O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 30 de julho de 2009

X

Não é como se a mão hesitasse no gesto fundador.
O movimento espera que um astro se incendeie
em todos os tendões
para que nenhuma palavra seja o frio nexo da loucura
ou o vento soprado como sangue.
Uma pedra sobre a boca pode ser o único sustento
para essa fome.
Mas a mão que escreve avança como faca
arrancando à garganta o seu êxtase carbonizado.
A violência é a religião de Deus.


de O vento soprado como sangue, Cosmorama, 2009.

4 comentários:

Isabel Santiago disse...

João,

Chegou-me hoje o livro às mãos. Chegou e senti-me "soprada como sangue", em golfadas fulminantes, porque não mereço nada do que me dedidaste. Hoje o dia parece pequenino com o grande que lá está e não sou eu. Um exagero que mima o que deveria ser e ainda não consigo. E vem-me a pergunta funda: como pude eu ter o privilégio de ter um aluno que se tornou poeta? Ou que a vida fez com que fosse poeta? Lembro os teus olhos parados na primeira carteira, de volta das sombras e dos ecos. Da impaciência em torno do vazio que se gera quando há bloqueios no que se ensina e aprende, lembro o cd que me deste com as tuas músicas preferidas e com as que tocavas, lembrarei para sempre a tua mão a correr pelos ferros do gradeamento da escola e pensar: "tanto ritmo à procura da expresão...". Lembro a tua timidez ofuscante, o medo da Directora de Turma em que explodisses e a minha calma nos dias, pelas terças e pelas quintas em que havia aula,para te acarinhar da incompreensão dos outros. Lembro que era difícil o teu sorriso, mas era rasgado pelo esplendor da Palavra...e ela brilha como um astro nos meus olhos cansados do mundo.

Nunca te saberei agradecer! Que o livro te encha de glória.

Sereia* disse...

cheguei pra ler...
encontrei estas palavras que me soam ao ouvido e me fazem querer ler o livro :)

Obrigada pela partilha, João*

Isabel Santiago disse...

Querida Sereia ler o que o João escreve é ficar plena de vontade de poesia, ainda mais do que aquela que há em ti naturalmente.

Anónimo disse...

(++)