O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 12 de julho de 2009

Da Saudade e da "Índia de miragem"

“Saudade… […] movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem, que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização de toda a nossa alma”

– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.

13 comentários:

Nuno Maltez disse...

O que é a polarização da alma? É entre eu e outro? Ou é entre agora, antes e depois? Presença e ausência (estas reportam-nos ao tempo)? Ou nada disto?

Nuno Maltez disse...

Encontrei umas páginas sobre saudade. Algumas identificam-na com solidão. Outras não.

E estes versos muito belos daqui http://www.hottopos.com/videtur19/saudadebeto.htm

Uma sodade é dor que não consola,
Quanto mais dói a gente qué lembrá (...)
O que é sodade,
Uma lembrança que vancê nunca sentiu. (...)
No dia que doê seu coração,
De uma sodade que eu tanto senti. [xv]

Ninguém compreende, a grande dor que sente
Um filho ausente a suspirar por ti.
Uma saudade que punge e mata, que sorte ingrata
Longe daqui. [xvi]

Saudade palavra triste quando se perde um grande amor
Na estrada longa da vida, eu vou chorando a minha dor. [xvii]

A saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio irá se aninhar...
A saudade mata a gente, morena,
A saudade é dor pungente, morena! [xviii]

Ainda ontem, chorei de saudade,
Relendo a carta
E sentindo o perfume,
Mas o que fazer com essa dor que me invade [xix] ?

A tua saudade corta,
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d’água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai

Nuno Maltez disse...

A semântica da palavra saudade é apresentada, por Joaquim de Carvalho, como fruto do advérbio salu, estar só fisicamente ou psicologicamente; evoluindo para solitas, solidão, e solitudo, solitude; passando, finalmente, a soledade. Soledade e saudade têm a mesma origem mas, significados diferentes: soledade significa consciência isolada e autocontemplativa, enquanto que, saudade remete para a evocação de um passado vivido. Para o autor a evolução continuou, por Frei Amador, que modificou a palavra soledade para saudade, permanecendo o seu significado. Desta evolução não existem certezas, mas, de certa forma, D. Duarte e Gil Vicente provam-na. D. Duarte afirmando que saudade é tão próprio que não há possível tradução; Gil Vicente recorreu a soledad e, inventou saludad, para não ter que exprimir o conceito em castelhano.

daqui

http://209.85.229.132/search?q=cache:wdCgBJqFrm0J:www.exames.org/apontamentos/Filosofia/filosofia-elementosconstitutivosconsciencia.doc+soledad+e+saudade&cd=3&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

Nuno Maltez disse...

ah. é entre as índias e as índias de miragem.

Nuno Maltez disse...

mas se na alma só há miragem...

Nuno Maltez disse...

ah ele quer dizer que o homem anda entre este e o outro mundo, ora cá ora lá, num movimento incessante. mas a saudade não é isso. o homem saudoso dirige-se sempre para lá, o seu movimento incessante é incessante saída. não há polarização, há direcção.

Nuno Maltez disse...

então... a consciência saudosa existe no infinito, fora do mundo de contingências em que o corpo sensível está.

tem poder para ir e vir, entre mundos caminhar, se Sua Excelência o Ego assim determinar.

olho para tudo isto e vejo egos, realmente vejo egos. uns de uma maneira outros de outra, uns que se expõem de um modo e outros de outro, mas egos, pequenos egos batalhando a sua batalha, cada um dando o seu pequeno gritinho.

Nuno Maltez disse...

de que nos vale a saudade se a saudade é dor? há uma pequena, mórbida e masoquista sensação ao relembrar o objecto da saudade. a saudade de facto torna-se dor, como afirma o poeta "na estrada longa da vida, eu vou chorando a minha dor". e se isso é o fado valha-nos o carmo e a trindade.

Nuno Maltez disse...

fado. sofrer. comprazimento da alma na tristeza. consolo na tristeza. apreciação das coisas tristes. comprazimento nas coisas tristes. apego às coisas tristes. busca de consolo para a tristeza através de coisas tristes. fado. tristeza.

Nuno Maltez disse...

www.naterradovento.blogspot.com

Kunzang Dorje disse...

«aquela Índia de miragem» - julgo que a meditação permite pressentir a Índia de miragem ou, o Céu e a Terra de que Leonardo Coimbra nos fala. Sogyal Rinpoche, em «O Livro Tibetano da Vida e da Morte» conta-nos como o Mestre Jamyang Khientse explica a um discípulo seu como se medita:
«-Olha, é assim: quando o pensamento passado cessou e o futuro ainda não nasceu, não há um intervalo?
-Sim, respondeu Apa Pant.
-Pois bem, prolonga-o. É isso a meditação.»

Grato pelo momento de reflexão:)

Paulo Borges disse...

Tornemo-nos nesse imenso intervalo.

mafioso disse...

ó mestre, tu só pensas em intervalos!