O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A Pedra no Charco: o Povo

"E o povo?", dir-se-á. O pensador ou o historiador que empregue esta palavra sem ironia desqualifica-se. O "povo", sabe-se demasiado bem a que se destina: padecer os acontecimentos e as fantasias dos governantes, prestando-se a desígnios que o abatem e anulam. Toda a experiência política, por mais "avançada" que seja, desenrola-se às suas custas, dirige-se contra ele: ele traz os estigmas da escravatura por decreto divino ou diabólico. Inútil apiedar-se dele: a sua causa é sem recurso. Nações e impérios formam-se pela sua complacência com as iniquidades de que é objecto. Não há chefe de estado ou conquistador que não o despreze; mas ele aceita este desprezo e dele vive. Cessasse de ser frouxo ou vítima, faltasse aos seus destinos, a sociedade desvanecer-se-ia e, com ela, toda a história. Não sejamos demasiado optimistas: nada nele permite considerar uma tão bela eventualidade. Tal qual é, representa um convite ao despotismo. Suporta as suas provações, por vezes solicita-as, e não se revolta contra elas senão para correr em direcção a novas, mais atrozes que as antigas. Sendo a revolução o seu único luxo, para ela se precipita, não tanto para daí retirar alguns benefícios ou melhorar a sua sorte, antes para adquirir também o direito de ser insolente, vantagem que o consola das suas habituais desgraças, mas que perde assim que são abolidos os privilégios da desordem. Não havendo nenhum regime que assegure a sua salvação, acomoda-se a todos e a nenhum. E, desde o Dilúvio até ao Juízo, tudo aquilo a que pode pretender é a executar honestamente a sua missão de vencido"

- E. M. Cioran, "Histoire et Utopie", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, pp.1010-1011.

7 comentários:

Ana Margarida Esteves disse...

Indo para alem de todos os conceitos que aprendemos na escola, nos media e nos panfletos politicos. O que e o povo. Quem de digno direito se pode considerar membro dele ou auto-excluir-se de lhe pertencer.

Desculpem a falta de pontos de interrogaçao, estou a escrever de um computador antigo e com um teclado complicado.

Magalhães disse...

Estou à tua espera, Ana! Mas tu não queres saber de mim...

baal disse...

disparam em nome do povo? oHAMAS resiste em nome do Povo? Obama é o povo? O espirito da história é o povo? Por quem soís e em nome de quem lutaís...

Ana Margarida Esteves disse...

Pois é, Magalh~es, ainda estás à minha espera pois nunca te deste ao trabalho de virar o pescoço para o lado e ver que há muito que ando a tentar ir ao teu encontro. As tuas vértebras são assim tão rígidas?

José Sócrates disse...

Querida Ana, tens que ir à FNAC, já que não foste à Venezuela onde deixei tantos.
Bom Ano!

JSL disse...

Quem não for o povo não é deste planeta.

O povo somos todos enquanto povos, só que há uns que pretendem ser menos povo que outros.

Esses são os porcos do povo.

Ana Margarida Esteves disse...

Bem dito, JSL.