O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

"Quem quer verdadeiramente filosofar..."

"Quem quer verdadeiramente filosofar deve ser livre de (los sein) toda a esperança, de todo o desejo (Verlangens), de toda a saudade (Sehnsucht); nada deve querer, nada saber, sentir-se totalmente nu e pobre e tudo entregar para tudo ganhar"

- Schelling, Werke, ed. M. Schröter, V, 12.

3 comentários:

olivromorreu disse...

Cada vez mais impossível num mundo cada vez mais ligado?

Damien disse...

Talvez confundamos, demasiado amiúde, filosofar com escrever livros de filosofia ou simplesmente ensinar a pensar.

(Disso sabe bem demais e nisso sofre, imagino, Paulo Borges e todo o docente consciencioso (e que se queria lúcido e honesto) duma filosofia hoje enclausurada viva na masmorra labiríntica do ensino (fixamente quantificado) que temos, ou não temos.)

Creio que filosofar é sobretudo o tender - na corda bamba, e sem rede, da ousadia de pensar como se ninguém o tivera feito antes - e tender para um viver, tanto quanto possível, despojado de todo o virtual ou mesmo virtuoso apego.

Só assim, nada esperando, nada desejando, de nada saudoso, nada querendo, nada sabendo, desnudando-se de si até, em pobreza de todo o mais subtil ter, possuir ou poder e, assim, tudo entregar e, nisso, tudo afinal encontrar.

O nada aqui, suponho, será a tenção para a simplicidade em tudo, uma espécie de fransciscanismo sem sentimentalidade mas com emoção, inteligente mas destituído de intelectualidade - como se Francisco houvesse nascido e vivido não em Itália, mas no Japão.

O filósofo terminará, assim, sábio; e o sábio findará criança.

A criança, essa, "livre (isenta)de toda a esperança", jamais amadurecerá "adulto", e para sempre será fruto da mais bela flor, porque flor será em todos os sentidos do dar fruto.

(Que belo, este Schelling, meu caro Paulo.)

Paulo Borges disse...

Damien, reconheço-me plenamente em tudo que dizes, menos no que de mim dizes...

Há que retomar este sentido do filosofar.

Abraço