O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Peregrinação às Fontes", um grande livro de Lanza del Vasto



"Não compreenderemos nada da política de Gandhi, se ignorarmos que a finalidade da sua política não é uma vitória política mas espiritual"

- Lanza del Vasto, Peregrinação às Fontes, Águas Santas, Edições Sempre-Em-Pé, 2010, p.117.

Um grande livro sobre a peregrinação de Lanza del Vasto à Índia e o encontro com Gandhi, finalmente publicado em Portugal, na excelente tradução de Helena Langrouva, graças à subscrição de vários amigos.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Trazer o Amor para a política

Trazer o Amor para a política, não o amor a este ou àquele, a isto ou àquilo, mas o Amor a tudo e todos, será a grande Revolução, a única digna desse nome. E isso será o bem-aventurado fim da política, que surgiu e vive da diminuição e escassez desse Amor. A única política verdadeira é aquela que, por Amor, vise tornar-se desnecessária.

sábado, 5 de junho de 2010

Um novo paradigma: o Estado ecológico

"Se se considera a primeira vocação da filosofia política, não me parece exagerado acrescentar esta nova característica do Estado racional: o Estado de direito social e democrático deve integrar também uma dimensão ecológica. Entendo por isso que a conservação dos fundamentos naturais da vida deve constituir uma das funções principais do Estado. Todo o Estado que não cumpra esta tarefa perde a sua legitimidade [...]"

- Vittorio Hösle, Philosophie de la Crise Écologique, tradução de Matthieu Dumont, Marselha, Éditions Wildproject, 2009, p.194.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

"O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de mudar o Estado"

O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de mudar o Estado. Contam eles com o voto ou a revolução. Conto eu com o curso da História e a minha vocação e o meu esforço de estar para além dela

– Agostinho da Silva, "Cortina 1" (inédito).

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

"A Arte de Viver Hoje"

"Ser outro, parecer diferente,
Não falar como outra gente,
Louvar tudo, tudo aceitar,
Mentir sempre e bem ficar,
A todo o vento dar pano,
Servir bons, maus, mano a mano,
Fazer tudo, tudo inventar
Com vista a sempre ganhar:
Quem dominar esta arte,
Na política hoje tem sorte"

- Friedrich von Logau (1604-1655), in O Cardo e a Rosa - Poesia do Barroco Alemão (tradução de João Barrento).

sábado, 3 de outubro de 2009

"Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais..."

"Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política gasta dessa lenha, e... é por isso que arde tão mal ante a Verdade e a Vida"

- Fernando Pessoa

sábado, 29 de agosto de 2009

Declaração

"...a acção pública para a criação de ambientes favoráveis à saúde necessita reconhecer a interdependência de todos os seres vivos e gerir os recursos naturais, tomando em linha de conta as necessidades das gerações futuras.
As populações indígenas possuem relações culturais e espirituais únicas com o meio ambiente físico, que podem ser exemplos valiosos para o resto do mundo.
É essencial, por este motivo, que estas populações sejam envolvidas nas actividades para o desenvolvimento sustentável e nas negociações sobre o direito à propriedade e herança cultural."

Declaração de Sundsvall, 1991, OMS

terça-feira, 9 de junho de 2009

agradável

e,depois,porque é agradável falar como toda a gente, e de dizer o sol está a nascer, enquanto toda a gente sabe que é uma maneira de falar.
gilles deleuze/felix guatarri

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Devo estar certo

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo
- Agostinho da Silva, Cortina 1 [inédito].

terça-feira, 31 de março de 2009

Agostinho da Silva: por novos "frades-políticos"

Demasiado se tem sacrificado, seja por “interesses”, “impulsos” ou pelo referido “peso das fatalidades”, ao ingresso num “grupo” contra outro, ao alistamento nessa política sectária ou “de cabila” que predomina planetariamente. É a hora de enveredar por um “caminho inteiramente diferente”, menos teórico do que activo e prático. Mas isso exige – proposta que Agostinho manterá e acentuará até ao final da vida – que surja um novo tipo humano, por uma profunda transformação do homem actual. A exemplo dos monges-guerreiros medievais, é necessário que surjam “frades políticos”, ou seja, “homens que, imolando tudo o que lhes é estritamente pessoal nas aras do geral, não queriam [queiram ?] terras separadas do céu, nem céus separados da terra, mas sempre e sempre e sempre os dois unidos no mesmo esplendor de fraternidade, de paz e de bem-aventurança”. O que só “se fará fazendo”, não “falando ou escrevendo ou pensando”. Para o que aponta vias concretas: “não-intervenção absoluta na política de grupos”, “escolha, para governantes, de homens e não de legendas”; “atenção aos problemas locais e imediatos e não só aos planetários e futuros”.
A “base de tudo”, porém, terá de ser a interiorização do combate, já não movido a qualquer adversário exterior, mas ao que em si menos vale, a luta que visa não a conquista do poder, mas a “conquista e domínio de si mesmo”, pela via única que “têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus”. É a acção interior, mais difícil e exigente, que torna verdadeira e benéfica a intervenção exterior.

- Excerto da minha comunicação, "Política e Espiritualidade em Agostinho da Silva", a apresentar no Colóquio do dia 3 de Abril, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Para quem a palavra "Deus" seja de menos ou demasiado, como para mim, pode substituir por "ausência de sujeito e objecto". "Oração contínua" também se pode substituir por absorção contínua nessa mesma ausência. Os budistas podem chamar-lhe vacuidade, desde que não se apeguem a esse conceito, mera bola de sabão, como todos os demais.

sábado, 10 de janeiro de 2009

O Umbigo do Ego e a Ética Marcial (arsénico...)

"O que está acontecendo na Palestina não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico."

Gandhi

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A Pedra no Charco: o Povo

"E o povo?", dir-se-á. O pensador ou o historiador que empregue esta palavra sem ironia desqualifica-se. O "povo", sabe-se demasiado bem a que se destina: padecer os acontecimentos e as fantasias dos governantes, prestando-se a desígnios que o abatem e anulam. Toda a experiência política, por mais "avançada" que seja, desenrola-se às suas custas, dirige-se contra ele: ele traz os estigmas da escravatura por decreto divino ou diabólico. Inútil apiedar-se dele: a sua causa é sem recurso. Nações e impérios formam-se pela sua complacência com as iniquidades de que é objecto. Não há chefe de estado ou conquistador que não o despreze; mas ele aceita este desprezo e dele vive. Cessasse de ser frouxo ou vítima, faltasse aos seus destinos, a sociedade desvanecer-se-ia e, com ela, toda a história. Não sejamos demasiado optimistas: nada nele permite considerar uma tão bela eventualidade. Tal qual é, representa um convite ao despotismo. Suporta as suas provações, por vezes solicita-as, e não se revolta contra elas senão para correr em direcção a novas, mais atrozes que as antigas. Sendo a revolução o seu único luxo, para ela se precipita, não tanto para daí retirar alguns benefícios ou melhorar a sua sorte, antes para adquirir também o direito de ser insolente, vantagem que o consola das suas habituais desgraças, mas que perde assim que são abolidos os privilégios da desordem. Não havendo nenhum regime que assegure a sua salvação, acomoda-se a todos e a nenhum. E, desde o Dilúvio até ao Juízo, tudo aquilo a que pode pretender é a executar honestamente a sua missão de vencido"

- E. M. Cioran, "Histoire et Utopie", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, pp.1010-1011.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Política, Ascese e Santidade

"É necessário que surjam no mundo, a exemplo do que foram os frades-soldados da Idade Média, frades políticos, homens que, imolando tudo o que lhes é estritamente pessoal nas aras do geral, não queriam terras separadas do céu, nem céus separados da terra, mas sempre e sempre e sempre os dois unidos no mesmo esplendor de fraternidade, de paz e de bem-aventurança. Não se suponha, porém, que isto se fará falando ou escrevendo ou pensando; isto se fará fazendo. E fazendo pela não-intervenção absoluta na política de grupos; pela escolha, para governantes, de homens e não de legendas; pela atenção aos problemas locais e imediatos e não só aos planetários e futuros; e, como base de tudo, pela conquista e domínio de si mesmo, através do caminho único que têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus"
- Agostinho da Silva, "Política e Santidade", in As Aproximações (1960), in Textos e Ensaios Filosóficos. II, Lisboa, Âncora Editora, 1999, p.24.

Apenas acrescentaria que "ascese", neste contexto, quer dizer exercício constante da mente para superar os seus limites cognitivos e afectivos (tal como um atleta se treina para ultrapassar os seus limites físicos), que "oração" pode ser para alguns "meditação", que "homens" se pode dilatar a "todos os seres" e que "Deus" se pode traduzir por Infinito ou Natureza primordial. Sem esta ascese e este amor, creio que a política é o pior dos riscos, para si e para os outros. Mas, como diz Agostinho neste texto, é por isso mesmo que os ascetas, que buscam a santidade da não-dualidade, a ela se devem dedicar: não na esfera do confronto de grupos e partidos, mas no domínio mais amplo da sua transcensão e integração no serviço do Bem comum.