O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

auto-estima


Já contei a vocês da minha participação nas aulas de Hidroginástica para a terceira idade.
Nas Piscinas aquecidas de Arraiolos.
Homens e mulheres, estão a ver, próximo dos setenta (que já não tenta coisa nenhuma)
: agora assim - levanta os bracinhos
pra baixo - prós lados - pra cima
Agora chuta - com os joelhos bem subidos; caminha; caminha e chuta; sempre com os joelhinhos levantados....

É a primeira sessão a seguir às Festas de Fim-de-Ano

Falta muita gente - mulheres algumas - homens então nem é bom falar
:
Só dois - Um gorducho cinco ou seis anitos mais velhote do que eu,
com um monco de peru vagamente saliente das pernas muito brancas
e eu

que sempre acelero o duche quando a turma de homens é mais vasta
eu com minha salsichita negra
encolhida minhoca com o frio
apêndice ridículo

Como eu hoje me exibo
a esfregar o corpo todo -sem pressa sem vergonha
assobiando
- como é possível, senhores -
parte do que sei
de Carmina Burana

13 comentários:

platero disse...

esta pequena estória pode chocar leitores mais sen´siveis de Serpente.
Responsáveis do Blog podem apagá-la de imediato se assim o entenderem.

sério!

Rita Cardoso disse...

Que lufada de ar fresco, platero, porra. escreve mais sobre isso, que até parece que estavas a tratar-nos a todos, efeito terapêutico tipo hidroginástica que deve ser bom.

Paulo Borges disse...

Apoiado!

Flávio Lopes da Silva disse...

bom dia!
muito bem esta estória
abraço

Rui Miguel Félix disse...

Platero, sinceramente, achei este pequeno grande episódio de uma subtileza sem par, de um humor que só tu és capaz de proferir e de uma simpatia que apetece aplaudir!

Como a Rita disse, destes-nos a todos o teu banho de água quente, tépida, sem queimar.

Elevaste e de que forma a auto-estima em cada um, leve, levemente, como um assobio de juventude.

As tuas palavras, são, essa fonte inesgotável de vida e a tua música, em liberdade.

Em mim, mais do que terapia.
E por tudo isso, te agradeço Platero.

Platero, um dos contribuidores deste blogue, que decididamente não cansa respirar, ao contrário de outros, como eu, que recentemente perde a lucidez para adequar o que quer que seja com vista a enriquecê-lo...

Daí, também, o meu obrigado, amigo.
Há alturas que apetece "dar de fuga"! Alturas que me pergunto, que faço eu aqui? Deabafos... perdoem-me.

paladar da loucura disse...

que coisa linda!

Sereia* disse...

Ena pá, Platero! Nem imaginas a felicidade que acabaste de me dar!
Sabes quantas vezes por dia vejo essas caras e essa felicidade?
É a alegria que se espalha.
Eu sei disso!
As corridas ao duche em dias de muita gente :) tal e qual! É mesmo assim!
E a perda da vergonha do corpo que cada um tem chega a afzer bem à saúde, muito para além do exercício físico :)

Beijinho de Sereia*

platero disse...

"a poesia é o autêntico real
absoluto.
isto é o cerne da minha filosofia:
quanto mais poético, mais verdadeiro

NOVALIS

tinha a citação mais ou menos de memória, sabia que de uma coleção de poesia com o desenho de cavalinho alado - Pégaso?- não era por isso difícil encontrar um exemplar para cotejar.
Veio à mão GEOGRAFIA, da transparente Sophia, a Editora a ÁTICA - antes mesmo da clássica ficha técnica, a "citada" citação

Subscreveria de Novalis o que me tinha ficado de memória, permitindo-me a ousadia de tentar adaptar à minha mais caseira filosofia:
quanto mais verdadeiro, mais poético.
Que não é bem a mesma coisa

Agora um breve comentário aos comentários amigos que foram aqui pousando:
RITA
- é bom não termos vergonha de nos despirmos e de nos mostrarmos nus. Mas olha que os nossos amigos não gostam de saber que nós temos os pirilaus pequenos ou as mamas descaídas. Muito menos aceitam que sejamos nós próprios a divulgar essa realidade.
O meu "h-ortografias"- onde em primeiro lugar expus o meu exercício lúdico - reduziu drasticamente o número de visitas.
E comentários - ao contrário de em "Serpente"- nem um
Ninguém gosta de fracos ou menos dotados assumidos.
Todos gostam de ter como amigos semi-deuses ou no mínimo heróis

PAULO - acreditei que não encontrarias nada de escandaloso no prospeto. E, mesmo que encontrasses, nunca o eliminarias como eu propunha.
Abraço, reitero a gratidão pelo acolhimento que tens dado às minhas coisas atrevidas.
Sei que quase sempre ao arrepio de espírito do BOLG.

FLÁVIO- sei que não estás a devolver a minha pública manifestação de agrado pela tua poesia.
Para ela é que eu talvez pusesse no original o fim de citação de NOVALIS:
"quanto mais poético....

RUI MIGUEL - também não é a primeira vez que digo que gosto da tua escrita, em particular da poesia. Claro que o teu problema é igual ao meu. Ao de tanta gente: reconhecer as nossas limitações.
Como quando tomamos banho nus no meio da multidão e nos tomamos por os mais primários dos primatas.
RUI - escrevo, com gosto, desde que me conheço. Há décadas. Não tenho um só livro publicado. E a literatura portuguesa nada perde com isso. Ninguém perde com isso-
A NET, agora, permite-nos conhecer
uma infinidade de gente mais sensível, mais culta, mais vocacionada para a escrita do que nós. O que fazer então?
Desistir?
Descrever a minha aula de Hidroginástica pode ser uma vulgaridade literária como o são o caldo-verde ou a açorda para a culinária regional.
Pode ser uma merda. Não revi o texto, estou-me nas tintas para o que poderia ser se tivesse sido escrito por um Nobel. Sinto-me mais rico porque o escrevi. Isso me basta.

PALADAR DA LOUCURA
- Que coisa LINDA és tu, Miúda. Deixa-te de sentimentalismos e cuida, mais do que aos sentimentos, de dar pasto aos sentidos-
Um beijo

SEREIA -
velhos conhecidos somos nós. Sem contudo nunca nos termos encontrado
Vamos nos cruzando nas roupas que despimos nas coisas que escrevemos

beijinho para ti

baal disse...

platero é assim a velhice??? bom é que começo a aproximar-me.

abraço

Rui Miguel Félix disse...

Estendo a mão ao Homem, ao Poeta, ao Amigo, a quem ma recebe aberta junto à dele.

Estendo as mãos, a ti, confiantes do Abraço!

Agasalhado e à lareira (interior... porque quentinho, só do irradiador) saúdo Platero, pela forma como me abriu as portas e janelas de casa.

Tudo de bom!
Muito obrigado!

João de Castro Nunes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João de Castro Nunes disse...

Vossemecê, ó PLATERO, já não disse o mesmo de mim... relativamente ao NOVALIS?!... O que são... as TEM-PRATURAS! Valha-o Deus! JCN

platero disse...

só um breve recadinho a BAAL
:
quem sente necessidade de dar a conhecer, ou recordar, Manuel da Fonseca não envelhece NUNCA

abraço