O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

QUARTOS PEGADOS

Ao Prof. Doutor José Reis

Naquela casa ao cimo da montanha
dois quartos há com fecho a cadeado:
num mora ador, noutro o prazer que estranha
a dor morar exactamente ao lado.

Sem que haja entre eles comunicação,
ambos os inquilinos mutuamente
se espiam com a máxima atenção,
ainda que por causa diferente.

Inveja a dor a sorte do prazer,
cuja existência, por assim dizer,
é um mar de rosas perfumando o ar.

Por sua vez, tem o prazer receio
que a dor acabe por achar um meio
de em cardos suas rosas transmutar!

JOÃO DE CASTRO NUNES

4 comentários:

Damien disse...

Vim aqui apenas para dizer:

"Bom dia, mestre!
O douto senhor doutor está?
É que vou de férias. Sabáticas.
Sine diae.
Aqui lhe deixo o farfalho e o ressono do meu silêncio."

João de Castro Nunes disse...

Boas férias, senhor DANIEN! E divirta-se e não se engasgue, aos lanches, com os seixps rolados com geleia! E, já agora, deite uma olhadela ao seu ltim!... Olhe que não se diz "sine diae, mas "sine die". Elementar! JCN

Damien disse...

Já de saída (para férias) ainda lhe faço a justiça de deixar dito:

Grato pelo reparo.
A propósito: em português (e, em latim, também não) não existe coisa chamada "seixps". O mais cercano disso é "seixos". Seria o caso? E também não há algo como "ltim". Seria latim? Mau!
Vigie o seu caligrafar do português, meu caro.
Afigura-me mais vivo do que o latim. Mesmo com erros.

Viu-se, entrementes, a sua (a melhor?) competência de docente, professor e mestre: emendador de erros, lapsos e relapsos. Será só?
Fica-me a dúvida, e a certeza também!

Abraço condiscipular!

João de Castro Nunes disse...

"Condiscipular", vírgula, senhor DAMIEN! Ainda não chegámos aí!...
Quanto às gralhas ("seixps" por "seixos" e "ltim" por "latiM"), evitei corrigi-las por vossemecê ser avesso a tais minudências. Será que V. Exª não tem cachimónia para, só por si, superar essas minudências "caligráficas" (não quereria dizer "dactilográficas"?)?
Olhe que o "sine diae" não é lapso de escrita, mas de pontapé de gramática do velho latim, que vossemecê só deve conhecer pela rama... para citações circunstanciais. Desculpe o "claro grito" do poeta, que reitera os seus augúricos votos de boas férias. Vejamos se é desta feita que V. Exª vai mesmo de férias com um bom fornecimento de "seixos" rolados... para o que der e vier!