O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Mestre

Professor é alguém que ajuda os outros a aprender; Mestre é, sobretudo, aquele que ajuda os outros a "desaprender": a desaprender conceitos errados de vida, de verdade, de sabedoria, de Amor... Conceitos que vamos sedimentando e alimentando ao longo dos anos e que, por isso mesmo, passaram a constituir verdades inquestionáveis.

José Flórido, Reencontrar Agostinho da Silva, Zéfiro

9 comentários:

olivromorreu disse...

Desaprender para reaprender a viver. Abraço Kunzang, és sábio!

Kunzang Dorje disse...

eu não... limito-me a desaprender com os mestres...
abraço

frAgMentus disse...

desaprender o que significa?

desligamento da cultura que nos é transmitida logo à nascença?

e/ou olhar desprendido, em termos de posse material/física dos fenómenos?

João de Castro Nunes disse...

No meu conceito e nos árduos domínios da pedagogia, MESTRE é o PROFESSOR que, em vez de ALUNOS, tem DISCÍPULOS que prepara com vista a serem futuros MESTRES. numa cadeia ininterrupta de transmissão de uma certa maneira de assumir a SABEDORIA, em complemento ou superação do SABER propriamente dito. Certo ou errado?... JCN

Damien disse...

O que, parece-me, está aqui em questão é a subtil, mas muito importante, diferença entre "ensinar a aprender" (que faz, ou deve fazer, o professor) e o mostrar como "aprender a aprender" (que é o que faz o mestre).

Por se confundir, baralhar e, assim, menosprezar tal fundamental diferença é que temos um ensino (a palavra diz tudo) baseado no que haja de ensinar o professor e não no que possa aprender o aluno.

Depois, dá o que dá: nem o professor ensina realmente, nem o aluno aprende verdadeiramente...

P.S.
O ajudar, ou não ajudar, a aprender ou a ensinar é, parece-me, de somenos: libertemos a educação do ajudismo e do facilitismo.

A facilidade só nos devolve o fácil de encontrar que a preguiça em procurar logra achar.

Paulo Borges disse...

Interessantíssimo debate! Vejo verdade em tudo o que dizem. E o que terá para dizer o Paulo Feitais?

João de Castro Nunes disse...

O MESTRE não ensina o que vem nos livros; ensina-se a si mesmo, arvorando-se em padrão! JCN

Paulo Feitais disse...

O Paulo feitais chegou atrasado...;)
Penso que a mestria, neste sentido, se partilha no espaço-tempo da aula. Nada como umas turmas irrequietas para nos fazerem lá deixar a pele, e muitas coisas mais que só nos pesam.
Não troco por nada deste mundo estas horas de antecipação em que, com o ano lectivo aí a arrebentar e de horário na mão, tentamos adivinhar como serão as turmas, como reagirão os alunos ao primeiro encontro, como iremos, todos, entender-nos e desentender-nos ao longo do ano.
E depois há coisas tramadas: quando estive internado tive a grata surpresa de descobrir que uma das enfermeiras tinha sido minha aluna. Notei o seu nervosismo a espetar-me a agulha do soro, depois de nos termos reconhecido. Estávamos ambos a desaprender a velha relação que se cristalizara na nossa mente. Não sei se ela se apercebeu da morte do seu professor de filosofia do 11º ano, uma morte natural que ocorre no fim de cada ano lectivo. Eu apercebi-me que os alunos depressa desaprendem de o ser. E o que fica não são as matérias leccionadas e assimiladas, mas o encontro que isso ocasiona.
:)

João de Castro Nunes disse...

O Professor actua nas salas de aula; o Mestre para além delas, pela vida fora. O Professor enriquece os conhecimentos dos respectivos alunos; o Mestre marca as suas personalidades. Indelevelmente! O Mestre, mais que ensinar, procura despertar nos seus discípulos o gosto pela aprendizagem, por forma a serem próprios os mestres de si mesmos. Não é tarefa fácil. Não vem nos compêndios. É um dom natural. Que se cultiva, obviamente; mas que resulta primordialmente de um carismático poder de sedução e persuasão em t3ermos de docência. O aluno aprende; o discípulo... segue-nos. É o fiel depositário do nosso legado mental. É quem nos continua e, eventualmente, nos supera. Com isso... nos regozijamos. Como um pai vê prosperar um filho. JCN