O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 4 de junho de 2010

permanecer




“Deixa-te estar aqui,
perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas,
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui,
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui.

Prossegue nos gestos,
não pares,
procura permanecer,
sempre presente,
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás,
de maneira a poder dizer sou isto é certo,
mas sei que tu estás aqui.”

Ruy Belo, Toda a Terra-Todos os Poemas
Foto: A.R. Dias

2 comentários:

Rui Miguel Félix disse...

Muito belo!
Muito bela!

Belíssimos, superlativando o que carece de adjectivos que a eles se adeqúem, que a eles se moldem para sempre, que a eles se ajustem, amoldando o que apenas fica de ouvido, esse doce e belo zumbido que até uma imagem reproduz.

À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paúl
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol conntinua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias

Segunda infância in Aquele grande Rio Eufrates. Ruy Belo. p60.

Aqui o entrego, em estado líquido, a Anaedera.

Anaedera disse...

Obrigada pela líquida oferta,
no mesmo estado das lágrimas que ainda permanecem, nos olhos!
Mas as quais aceito,
com gratidão e confiança.