O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

ângelo monteiro, feridos pelo acaso

Feridos pelo acaso nossos olhos
À luz e à profecia estão vendados,
Para Emaús nós caminhamos órfãos
E o coração é cinza nesse ocaso.

Mais do que órfãos, estamos todos mortos.
E eis que irreconhecida luz abrasa
A voz do Companheiro que nos volta
Trazido pelo sonho à nossa casa.

De súbito a presença de uma vela
Acende a sua face. E, em torno, à mesa,
Quando em sua inteireza se revela,

Como um clarão se esvai. De novo sós,
Para manter sua memória acesa,
Elevamos em canto a nossa voz.

(Ângelo Monteiro é um poeta nordestino, nascido em Alagoas em 1942 e residente no Recife há várias décadas. Este poema faz parte do livro O exílio de Babel (1983 a 1989) e foi incluído na antologia pessoal Todas as coisas têm língua)

2 comentários:

Lapdrey disse...

A tua voz, aqui por outra voz se escuta...
Abraço-te de olhar.
Que os dias te sejam cálices leves, meu amigo, no peso de querermos ser todos essa leveza de asa, pétala do corpo que por certo um dia teremos...

Paulo Borges disse...

Grande poema, Francisco! Grande poema! Grande abraço neste novo ano que rompe e rompa a nossa treva!