O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 30 de junho de 2010

-oferta-



Quero a fome de calar-me.
O silêncio. Único
Recado que repito para que me não esqueça.
Pedra,
Que trago para sentar-me no banquete.

A única glória no mundo - ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha,
Como abres a fonte, o curso caudaloso
da vergôntea -a sombra com que jorras do rochedo.

Quero o jorro da escrita verdadeira,
A dolorosa chaga do pastor,
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco,
Os sentidos que dispersam o rebanho.
Estendo as direcções,
Estudo-lhes a flor -várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros.
Os caminhos seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas -pequenos nenúfares celestes.
As estrelas como as pinhas fechadas caem - quero fechar-me e cair.
O silêncio Alveolar expira e eu,
Estendo-as sobre a mesa da aliança.

Daniel Faria, Quero a fome de calar-me