O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Drama do Amor

Diabo para Jesus:
Desprezaram-te e escarneceram-te. Vês tu. Sou eu que domino o mundo, porque o mundo não é senão luta, egoísmo, interesses e vaidades. Porque o fizeste assim, se foste tu que o criaste? Os homens dilaceram-se numa guerra atroz de que tu és o culpado, para afinal se deixarem dominar por mim. Tu criaste o homem, mas eu forneci-te o barro. Criaste o mundo, mas eu dei-te a matéria de que ele é feito. O meu riso é o sangue dos homens. Palpita-lhe nas artérias! E o sol não é mais do que uma brasa do inferno! O Deus talvez seja eu! Porque, demais a mais, é preciso que saibas: eu não abuso; contenho-os. Na realidade quem os contém, não és tu; sou eu. Se não fosse eu!... Sou o medo! É com o medo do Diabo que as mulheres não se atrevem a ir até ao fim dos seus desejos. Contenho muitos crimes. Os assassinatos que se sonham dentro de cada família, não se realizam, as mais das vezes, porque lhes meto medo! Neste vasto mundo, a mulher seria pior que o homem, se não fosse a minha sombra. Escuta, filho! O drama do amor, somos nós dois que o temos conseguido equilibrar. Eu, dum lado, a puxá-los para baixo, para a animalidade; tu, do outro, a levá-los para cima, para a espiritualidade. Mas se não fosse a animalidade, já o mundo tinha acabado. E eu quero saber em que te havias de entreter.

Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia em sete actos, Assírio e Alvim, 2007

3 comentários:

Paulo Feitais disse...

A diabolia é intrínseca à simbolização - só se une o que foi separado. So se cria transformando. :)

Damien disse...

"Na realidade quem os contém, não és tu; sou eu. Se não fosse eu!... Sou o medo!"

Isto parece falar de muito político da nossa Liliput! O mesmíssimo tipo de argumento vicioso...

O triste facto que hoje se comemora foi disso o pretexto e a justificação. Querer-se-á melhor exemplo?

Se tais vilezes se revêem na ignóbil pequenez nacional ... deixo-vos a escolha!...

Damien disse...

Corrijo: onde escrevi "vilezes", leia-se "vilezas"