O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Espanha: somos cadáveres. Seremos sementes?

"Em Espanha a vida ainda não é eficaz, isto é, não é ainda mecanizada; para o Espanhol, a beleza é mais importante que a utilidade prática; o sentimento mais importante que o êxito; o amor e a amizade mais importantes que o trabalho. Em resumo, o que se sente é o atractivo de uma civilização próxima de nós, estreitamente ligada ao passado político da Europa, mas que recusou empenhar-se na via que é a nossa, a da mecânica, da religião da quantidade e do aspecto utilitário das coisas.

[...] o movimento popular espanhol não se dirige contra um capitalismo chegado ao termo do seu desenvolvimento... mas contra a própria existência desse capitalismo em Espanha... A concepção materialista da história, fundada na crença no progresso, jamais encontrou eco junto dele... O que fere a consciência do movimento operário e camponês espanhol não é a ideia de um capitalismo que se perpetuaria indefinidamente, mas a própria aparição desse capitalismo. Tal é para mim a chave da posição privilegiada do anarquismo em Espanha"

Creio que Espanha pode designar aqui Hispânia, Península Ibérica. Assistimos hoje ao enterro das últimas resistências a este processo. Somos esses semi-cadáveres. Serão os mortos sementes?

- F. Borkenau, Spanish Cockpit (1936-1937), Paris, Champ Libre, 1974, pp.28 e 29-30 (Michael Löwy / Robert Sayre, Révolte et mélancolie. Le romantisme à contre-courant de la modernité, Paris, Payot, 2007, p.113).

12 comentários:

opinião disse...

Há textos interessantes sobre a rebeldia.

de cabelo em crista disse...

Tendo em conta que isto está aberto ao público, deviam satisfazer toda a gente.

baal disse...

é interessante a ideia de transcendência do anarquismo espanhol e, concordo, português. transcendência encontrada não na religião mas numa 'força estranha'.
por todo o lado forças lutam contra o neo-liberalismo, possivelmente sem o sonho dos resistentes na península, mas isso é nosso.
aconselho(?) a 'praça diamante'de mercês reb(d)oreda.
por uma anarquia da felicidade. pela lu(t)a.

força estranha disse...

O teu caso é outro baal - gaguez e neurose. Tu desejas falar, mas não consegues. Só consegues a insatisfação do interlocutor. Um gago é um impotente oral. Tenta ser sedutor verbalmente, mas depois hesita em revelar-se. Exprimes a duplicidade do teu inconsciente. Mas acredito que depois de várias sessões fiques bem.

Kunzang Dorje disse...

Julgo que nos tornaremos sementes quando tivermos coragem de lutar contra os pilares neo-liberais que sustentam o mundo que nos rodeia. Todavia, antes de nos virarmos para fora, teremos de eliminar a força-matriz que obscurece o nosso espírito, o ego. Eliminar passa simplesmente por reconhecer a verdadeira natureza dessa força que é vazia e desprovida de realidade intrínseca. Lutar contra sistemas que nos aprisionam é lutar contra as forças "neo-liberais" que ilusoriamente habitam dentro de nós: o apego, a aversão e a surdez perante a voz interior que nós somos, a nossa eternidade. Seremos livres quando formos capazes de re-conhecer a natureza do desejo como simplesmente uma emanação, uma auto-radiância do nosso continuum. Seremos livres quando disciplinarmos todos os dias a nossa mente através da meditação e re-conhecer o que nós somos por entre véus e energias que não são mais do que aquilo que nós somos. Seremos livres quando um dia despertarmos e constatarmos que afinal não despertámos, que afinal nós não somos e que não ser é ser na eternidade as "sementes" de um mundo livre, des-coberto e amoroso.
ÀS ARMAS!

baal disse...

é assim força estranha, é o hábito da clandestinidade, neurose não me parece mas aceito. duplicidade do inconsciente também não, tentar ser sedutor muito menos, obrigado pela sugestão, vou começar a ir mais vezes ao cinema.

hi no disse...

Contra os canhões não marchar!

clandestina disse...

Baal, vai ver "A nona porta".

boa sugestão disse...

vale bem a pena... é espectacular!

Anónimo disse...

Seremos livres quando formos felizes.

Anónimo disse...

Todos os cadáveres são sementes de algo. Mas cadavéricos já nada podem. Só quem ainda não morreu pode lutar.

Paulo Borges disse...

Baal e Kunzang Dorje, gostei dos comentários. Saúde!