja... - (bed time stories que nada têm a ver com o assunto.) Vá... vá... tanta aversão junta só para se saber que, lagarto... nem pintado!
Que tristeza ser-se lagartóide hoje em dia... nem campeonatos, nem nada, não é assim que se diz?

Bom, e com esta, me voy. Ando às voltas com o reboco na retrete e o silicone na banheira, coisas de casa... só me faltava mesmo, mesmo mesmo, uma mobília ancestral! :)

Emprestada? Muito obrigado.
tem o meu endereço electrónico?
Por certo ainda tomaremos juntos uma bebida quente, no intervalo das explicações com a menina Fausta, um sorriso para ela também.

Sabe João se, como diz, for mesmo de pedra, nem sabem o quão satisfeito ficaria. Faço colecção de diversos materiais, poemas, calendários, e muitos, muitos minerais! E agora uns móveis... lindo!

Muito obrigado!

Um abraço!

João de Castro Nunes disse...

Parece que vossemecê... deu a casca, senhor Félix! Afina com pouco. Não se amofine, homem: há pedras para todos. Quanto às retretes... ponha-lhes criolina com fartura! JCN

Rui Miguel Félix disse...

Bom dia João.

Depois de reler, mais uma vez, dei conta que seria mal-interpretado, transparecendo aquilo que diz como "amofinado". Mas olhe que amofinado é coisa longínqua na minha forma de ser, a menos que, por força do infortúnio, assim o dê a entender.

Estamos a falar meu caro amigo, e o que disse, é a mais pura verdade!

Obras em casa, meu caro amigo, obras em casa, sem o pendor subjectivo que lhe puderá querer imprimir.

Mas - e desculpe-me Anaedera por abusar do seu post para diálogo - comigo, não tem de se preocupar amigo João. Sou um indivíduo pacífico, não faço mal a uma mosca, embora de vez em quando, lá me dedique a outras actividades que possam de alguma forma ferir as mais sensíveis susceptibilidades.

Comigo, o diálogo está em aberto! Não lhe fecho portas, nem tão-pouco as deixo entreabertas para a qualquer momento, por acidente, se possam, aquando da ventania, fechar-se por si próprias.

Cativo da amizade, a si a estendo, sabendo em antemão que a história do mobiliário é brincadeira (ou não?) tudo o resto, é, como lhe disse, a mais pura das verdades.

Relicários e outras peças de antiguidade também colecciono.

Moedas, livros antigos, selos, medalhas de bronze, isqueiros, relógios, vidros, cristais, e alguma porcelana, fazem parte de uma pequena vamos em família amealhando, comprando, trocando.

É um prazer dialogar consigo e, quem sabe, um dia, em breve, teremos a feliz ideia de ver, partilhar ou inclusivamente trocar algumas das nossas mais preciosas relíquias.

Bom, desejo-lhe um bom dia, pleno de paz e sossego, e luz, muita luz, para que de uma vez por todos o céu se quede desenevoado.

Dedico-lhe, meu caro amigo, o poema que publicarei de imediato, de um poeta inglês, anónimo...

Bom dia para si e para todos os seus, e que a felicidade nos invada! O bom humor e a paz.

Abraço, meu caro amigo!
E venha daí esse sorriso :)

Bom dia Anaedera, muito obrigado.

Rui Miguel Félix disse...

por omissão, lapso, "...uma pequena (colecção que) vamos em família..."

Abraço

João de Castro Nunes disse...

Meu caro Amigo Rui Miguel Félix, que as pedras sejam o penhor do nosso pacto de "irmãos de armas", selado com sangue, sem lágrimas, em pergaminho velho! Morra quem se negue! Tomo p+or madrinha a "saudadesdofuturo", de azul vestida. JCN

Rui Miguel Félix disse...

Abraço então!
Seladíssimo!